Caetano Veloso chora ao falar de Gal, mata saudade de 13 anos e aborda dilemas em Florianópolis

Cantor apresentou por duas noites a turnê do álbum Meu Coco, que trata sobre o Brasil contemporâneo e faz balanço da música brasileira

Foto de Felipe Bottamedi

Felipe Bottamedi Florianópolis

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“Fazia 12 anos que não vinha. Tinha saudades. O lugar é bonito e tudo será bonito aqui”, disse Caetano Veloso na noite deste domingo (20) em Florianópolis. Era a abertura do segundo show que apresentou neste fim de semana no Stage Music Park, em Jurerê. Na verdade, eram 13 anos – a apresentação anterior fora em 2009, pela turnê do álbum Zii e Zie.

Desde de lá muita coisa mudou: as big techs e as redes sociais se consolidaram, o cantor completou oito décadas de vida e cinco de carreira, a amiga e parceira musical de décadas Gal Costa morreu e o Brasil se polarizou. O repertório musical apresentado por quase duas horas mesclou tudo isso.

Caetano Veloso em FlorianópolisCantor mesclou clássicos e atuais no repertório. Ao citar Gal Costa, se emocionou – Foto: David Welter/Stage Music Park/Divulgação/ND

Vestindo camisa cinza e paletó preto, Caetano trouxe a turnê Meu Coco ao público ilhéu, que assistiu sentado ao cantor de 80 anos. A princípio, o tropicalista apresentaria apenas um show na Capital, mas como os ingressos esgotaram rapidamente, uma sessão extra foi aberta. O valor das entradas oscilou entre R$ 190 e R$ 600.

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O álbum lançado em 2021 aborda dilemas brasileiros – a aceleração do mundo digital, o “horror” com a disseminação das fake news e de mensagens de ódios pelas redes sociais e suas consequências políticas. A decoração do palco, tomada por figuras geométricas, insinua a complexidade do que estava sendo cantado.

Ao mesmo tempo, a obra tem seus momentos de beleza: ele canta sobre o “canto de querubim” do neto e faz seus já tradicionais balanços sobre a música brasileira, realçando desde os contemporâneos (Gabriel do Borel e Gloria Groove, para citar algum) até os já consolidados (Paulhinho da Viola e Gilberto Gil, por exemplo). É um Caetano Veloso refletindo sobre como a trajetória da música brasileira se entrelaça com os caminhos trilhados pelo país.

O repertório era mesclado com os clássicos produzidos nos quase 55 anos de carreira de Caetano Veloso. A escolha deu leveza: Enzo Gabriel, canção recente que discorre sobre a responsabilidade da nova geração na “salvação do mundo”, é seguida por “Leãozinho”, escrita no fim dos anos 1970 e que de tão doce pode ser confundida com uma música infantil.

Os espetáculos tiveram momentos de extrema comoção. Na apresentação de sábado (19), ao cantar Trilhos Urbanos (canção de 1978), Caetano Veloso caiu no choro ao citar Gal Costa. No verso “trilhos urbanos, Gal cantando o balancê” a voz do tropicalista foi embargando aos poucos. O momento foi divulgado pela esposa, Paula Lavigne.

Já na noite de domingo (20), foi o público que foi ao delírio quando Veloso cantou a música.

As apresentações em Florianópolis foram as primeiras desde a morte da cantora. Foi com Gal que Caetano estreou na música em 1967, assinando o álbum bossanovista “Domingo”. Também figuraram entre os fundadores da Tropicália, movimento que propôs novas diretrizes da música brasileira a partir da antropofagia de diferentes ritmos.

O nome da baiana também foi invocado na música “Baby”, escrita por Caetano e famosa na interpretação de Gal Costa. Uma das grandes surpresas do repertório foi “Mansidão”, outra escrita por Caetano Veloso e cantada por Gal.

Também entraram no repertório clássicos como “A Bossa Nova é Foda”, “Araçá Azul”, “Cajuína”,  “Elegia”, “Reconvexo” e “Lua de São Jorge”. Veloso interrompia os shows para contar histórias sobre a carreira e celebrou os cinquenta anos do álbum “Transa”, de 1972 e produzido na Inglaterra. É hoje a obra mais cultuada entre os jovens.

Nas canções mais animadas, como o encerramento com “Luz de Tieta”, todo mundo se levantou e dançou.

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