Som pesado e trabalho duro: cena de rock independente em Florianópolis sobrevive ao tempo

Dia Mundial do Rock é celebrado nesta quarta-feira (13) e resgata espírito contestador do estilo que revolucionou o mundo nos anos 60

Yuri Micheletti Florianópolis

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“Não é fácil ser uma banda independente”, relata Marcelo Mancha, vocalista da banda de hardcore-metal-punk Eutha, e colunista do ND+. Com som pesado e rápido, as letras da banda abordam questões cotidianas, como violência urbana e relacionadas à Ilha. É desse modo que Mancha compõe a cena de rock local em Florianópolis, que é marcada pelo trabalho duro e a união entre artistas e bandas.

Eutha completou 30 anos de carreira em 2022 – Foto: Ligia Ofuska/Divulgação/NDEutha completou 30 anos de carreira em 2022 – Foto: Ligia Ofuska/Divulgação/ND

No dia 13 de Julho de 1985, Queen, Paul McCartney, Dire Straits, U2 e diversas outras bandas e artistas se reuniram em Londres com um motivo: tocar no Live Aid.

O evento foi criado com o objetivo de arrecadar fundos para ajudar aqueles que sofriam com a fome na Etiópia e é reconhecido como um dos maiores festivais de rock da história. Por isso, a data 13 de julho ficou conhecida como Dia Mundial do Rock. Apesar do nome, a data é uma celebração que só existe no Brasil.

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“Não me importo que se comemore só aqui no Brasil. Tudo que possa ser feito para lembrar de algo é bem vindo”, afirma Mayer Soares, vocalista da banda de rock UmQuarto. Mesmo em tom positivo, o músico diz que nesta data sempre focam em falar dos grandes clássicos ao invés de dar visibilidade para novos artistas.

Antes não existia UmQuarto. Apenas Mayer Soares e a banda que o acompanhava nos shows. Então, veio a pandemia. “Aproveitamos esse momento para gravar em casa, cada um no seu canto. A banda ficou mais colaborativa e, assim, não fazia mais sentido usar apenas meu nome”. Nascia a banda de rock independente UmQuarto.

Mancha explica que ser independente é estar constantemente em movimento para divulgar, ensaiar, criar, escrever, se apresentar, trabalhar o merchandising da banda ou artista. “O bonde não pode parar”, afirma o músico, que há três décadas faz parte da cena musical em Florianópolis.

Banda UmQuarto mistura psicodelia com rock progressivo em suas músicas – Foto: Manu d’Eça/Divulgação/NDBanda UmQuarto mistura psicodelia com rock progressivo em suas músicas – Foto: Manu d’Eça/Divulgação/ND

Todo esse processo torna-se parte do artista independente. Por esse motivo, o apoio mútuo de bandas que sentem na pele essa rotina é de suma importância.

“Aqui encontrei um lar. De modo geral, as bandas aqui são bastantes unidas, apoiando, divulgando e indo nos shows uma das outras. Particularmente, o UmQuarto sempre foi auxiliado por muita gente. E sempre que possível estamos envolvidos nos shows e eventos de outras bandas”, conta Mayer.

O rock morreu?

Mesmo com esse cenário de união, o rock vem perdendo sua popularidade ao longo das últimas décadas. De acordo com o Spotify, em 2021, os gêneros musicais mais ouvidos no Brasil foram: Sertanejo Pop, Sertanejo Universitário, Sertanejo, Funk Carioca e Pop.

“É perceptível que o estilo no Brasil não tem mais aquela energia que tinha nas décadas de 70, 80, 90 e até no início dos anos 2000. Atualmente, olhando as paradas musicais e os streamings, estilos como o Funk, o Sertanejo Universitário e o Rap dominam as primeiras posições. Mas o Rock segue forte por aí. Temos muitas bandas novas surgindo em Santa Catarina, no Brasil e por todo o mundo tocando rock ou os incontáveis subgêneros criados a partir do estilo”, explica Mancha.

Para o vocalista da banda Eutha, uma grande demonstração disso foi o Mundial Rock 2022, evento promovido pelo Grupo ND que levou mais de 20 mil pessoas ao evento, em um dia inteiro dedicado ao rock. “Um público bem legal que curtiu as bandas autorais e os tributos, que estão em alta hoje em dia”, completa.

Segundo o vocalista do UmQuarto, há pessoas jovens interessadas no rock feito pela banda. “Se analisarmos os gráficos no nosso perfil do Spotify, a maior parte do nosso público tem entre 23 a 35 anos de idade. Além dos shows que realizei aqui, que tinham um público bastante jovem”.

Além de proprietário do Célula Showcase, Geraldo também toca na banda Enfuga – Foto: Elisa Imperial/Divulgação/NDAlém de proprietário do Célula Showcase, Geraldo também toca na banda Enfuga – Foto: Elisa Imperial/Divulgação/ND

A fala de Mayer vai ao encontro do que o atual dono da casa noturna Célula Showcase, Geraldo Costa relata. “ É normal aparecer na mesma noite de um show um senhor de 60 anos e uma menina de 18 para escutar o mesmo tipo de música”.

Mesmo assim, o dono admite que o rock já não é mais tão popular quanto gêneros como samba e sertanejo. No entanto, há demanda de shows do tipo na casa, como o da banda punk “Garotos Podres”, que tocou no Célula em junho.

Apesar de não ser tão popular quanto já foi, o vocalista afirma que isso não é necessariamente ruim, pois novas expressões artísticas surgem. O público continua cativo e apaixonado, mesmo que esteja mais nichado. “O rock é o novo jazz”, comparou Mayer.

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