Lui Barbosa Almeida explora influência de video games no novo álbum do projeto Cereja Azul

O disco possui versões eletrônicas de faixas do grupo Expresso Rural, do ex-Titã Arnaldo Antunes e do programa infantil Castelo Rá-Tim-Bum

Foto de Gustavo Bruning

Gustavo Bruning Florianópolis

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O rosto retratado em um enorme quadro, na sala de um apartamento da região continental de Florianópolis, lembra um morador que ali fez história: o músico e poeta Zininho. Anos após ele ter composto o tradicional Rancho de Amor à Ilha, o antigo estúdio do ícone local se transformou no laboratório musical de um novo artista. Aos 29 anos, Lui Barbosa Almeida, criador do projeto Cereja Azul, reconhece a importância do avô, mas revela evitar o ‘nepotismo’. O seu quinto álbum, lançado recentemente na internet, recebeu o nome de “電子合唱 – 青桜 –” (Coro Eletrônico Cereja Azul, em tradução livre) e reflete uma década de experiência com programas de edição de som.

Lui Barbosa Almeida lançou em 2017 o quinto álbum do projeto Cereja Azul - Flávio Tin/ND
Lui Barbosa Almeida lançou em 2017 o quinto álbum do projeto Cereja Azul – Flávio Tin/ND

O disco eletrônico tem como influências os jogos de videogame que caracterizaram a infância de Lui e não surpreende apenas por se diferir do tradicional processo de produção musical, mas também por abraçar ouvintes de décadas como 1980, 1990 e 2000. Há versões singulares de faixas do grupo local Expresso Rural, do ex-Titã Arnaldo Antunes e até mesmo do programa infantil Castelo Rá-Tim-Bum. Com o álbum, o artista se distancia da sonoridade do avô ao mesmo tempo em que busca evoluir ainda mais a própria identidade musical. “Eu estudo [a obra do Zininho], toco quase todas as músicas e tenho arranjos para elas, mas acho importante não confundir com as minhas”, conta.

O que motivou Lui a investir no novo projeto foi a curiosidade de descobrir como a manipulação dos sons poderia simular os instrumentos. Somado ao aprendizado vindo do curso de música na Udesc, que ele pretende retomar este ano, criou uma mescla cultural a partir da ideia do Manifesto Antropofágico, de Oswald de Andrade. Enquanto a faixa “Circo” foi escrita pensando no timbre e nos videogames, “Buquê de gabiroba” trata-se do terceiro arranjo de uma mesma faixa – o primeiro foi criado por Lui há anos, o segundo foi trabalhado com a banda do músico, A Inquisição Espanhola, e o terceiro foi desconstruído na nova releitura eletrônica.

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O catarinense começou a estudar música aos 13 anos e sentiu vontade de experimentar o próprio som – utilizava o gravador de fita cassete do avô para esboçar as primeiras canções. Além das aulas de harmonia, baixo e canto, e do apoio dos amigos para que se familiarizasse com a guitarra, ele estudou leitura musical e técnica de violão. “Eu queria misturar o erudito com rock em músicas que eu gostava”, conta.

“Tudo mudou quando eu ganhei o computador e descobri o tal do overdub, apesar de não saber o que significava”, conta. A técnica, que consiste em sobrepor novas gravações a faixas previamente gravadas, permitiu que o artista fortalecesse um de seus lemas: o “do it yourself”, do movimento punk. “Eu deixo aparecer os erros [nas gravações], porque na mesma medida aparecem os acertos”, revela. Enquanto em 2009 o desafio era unir três vozes em uma faixa, hoje é possível simular os mais diversos instrumentos. A dificuldade, entretatanto, é estabelecer um limite e concluir o material – para Lui, a vontade de continuar aperfeiçoando a faixa é constante.

A prática da produção individual funciona, segundo o músico, especialmente no projeto Cereja Azul. “A Cereja Azul é um laboratório, um lugar de estudo. Essa coisa [do “do it yourself”] permite que eu manipule todos os elementos quando eu faço os efeitos, e eu evito utilizar os presets [configurações padrão] que o programa oferece”, explica. O processo de composição, declara, é uma forma de entrega à música. “Eu sei que há uma subjetividade, mas eu evito pensar no outro. É quase como se eu evitasse pensar e tentasse me levar pela própria música”. De acordo com Lui, é importante despertar a curiosidade do ouvinte, mas também não concluir o questionamento. Mesmo não sendo voltado para o rádio, ele acredita que o material pode ser classificado como pop, devido à estrutura das faixas e intenção por trás do som.

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