Pelé do Piano: morador de Florianópolis, Arthur Moreira Lima chega aos 80 anos

Um dos maiores pianistas brasileiros e com mais de sete décadas de carreira, comemora a nova idade cheio de planos e com a determinação de que “respirar é preciso”

Paulo Clóvis Schmidt, Especial para o ND+ Florianópolis

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“Estava esperando há 80 anos por este momento”, diz, em tom de blague, Arthur Moreira Lima, que se tornou octogenário no dia 16 de julho. Morador de Florianópolis desde 1993, o grande artista – considerado o embaixador do piano brasileiro no exterior – é mais um confinado entre poucas paredes pela pandemia de coronavírus, mas vem encarando as limitações de deslocamento e apresentações com a resignação de quem viveu intensamente e, por isso, sabe dar a volta por cima mesmo quando o cenário parece sombrio. E, convenhamos, ver a lua nascendo no mar do Santinho ajuda a afastar qualquer ameaça de desânimo ou baixo astral.

Arthur Moreira Lima se tornou octogenário em 16 de julho – Foto: DivulgaçãoArthur Moreira Lima se tornou octogenário em 16 de julho – Foto: Divulgação

Nascido no Rio de Janeiro em 1940, Moreira Lima compõe a lista dos maiores pianistas brasileiros. Sua carreira é vasta, repleta de prêmios e de concertos nas principais casas de espetáculos do mundo. Tocou com as filarmônicas de Leningrado, Moscou e Varsóvia e com as sinfônicas de Berlim, Viena e Praga, a BBC de Londres e a National da França.

“Gosto daqui (já ganhei o título de Cidadão de Florianópolis), mas a cidade vem crescendo desordenadamente. O verão é um horror, porque falta infraestrutura para receber tantos turistas.”

Ajudou a difundir as raízes culturais brasileiras como solista da primeira audição do Concerto nº 1 de Villa-Lobos no Japão, Rússia, Áustria e Alemanha. Foi também o pianista que fez reviver a obra de Ernesto Nazareth, um dos grandes compositores (de maxixe, choro, samba e polca) do país.

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Para onde quer que se olhe, lá está a assinatura do pianista. Ele tocou Frédéric Chopin em vários continentes, gravou um CD com música de Ástor Piazzolla e levou o repertório clássico para os sertões brasileiros, num caminhão equipado que lhe permitia se apresentar em áreas abertas e praças públicas, oferecendo, muitas vezes, a primeira oportunidade de contato das pessoas simples com o “Trenzinho caipira” de Villa-Lobos e a “Sonata ao luar” de Beethoven.

São 60 discos gravados – o último deles, “Música e sonho”, de 2019, é uma coletânea de valsas, sonatinas e berceuses para crianças, assinadas por Brahms, Schubert e Tchaikovsky. Um trabalho que homenageia as três netas de quatro a seis anos e que as apresenta também a Bach, Schumann e Debussy.

Na encruzilhada dos 80, Moreira Lima só não se anima com o ambiente que prevê para a pós-pandemia. Muitos projetos culturais estão parados e as políticas para o setor preocupam quem estava habituado a levar música, como era o caso do pianista, a diferentes tipos de público. Além disso, o mundo está mudando bastante. “Não vejo boas perspectivas no que vem por aí”, afirma.

Louvores que vêm de todos os lados

A carreira internacional de Arthur Moreira Lima inclui gravações nos Estados Unidos, Inglaterra, Rússia, Japão, Suíça, Bulgária e Polônia. No repertório, se destacam Bach, Beethoven e Mozart, com suas famosas sonatas, a obra integral para piano e orquestra de Chopin com a Filarmônica de Sofia, muitos noturnos, polonaises, valsas e prelúdios apresentados nos Estados Unidos, uma antologia da obra pianística de Villa-Lobos (em três CDs) e do também brasileiro Radamés Gnattali, assim como os grandes concertos para piano e orquestra de Rachmaninov, Tchaikovsky e Mozart, com formações sinfônicas da Orquestra da Rádio da Polônia e da Orquestra de Câmara de Moscou.

O começo da projeção internacional veio com o Concurso Chopin de Varsóvia, em 1965. Moreira Lima também foi laureado nos concursos de Leeds, Inglaterra (1969), e Tchaikovsky, na antiga União Soviética (1970).

Lançado internacionalmente em 1999, o CD com músicas de Piazzolla foi considerado o “disco do mês” na França pela revista “Répertorie” e pela “Tipptopp” da Rádio da Suíça alemã. A revista inglesa “Gramophone” escreveu que ele “captou magicamente a fantasia e grandiosidade da música” do bandoneonista e compositor argentino, e a BBC Music Magazine disse: “Moreira Lima é um marcante e eloquente campeão de Piazzolla. Este CD certamente irá converter os céticos”.

“Foi [a carreira] um caminho muito árduo, difícil. Nas turnês, desde o inicio, passava semanas fora de casa. Ficava meses ensaiando, com perseverança. Hoje, já não tenho o vigor de antes, mas ainda dá para o gasto!”

A crítica internacional o considera um extraordinário intérprete do repertório romântico e elogia a sonoridade e o virtuosismo de suas performances e gravações. Uma ideia do prestígio vem da revista “La Suisse”, que chamou Moreira Lima de o “Pelé do piano”. Já a crítica americana elegeu sua gravação dos Noturnos de Chopin “o mais importante registro pianístico do ano”, enquanto o crítico londrino Dominic Gill, do “Financial Times”, sentenciou: “Moreira Lima sabe tudo sobre o piano romântico, fazendo seu instrumento falar”.

‘A música perdeu a espontaneidade’

Por ter começado aos nove anos, a carreira de Arthur Moreira Lima já passou das sete décadas. O prestígio decorrente dessa caminhada não o impediu de, durante 18 anos, tentar popularizar o repertório erudito usando um “caminhão teatro” que chegou a todas as regiões do país.

O palco tinha 40 metros quadrados, e a boca de cena de oito metros tornou o equipamento ideal para a interação com artistas locais, maravilhados com a oportunidade de tocar com o grande pianista.

“Era cansativo, mas também revigorante e divertido”, conta, destacando que esse trabalho foi feito junto com a mulher, Margareth, com o apoio da enteada, Grasiela Grubba, sua assessora e agente.

O pianista com Margareth na comemoração dos 75 anos – Foto: DivulgaçãoO pianista com Margareth na comemoração dos 75 anos – Foto: Divulgação

Em 2018, o projeto Um Piano pela Estrada foi interrompido porque os recursos escassearam. Ficaram as lembranças e a satisfação de ter alcançado 500 cidades e chegado até a beira do rio Solimões, além da certeza de que, tendo a oportunidade, as pessoas dão valor ao que é novo e tem qualidade. “Elas gostam, mesmo sem entender”, constata o pianista.

“Foi um mergulho profundo na realidade deste país, o que me satisfez como artista e cidadão, até porque levávamos também noções de higiene para as escolas das periferias”, diz. Mesmo assim, criar o hábito de apreciar o erudito continua sendo um grande desafio, porque o gênero é essencialmente europeu e sempre foi cultivado pelas elites no Brasil.

Além da queda na qualidade das programações de rádio e televisão, uma barreira para a difusão da boa música é a tecnologia, por mais paradoxal que possa parecer.

“A internet tem aspectos ultrapositivos, mas é um perigo porque esconde interesses econômicos enormes”, afirma Moreira Lima. Para ele, as bandas e os discos perderam a velha espontaneidade. E mais, as redes sociais difundem fake news, o que gera atritos e afasta as pessoas umas das outras. “Hoje, qualquer imbecil pode virar um influenciador”, dispara.

“Sou a favor de deixar a ciência falar. Não se acaba uma pandemia por decreto. O Brasil é maravilhoso, mas estamos vendo uma desarmonia entre os poderes e o povo está mal representado.”

O pianista continua estudando e tem  plano de realizar uma série de concertos com o colega e amigo João Carlos Martins, que também entrou há pouco no grupo dos octogenários. Só teme que o quadro político do país possa atrapalhar.

“Estou um pouco desmotivado com o cenário brasileiro e mundial, que piorou nos últimos anos, em especial na área da cultura”, afirma. Por hora, evitando aglomerações, o artista espera pelo fim da pandemia. “Não podemos parar de respirar”, conforma-se.

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