Na pandemia, conheça artistas que fazem show fora dos palcos

Mesmo impactados pela pandemia da Covid-19, musicistas de Florianópolis aproveitaram o momento de introspecção para produzir e investir na carreira

Sofia Mayer Florianópolis

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Se não fosse a pandemia, agora o músico manezinho Misael Pacheco provavelmente estaria tocando nos principais teatros de Florianópolis. A cantora Gabriela Dequech começaria 2021 com a agenda de cerimônias – mercado que vislumbrava no início de 2020 – potencialmente cheia. Já as jovens da banda Orquidália estariam percorrendo o Brasil a bordo de um “Corsinha” recheado de sonhos e instrumentos musicais.

Misael Pacheco durante apresentação em teatro Mesmo com liberações graduais do Governo, alguns músicos seguiram produzindo material de casa – Foto: Divulgação/ND

Quando a pandemia foi decretada, em março de 2020, porém, todos precisaram interromper planos e lidar com lutos pessoais, que se estenderam também à carreira.

Isso porque estabelecimentos que promoviam música ao vivo fecharam, a partir do decreto estadual de 17 de março, deixando muitos artistas temporariamente sem renda.

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Embora alguns espaços até tenham voltado a atender, depois de uma série de liberações regradas pelo governo do Estado, a sensação de insegurança segue existindo em parte da classe artística florianopolitana, que prefere evitar a exposição ao vírus.

Os músicos ouvidos pela reportagem do ND+ resolveram, então, assumir a nova realidade e, durante os últimos meses, se jogaram em projetos pessoais engavetados. O momento de introspecção passou a ser aproveitado para produzir, intensa e diariamente, em casa.

No isolamento, um álbum

Exemplo de reação é a do músico Misael Pacheco, de 20 anos, que se intitula guitarrista e cantor, mas improvisa no clarinete, estuda piano e se dedica à viola de arco – instrumento muitas vezes confundido com violino, porém maior e mais pesado.

Os teatros de Florianópolis sempre foram sua casa musical. Com as portas fechadas, porém, o artista decidiu que era hora de lançar um álbum autoral. O “Misaeu”, como é intitulado, foi inteiramente produzido em casa, no home studio da família, e é composto por músicas que transitam entre o gênero erudito, o funk norte-americano, além de apresentar doses de soul, rock e pop.

Misael estuda Licenciatura em Música na Udesc e é filho de musicistas, ambos cantores líricos – Foto: Divulgação/NDMisael estuda Licenciatura em Música na Udesc e é filho de musicistas, ambos cantores líricos – Foto: Divulgação/ND

“A ideia era eu criar meio que uma cronologia de uma parte da minha vida. Eu sou um cara muito emotivo, então basicamente o álbum inteiro eu só falo de amor, e tem uma pitadinha bem leve de política lá no meio,” contextualizou.

Novos caminhos

As incertezas da pandemia, porém, refletiram no bolso e quase fizeram o jovem trocar de profissão.

“Eu comecei a editar vídeo também. Por causa de uma peça de viola, eu conheci uma galera em Minas Gerais, e estou trabalhando pra eles, até hoje, editando vídeo para músicos de lá”, conta. Antes da crise sanitária, ele havia feito novos contatos em um festival em Lages.

Manezinho do Carmela Dutra, ele brinca que, no momento, sua maior fonte de renda vem do Sudeste brasileiro. “Trabalhei com a Filarmônica, com a orquestra do Sesi de Minas, e ainda trabalho com esse pessoal de freela. Foi o que me sustentou na parte da grana”, explica. A conclusão do álbum, segundo ele, só foi possível graças à remuneração alternativa.

Movimento é geral

De acordo com a produtora musical Emanueli Dalsasso, que tem estudado o cenário artístico florianopolitano durante todo o último ano, o movimento dos profissionais é quase unânime.

“Muitos artistas tiveram que se organizar para compor, ocupando o tempo dos shows com outras criações, com foco no digital também”, explica.

Vários deles teriam, inclusive, buscado entender seus direitos como profissionais: “Ajudei bastantes músicos e compositores, ano passado, regularizando suas músicas, fazendo o cadastro correto de obra, fonograma”.

Desafios e projetos engavetados

Prova disso é a cantora Gabriela Dequech, que, além de voltar às composições, começou a estudar o mercado da música. “Fiquei bem feliz com isso, era uma coisa que estava nos meus planos há alguns anos, e eu nunca fazia”, revela.

Gabriela DequechNa pandemia, Gabriela Dequech investiu nos estudos e nas composições musicais  – Foto: Manu d’Eça/Divulgação/ND

Em 2019, ela havia iniciado um processo de migração do jornalismo para a área musical, depois de cerca de sete anos trabalhando com comunicação. Dando aulas de canto e tocando em bares e restaurantes, sobretudo com o trio 4 Seasons Jazz, em 2020 a artista estava completamente inserida à realidade musical.

“Era um ano com foco em fazer shows ao vivo, fechar eventos e casamentos, e conversar com pessoal dessa área e tal. Então, eu estava contando com boa parte da minha renda vindo desse lugar de apresentações ao vivo”, comenta.

A pandemia, contudo, fez o planejamento ir por água abaixo: Gabriela precisou realocar os alunos para as aulas online, e ainda contar com o valor concedido pelo auxílio emergencial. “Mas ainda foi o suficiente para pagar minhas contas e comer”.

Para aliviar a situação de agentes culturais, o governo federal até chegou a sancionar, em junho de 2020, a Lei Aldir Blanc, que previa o pagamento de três parcelas de R$ 600 a artistas, de diferentes segmentos, que vivem no país.

Muitos profissionais, no entanto, não foram contemplados com a ajuda financeira. Isso porque, de acordo com os critérios de seleção da Aldir Blanc, não é possível receber simultaneamente dois benefícios. Gabriela, por exemplo, já havia solicitado o auxílio emergencial, programa sancionado em abril e destinado a trabalhadores informais, intermitentes e microempreendedores individuais.

Momento de resguardo

Com as gradativas liberações no setor de entretenimento, o 4 Seasons Jazz Trio chegou a ser convidado para se apresentar em bares. Para o grupo, no entanto, retomar os shows presenciais em meio à nova escalada de casos de Covid-19 no Estado não fazia sentido.

4 Seasons Jazz TrioO grupo 4 Seasons Jazz Trio deve esperar o início da vacinação para voltar às apresentações presenciais – Foto: Redes Sociais/Reprodução/ND

“A gente pensou que, pela grana, seria legal ganhar um dinheirinho extra, mas não seria legal pensar que tinha gente morrendo e a gente fazendo show. Ia ser uma sensação meio estranha. A gente recebeu umas propostas no fim do ano, quando ia começar o verão, e agora, em janeiro, também”, comenta.

A ideia, segundo ela, é seguir dando aulas online durante o primeiro semestre de 2021. “Assim que a gente começar a sentir que as pessoas estão sendo vacinadas, que estão se sentindo protegidas, a gente pensa em retomar as apresentações”, diz Gabriela.

Lives e gravações: nova realidade

Os grupos autorais também reagiram ao impacto da pandemia. Desde o início da crise, por exemplo, a banda Orquidália já participou de cerca de oito lives e, agora, está finalizando a produção do segundo álbum, feito totalmente em casa, em Florianópolis.

As produções da banda Orquidália se intensificaram durante o período de isolamento social – Foto: Olívia Lago/Divulgação/NDAs produções da banda Orquidália se intensificaram durante o período de isolamento social – Foto: Olívia Lago/Divulgação/ND

Formada por Maitê Fontalva (voz e guitarra), Ana Luiza Medeiros (voz, escaleta e piano), Lucas Fontalva (voz e baixo) e Simón Aftalión (voz e bateria), a Orquidália já tem já tem um EP gravado, o “Plantas pela Casa”, além do disco “Alma Vira Mar”, lançado em 2020.

“A gente tá gravando em dois dos quartos e na sala. Então, a bateria é na sala, e o que é em linha é no nosso quarto – meu e da Mai. A gente tá fazendo da nossa casa literalmente um estúdio”, comenta Ana. Os fãs podem se preparar para ouvir letras sobre nostalgia, amor, vida, política, questões sociais e isolamento.

O grupo, que mora junto desde fevereiro de 2020, afirma que proximidade permitiu produções mais intensas durante o período de restrições sociais.

“Quando a gente não morava todas juntas, às vezes era difícil de marcar ensaio, sabe? A gente ficava dois, três dias para combinar uma data em que todo mundo podia”, lembra Ana, que é complementada pela vocalista e guitarrista, Maitê: “Foi muita sorte. Se a gente tivesse morando separada, provavelmente a gente não teria produzido o que a gente conseguiu produzir”. O grupo escolheu se referir à banda sempre no feminino; a ideia é somar vozes à pauta feminista.

Nos palcos, a sensação é outra

Os dois meses e meio antes da pandemia, em 2020, estavam sendo bem aproveitados pela Orquidália, que rodou o país até a primeira quinzena de março. São Paulo, Mato Grosso do Sul e Paraná foram alguns dos estados que curtiram o “neotropicalismo” promovido pela banda manezinha.

Banda OrquidáliaNo íncio de 2020, antes da pandemia, a banda chegou a se apresentar em três estados – Foto: Olívia Lago/Divulgação/ND

“A gente era uma banda que as atividades eram principalmente voltadas para o ao vivo, e a pandemia nos colocou num lugar totalmente oposto”, explica Maitê.

Mesmo afirmando que nenhuma produção caseira se compara à vivência dos palcos, a Orquidália não pretende voltar a se apresentar presencialmente tão cedo, embora os convites existam. A pianista Ana, por exemplo, é diabética e contempla o grupo de risco da Covid-19.

“Preferencialmente, a gente espera a vacina para poder tocar com segurança”, explica o baixista Lucas. “Muitos bares falam que tem essas medidas de segurança, mas acabam não especificando a que número exato de pessoas vai ser reduzido, como vai ser feita a higienização”, completa.

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