Jingles ajudam a colocar candidatos de SC na boca do povo

Por trás deles existem os “culpados”, os criadores e produtores, homens e mulheres que passam horas compondo e produzindo aquela música que ficará martelando na cabeça do eleitor

Foto de Paulo Rolemberg

Paulo Rolemberg Florianópolis

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Quem já não se pegou cantarolando algum refrão de uma música que ouviu em uma propaganda eleitoral nas ruas ou na TV? Isso já pode ter acontecido com você. São os famosos jingles de campanha, que fazem muito sucesso quando o assunto é divulgar o candidato.

“A coisa importante do jingle político é nome e número”, diz Murillo Valente – Foto: Leo Munhoz/ND“A coisa importante do jingle político é nome e número”, diz Murillo Valente – Foto: Leo Munhoz/ND

Por serem bastante criativas e contagiantes, essas canções são uma ótima forma de colocar o nome e o número do candidato na boca do povo e podem fazer toda a diferença na hora da votação.

Não é à toa que muitas se tornaram bastante famosas e até entraram para a história da propaganda eleitoral. O famoso jingle é uma das marcas registradas nos anos eleitorais, e por trás dele existem os “culpados”, os criadores e produtores de jingle, homens e mulheres que passaram horas compondo e produzindo aquela música que ficará martelando na cabeça do povo.

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Entre eles está o músico e compositor Murillo Valente. Sem conseguir mensurar o número de jingles criados ao longo de quase 40 anos de carreira na criação de jingles publicitários e eleitorais, ele foi responsável pela música de campanha do prefeito de Florianópolis, Edson Andrino, em 1985, entre outros prefeitos eleitos na Capital catarinense.

Além de uma campanha presidencial em Cabo Verde, país localizado na África Ocidental, constituído por dez ilhas e cinco ilhotas.

Valente compôs nesta eleição mais de 60 jingles – Foto: Leo Munhoz/NDValente compôs nesta eleição mais de 60 jingles – Foto: Leo Munhoz/ND

Para a campanha deste ano, Murillo acabou recebendo uma demanda de 58 jingles, todos de candidatos de uma mesma coligação. Para chegar ao ouvido do eleitor, a criação do jingle passa por um processo que vai desde a captação do candidato até as ruas, leva em média dois dias.

São quatro etapas: captação da produtora com informações do candidato; criação da letra e música; instrumentalização da letra e gravação das vozes dos cantores; e mixagem final.

“A gente precisa ter o briefing (conjunto de informações), cada candidato quer uma coisa. Eu tenho uma produtora que é a Ana Paula, que ela entra em contato com o candidato, aí puxa o que eles querem, como é o nome de urna, qual é o slogan, as propostas, o conceito da campanha, as bandeiras do candidato. Eu pego todos esses dados e a partir deles eu começo a criar a letra”, explica Murillo.

No momento da chegada da reportagem, Murillo estava exercendo seu processo criativo para mais um jingle de uma candidata a deputada estadual, que tem o forró como ritmo.

A criação do jingle passa por um processo que leva em média dois dias. – Foto: Leo Munhoz/NDA criação do jingle passa por um processo que leva em média dois dias. – Foto: Leo Munhoz/ND

O produtor musical ressalta que a música na campanha eleitoral tem como o objetivo final fixar no eleitor o nome e o número do candidato.

“Tenho que criar a letra baseada numa ideia. Eu crio a ideia, a batida, o astral da música e construo a melodia em cima da daquela harmonia para poder ficar certinho”, conta.

“Aí depois disso, aí eu fico mexendo na letra, fico lapidando a letra, troco uma palavra, troco outra. A coisa importante do jingle político é nome e número. Tem que repetir nome e número no refrão. Se tu faz um número e nome que colhe legal na cabeça do eleitor, ele vai pra urna com aquilo. É basicamente assim”, detalha.

Fim das paródias e tendência do sertanejo

A paródia – mistura da sua melodia com uma letra diferente – gera controvérsias. De acordo com a Lei de Direitos Autorais, no artigo 47, as paródias não geram nenhum tipo de punição por violação de direitos, uma vez que não são “verdadeiras reproduções da obra originária nem lhe implicam descrédito”.

Ou seja, qualquer pessoa pode fazer a paródia de uma música de um artista conhecido, sem que, para isso, tenha que pagar ou pedir cedência de direitos autorais.

Mesmo assim, alguns profissionais alertam para brechas que os advogados podem encontrar na lei, o que pode resultar em perdas judiciais para o candidato, caso haja um processo. Por esse motivo, eles recomendam o uso de músicas 100% originais.

Em fevereiro deste ano, cerca de 350 artistas se mobilizaram para defender os direitos autorais. Nomes como Milton Nascimento, Marisa Monte, Lulu Santos e Emicida pediram eleições limpas e respeito aos profissionais da música.

Em 2014, o deputado federal Tiririca (PL-SP) fez uma versão de “O portão”, de Roberto e Erasmo Carlos. O caso foi parar na Justiça. Murillo Valente diz que este ano, alguns candidatos pediram, mas ele não faz. “Pedem muito”, diz ele.

Jovane Gregorini, o Greg, músico, compositor e arranjador – Foto: Divulgação/NDJovane Gregorini, o Greg, músico, compositor e arranjador – Foto: Divulgação/ND

Segundo Jovane Gregorini, o Greg, músico, compositor e arranjador, que trabalha há mais de 20 anos com áudio publicitário, este ano ficou de fora da produção dos jingles eleitorais em virtude da demanda de outras áreas de sua produtora, localizada na cidade de Chapecó, por muitas vezes, o candidato quer fazer que é o hit do momento.

“O cara ainda estava naquela nóia de fazer uma paródia. Isso não existe, isso aí sempre foi crime. A não ser que tenha os direitos autorais liberados para você poder utilizar. A pessoa sempre tinha aquela ideia de querer fazer pelo modismo. Todo mundo canta. E eu acho que é um tiro no pé. Porque você não cria identidade para o candidato. O cara está simplesmente repetindo uma coisa que já existe”, ressaltou.

De acordo com Valente, curiosamente na campanha deste ano o número de pedidos foi menor, e os candidatos enviaram músicas de referência, em especial o ritmo sertanejo. “É uma tendência hoje. Vou te falar que é 80%”.

Valente lembra casos de candidatos que pedem outros estilos musicais, como foi o caso de um amante do motociclismo que pediu um rock no jingle. Outro que é policial militar solicitou um ritmo parecido com a música “Tropa de Elite”, da banda Tihuana. “Fizemos uma pedreira que foi até bonito”, disse sorrindo.

Jingle mais curto

O músico Greg destacou que o tempo menor nos programas eleitorais de rádio e TV fez também com que a duração dos jingles acabasse reduzido. A média, segundo ele, é de um minuto e meio a dois minutos.

Compositor e produtor cultural Murillo Valente mostra como surgem os jingles políticos – Vídeo: Leo Munhoz/ND

Segundo Murillo, as “musiquinhas” dos candidatos hoje são feitas para serem tocadas nas ruas, em eventos.

“Antigamente se fazia jingle de três, quatro minutos, isso não existe mais. Hoje é no máximo um minuto e olha lá. Porque os meios são diferentes. Hoje é um TikTok, hoje são as redes sociais, então é tudo muito curto, as pessoas não têm tempo de ficar parando, escutando uma introdução só de gaita, por exemplo, com apelo emotivo de dez segundos como tinha antigamente”, avaliou Greg.

Processo criativo

Para Greg, quando se trata de jingle eleitoral, não foge muito do estilo publicitário para a construção do produto final. “A partir do momento que o cliente vem até mim, é desenvolver um briefing bem elaborado.

Antes de começar a produzir é catar o máximo de informações possíveis: como é a persona desse candidato, é um candidato jovem, quais são as propostas, é um candidato que já tem uma certa idade. Tudo isso influencia”, ressaltou.

Até mesmo a estratégia visual, como as cores usadas pelo candidato influenciam na criação do jingle, segundo Greg. “Tudo isso influencia na psicoacústica também. O cara tem uma proposta visual, eu não posso fugir daquilo”, destacou.

E depois de ter esse briefing bem elaborado, com palavras-chave, frases de apoio, o que tem que ser mais destacado, o que tem que ser mais enfatizado. Munido de todas essas informações, começa a desenvolver uma referência musical.

Após a aprovação do contratante começa a desenvolver a letra, melodia, ritmo e finalização. Esse processo dura cerca de quatro a cinco dias. É unânime entre os produtores musicais que o segredo do jingle é o refrão. Porém, para chegar no refrão tem que ter uma introdução. “Tem que preparar o ouvinte, para chegar no refrão”, comentou Greg.

Jingles que ficam grudados

Greg lembra que há jingles independentemente de partido e de ideologia política que ficaram grudados em corações e mentes das pessoas.

“O do ex-presidente Fernando Henrique (campanha de 1994) na época fez um jingle, não lembro quem que foi a produtora ou quem fez, é muito bom. Os caras conseguiram acertar um jingle que fica atemporal”, disse ele, ao lembrar também do jingle do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Trabalho musical

Depois de montar a letra e a melodia, o jingle parte para o processo final com a gravação das vozes e mixagem da música. “Ele passa as melodias e o estilo que deseja. E eu faço toda produção, os arranjos, contato com os cantores que serão adequados para cada tipo de jingle. Envio as melodias para eles e recebo elas com as vozes”, explicou Renato Rech, conhecido como Renato Casca.

Ele, que já produziu este ano cerca de 80 jingles, disse que o processo dura cerca de duas horas, a depender da gravação dos cantores.