Sentar ao lado de Rute Ferreira Gebler, ainda mais na frente do palco, na plateia vazia de um teatro, é certeza de grandes emoções. Ao mesmo tempo em que fala da vida, da carreira e do próximo espetáculo, ela brinda o repórter com pérolas de seu vasto repertório camerístico. Pequenos trechos de “A Noviça Rebelde”, “My Fair Lady” e “Ave Maria” reverberam no ar, enquanto os técnicos, a poucos metros dali, acertam detalhes da festa dos 80 anos da soprano e maestrina – um resumo dos grandes momentos de sua trajetória, que supera sete décadas.
São sete décadas, sim, mas isso não reduz o entusiasmo e a paixão que afloram a cada lembrança, na medida em que mostra fotografias da infância, como aluna de um colégio de freiras em Pelotas (RS), e imagens de recitais e concertos que encantaram públicos de todas as idades e latitudes.
Rute Ferreira Gebler é referência na música catarinense – Foto: Leo Munhoz/ND“Rute Ferreira Gebler – 80 anos de vida e música”, show que poderá ser visto no Teatro Ademir Rosa, em Florianópolis, nos dias 17 e 18 deste mês, é uma síntese de tudo o que ocorreu até aqui, com o acompanhamento de orquestra, solistas, o Estúdio Vozes e convidados especiais.
SeguirImpossível, também, não ouvi-la falar do momento, porque ninguém chega aos 80 anos incólume, com a voz dos 50 e a saúde da adolescência. Mas Rute cuida de tudo no espetáculo, acompanha cada detalhe e demonstra uma disposição que assombra quem não a conhece direito. Tem uma alegria de viver que quer compartilhar, por meio da música, com todos os que quiserem e puderem vê-la no palco. “Cada idade tem a sua beleza”, ensina. E não foi sem lástima que tirou do programa canções que não cabiam, por causa da duração do evento. Mesmo assim, “muitas coisas lindas” esperam a plateia esta semana.
Cada ária, cada solo, cada interpretação traz um turbilhão de recordações. São cantores, maestros, companheiros de jornada que dividiram com Rute Gebler o palco e a coxia, a produção e os aplausos ao final das apresentações. No show dos 80 anos, parte de seus alunos de canto estará no coro, e Alírio Netto, um de seus pupilos, hoje uma celebridade, também garantiu presença.
Alírio alçou grandes voos, virou cantor de musicais nacionais da Broadway e de óperas consagradas, mas não esqueceu da antiga professora e do Vozes da Primavera. “Tu és do mundo”, disse-lhe Rute quando ele decidiu se mudar para Brasília, em 1998. Hoje, são grandes amigos.
Rute brilhou no espetáculo Vozes da Primavera, em 2004 – Foto: Divulgação/NDReferência na cidade e no Estado, Rute viu o canto lírico evoluir e guardou o nome de todos os que cruzaram seu caminho, com a noção de gratidão e a modéstia que sempre a caracterizaram. Fala com carinho dos 10 anos em que acompanhou a Associação Coral de Florianópolis, aqui e pelo Brasil a fora. E cita parceiros do porte de Aldo Krieger, Ney Brasil Pereira, Hélio Teixeira da Rosa, Eli Faustino da Silva e Aldo Baldin, figuras com quem dividiu o palco e aprendeu muito do que sabe.
Uma vida registrada em imagens
A história e a trajetória artística de Rute Ferreira Gebler dariam um livro – e deram, porque a jornalista Ana Lavratti assumiu essa tarefa e lançou “Uma vida em tom maior”, em 2019. A partir de alguns meses de conversas quase diárias, ali estão registradas a infância e os anos de estudo, a influência dos pais na formação, os primeiros sinais do talento latente da menina que já cantava e dançava, o acordeom com que conquistou os primeiros aplausos, os saraus no interior, as aulas de piano, as apresentações no rádio e as convocações para mostrar a voz nos eventos cívicos e nos primeiros casamentos (ao todo, foram mais de 500) que abrilhantou com “Ave Maria”.
O livro também é um caleidoscópio de imagens, porque Rute guardou tudo, das fotos no colo da mãe Anita aos registros mais recentes, com os dois filhos e quatro netos, passando pelo sem número de shows e recitais que fez, sempre ao lado de grandes artistas. Ser tema de enredo da escola de samba Protegidos da Princesa, em Florianópolis, foi um momento especial. “Sempre fui carnavalesca”, confessa, como quem quer surpreender aqueles que só a associam ao rigor do canto camerístico.
Em 1985, Rute gravou um LP – Foto: Divulgação/ND“Até eu me admiro de tudo o que fiz”, diz Rute ao rever fotos de seus concertos. E revela que, fechado o ciclo em curso, não estuda novos planos e projetos, que consomem energia em excesso. Não disse isso, mas só deverá subir ao palco como convidada. Nada mais merecido!
De Beethoven às cantoras do rádio
Cantar a “Nona Sinfonia de Beethoven” com a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre foi uma experiência inesquecível para Rute Gebler. E o que dizer de “A Criação” de Haydn, do “Réquiem” de Mozart e das “Bachianas” de Villa-Lobos? E de árias universalmente célebres que fazem parte de “Carmen”, “A Flauta Mágica”, “Carmina Burana”, “La Traviata”, “O Fantasma da Ópera”? Mas isso não é tudo, porque há musicais como “Cats”, “My Fair Lady”, “O Mágico de Oz” e “Evita”. Quando encantava os ouvintes da rádio da infância com “Lábios de Mel”, ela certamente não imaginava onde ia chegar.
Quanto montou, por iniciativa própria, “A Noviça Rebelde” em Pelotas, as freiras do colégio interpretaram a si próprias, “de verdade”, como diz Rute, quase planando no palco. Em mais um momento de descontração, ela ri do episódio, assim como acha graça, tantos anos depois, no dia em que cantava o Hino Nacional em Brasília, em cerimônia extremamente formal, e a flor colorida presa em seu tailleur foi se desfazendo com a chuva repentina e manchou toda a roupa.
Rute montou, por iniciativa própria, “A Noviça Rebelde” em Pelotas, as freiras do colégio interpretaram a si próprias – Foto: Divulgação/NDTambém foi a última a se livrar das cordas amarradas nos personagens numa montagem do “Réquiem”, andando com dificuldade no palco. São memórias pinçadas de um roteiro rico que a ensinou a conhecer a si própria e a sondar a alma de outros artistas.
Uma passagem marcante para a soprano foi ter montado o “Auto da Conquista”, do compositor catarinense Osvaldo Ferreira de Melo (1929-2011). A peça tem como tema a imigração açoriana, da saída do arquipélago à chegada ao litoral catarinense, com o drama da travessia, as mortes a bordo e os dilemas após a chegada ao destino.
Escrito 44 anos de ir para o palco, o musical continuava inédito até então. Isso incomodava Rute, que conhecia o talento do autor, um homem de grande cultura e conhecimento histórico e jurídico. “Ele assistiu antes de morrer, o que foi um grande presente para mim”, conta ela.
A cantora deixou uma herança inestimável ao ensinar a milhares de jovens a arte de usar o talento musical que possuíam, mas também marcou pelo trabalho com o Estúdio Vozes, que durante 11 anos montou o espetáculo “Vozes da Primavera”, com viés beneficente e que permitiu a um público amplo ter contato com óperas de Bizet, Mozart, Puccini e Carlos Gomes. Num momento inesquecível, em 1997, Rute e Alírio Netto fizeram um dueto com “How Can I Go On”, consagrado por Freddie Mercury e Montserrat Caballé.
O Vozes fez muitas outras coisas, entrando no calendário cultural de Florianópolis, abrindo espaços para artistas e técnicos e empolgando o público com suas montagens. Um dos pontos altos foi o espetáculo “Tributo às Divas da Era do Rádio”, que apresentou clássicos de Ângela Maria, Dalva de Oliveira, Emilinha Borba, Elizeth Cardoso e da florianopolitana Neide Mariarrosa.
My Fair Lady – 1998 – Foto: Divulgação/NDÓperas e canções antológicas
Antes de se fixar em Florianópolis, em 1969, Rute morou um tempo em Chapecó. Chegou à Ilha de Santa Catarina grávida do primeiro filho, enquanto o marido Érico Gebler, engenheiro agrônomo, estudava na Alemanha. Começou lecionando no antigo Colégio Coração de Jesus e depois entrou na Associação Coral, onde deu aulas de técnica vocal, até se tornar regente do grupo. Dali para frente, não parou mais e hoje, ainda ativa, ostenta uma vasta lista troféus, comendas, medalhas, condecorações e títulos, entre eles o de Cidadã Honorária da cidade e do Estado.
O espetáculo dos dias 17 e 18, dirigido por Sulanger Bavaresco, terá algumas surpresas, mas é certo que haverá muitos convidados especiais, gente que faz questão de dividir o palco com a diva. Uma presença marcante será a da neta de Rute, Graziela, que também segue a carreira artística. O programa inclui peças que ela vem cantando desde a juventude, óperas e canções antológicas, bem ao gosto do público que ela ajudou a formar, como solista, maestrina e professora.
Será a consagração da carreira, rodeada de gente que estima e respeita, do alto do pedestal que ocupa. “A idade traz mais compreensão da vida”, afirma ao fazer um brevíssimo balanço da trajetória. Comemorar os 80 anos no palco, cantando, é o prêmio que recebe do público e dos amigos.