Já ouviu falar da banda “The Snakes”? Eles foram os precursores do rock ainda na era da “beatlemania” em Florianópolis.
No Dia Mundial do Rock, celebrado nesta quinta-feira (13), revisitamos a trajetória desses verdadeiros roqueiros, que abriram portas para o cenário na história do rock catarinense.
Conheça a história da época que a “Febre das Cobras” dominou SC – Foto: Waldir Pessoa/The Snakes/Divulgação/NDO ND+ conversou com Waldir Pessoa, baixista, vocalista e um dos membros fundadores da “The Snakes”.
SeguirAtualmente com 73 anos, o músico contou a história por trás da famosa “Febre das Cobras” que percorreu toda Santa Catarina durante os anos 1960.
O início da banda The Snakes
Os amigos e membros da banda “The Snakes eram Waldemiro (Miro), Zênio, Waldir e Alfredo (Feca), e todos moravam no centro de Florianópolis.
“Eu morava na rua 7 de Setembro, e tínhamos uma turminha ali da Jerônimo Coelho, Trajano, todos adolescentes. Fazíamos muitas coisas juntos”, relembra Waldir.
Os quatro jovens incorporaram a alma “Beatle” – Foto: Waldir Pessoa/Reprodução/NDWaldir explica que naquela época, a turma era bastante diversificada quando se tratava de hobbies, incluindo esportes, leitura e outras atividades. Por essa razão, esses rapazes decidiram batizar o próprio grupo com um nome que refletisse essas habilidades.
“Os Cobras”, pois naquela época, quando alguém se referia a alguém como “aquele cara é cobra nisso”, significava que ele era realmente muito bom naquilo que fazia”.
Apenas mais tarde é que o nome seria “traduzido” para o inglês, graças ao professor Sullivan, que ministrava as aulas de idioma estrangeiro na antiga Escola Técnica, atualmente conhecida como IFSC (Instituto Federal de Educação de Santa Catarina).
Waldir conta que a paixão pela música começou por um “acaso” do destino, quando os garotos do Centro ouviram uma canção muito conhecida dos Beatles tocando em uma loja de discos.
“Por coincidência, estávamos descendo pelo palácio do governo, na Praça 15, pela calçada, quando chegamos na esquina da Felipe Schmidt, tinha uma loja de discos e ouvimos uma música ali, “Love Me Do”, dos Beatles”.
Os meninos ficaram “hipnotizados” com a canção
Waldir faz uma pausa breve para explicar uma fato importante. “Muita gente acha que Os Beatles lançaram essa música em 1963, mas na verdade ela foi lançada como single em outubro de 1962” relembra.
Ao melhor estilo “Day Tripper”, eles foram formando a identidade da banda – Foto: Waldir Pessoa/Divulgação/NDPara Waldir, provavelmente “alguém que foi para algum país de fora, Estados Unidos ou Europa, trouxe aquele LP com o single e decidiram colocar ali na loja para o povo ouvir”, afirma.
O músico relembra que de imediato eles entraram na loja perguntando que música era aquela. “Nos foi mostrado o disco [do single], os quatro Beatles com aqueles cabelos diferentes, nunca tínhamos visto algo como aquilo antes”, relembra Waldir.
“Na hora criou na cabeça de todos a ideia de fazer uma banda, mas ninguém sabia tocar nada. Então cada um foi se virar”.
Mas somente após 3 meses, desde que ouviram “Love Me Do” , a banda começou de fato a ensaiar.
“Naquele momento já se tinha uma noção dos instrumentos, por causa do violão, e outro que se engatou com bateria e foi atrás para aprender”.
Nessa onda de rock alguns dos meninos foram aprender violão com um dos grandes ícones de Florianópolis, José Cardoso, o maestro Zequinha.
Waldir conta que “o Alfredo por sua vez perseguia o Tida e o Helinho que eram os mestres da bateria por aqui, até que eles lhe dessem alguma orientação do instrumento”.
“Depois desses 3 ou 4 meses começamos a ensaiar com umas musiquinhas bem simples”, conta Waldir.
Os primeiros ensaios, eram realizados em suas residências na 7 de Setembro e também na Felipe Schmidt. “Quando já tínhamos incomodado bastante os pais e os vizinhos em um dos endereços, passávamos para outro”.
Após um ano desde que os ensaios começaram, a “The Snakes” foi se apresentar nos antigos clubes de Florianópolis e em colégios onde eles estudavam. “Foi assim que a coisa começou”, diz Waldir.
“Os ensaios da “The Snakes” eram difíceis”, afirma Waldir, “antigamente precisávamos pegar o disco, ouvir e tentar descobrir as notas que estavam sendo tocadas, a gente se matava (risos)”.
As funções e a identidade
Waldir conta que inicialmente começou tocando guitarra com seus colegas de banda. “Éramos em cinco, três guitarras, um contrabaixo e uma bateria, só que o cara do contrabaixo acabou não querendo mais e eu acabei migrando da guitarra para o contrabaixo”.
“Nós fomos realmente no rock, os pioneiros, e fomos a banda de maior projeção mesmo aqui em Santa Catarina. Éramos uma novidade”, relembra.
Os garotos usavam os cabelos compridos quando começaram a se apresentar nos clubes. “E de boca em boca fomos tocando por todos os outros clubes do Estado”.
Mas, segundo o músico, quem realmente colocou a “ordem na casa” foi sua mãe, a jornalista Lourdes da Silva Pessoa, que organizou a agenda e também criou os figurinos.
“Ela que montou [os figurinos] inclusive, estilo igual aos Beatles com seus ternos e tudo mais”, conta Waldir.
“Ela disse para mim que precisávamos nos organizar: vocês não podem tocar e tentar fazer divulgação, arrumar shows e tal, então ela tomou a frente, que foi de extrema importância para nós”.
Ele relembra também que quando Lourdes assumiu a frente da banda, marcou alguns shows beneficentes em hospitais e para pescadores.
A febre das cobras e a parceria com The Singles
Waldir relembra que naquela época eles colocaram o pé na estrada e tocaram por toda Santa Catarina, e pelo Sudeste também, os garotos gabaritaram praticamente todas as cidades.
“Por Florianópolis mesmo quando tinha show naquela época, no Teatro Álvaro de Carvalho, ficava lotado, chegavam as fechar as portas para ninguém mais entrar, e ainda ficava um pessoal do lado de fora tentando ouvir”.
Os garotos lotavam os clubes de SC – Foto: Waldir Pessoa/Reprodução/NDO músico relembra um episódio em que foram tocar com uma banda muito querida pelos garotos: “Nós fomos contratados para tocar em Rio Do Sul, pois o pessoal ouvia muito, quando chegamos em Lontras, uma cidade próxima, já tinha uma carreata nos esperando”.
Os rapazes se assustaram com a a quantidade de pessoas esperando a banda com carros, bandeiras, soltando foguetes e até com faixas.
“Quem tinha organizado isso tinha sido essa banda amiga da gente, “The Singles”, eram gente finíssima, e tocamos com eles por lá, no cinema da cidade e no clube do Banco do Brasil”.
Aparição em uma revista e a projeção
Um grupo de jornalistas em visita a Florianópolis, assistiu um show do conjunto e se encantou, fazendo uma ótima matéria na revista “Fatos e Fotos”.
Tecendo comentários sobre as principais bandas covers dos Beatles nos principais países do mundo, incluindo de forma elogiosa na reportagem, a banda aqui da Ilha em 1966.
Os Snakes inclusive tiveram até um grande destaque na página – Foto: Waldir Pessoa/Reprodução/NDA Felipe Schmidt se tornou “Abbey Road”
Em 1966 os rapazes precisavam arrecadar dinheiro para ir ao Rio de Janeiro, onde fariam uma temporada de shows. “Nós fomos contratados para fazer um show “do nada” no meio de uma marquise” conta Waldir.
Esse show da “The Snakes” ocorreu na Rua Felipe Schmidt, bem no centro de Florianópolis, ao lado de onde hoje se encontraria o antigo Café Senadinho.
“Esse show não foi anunciado, a loja estava fazendo uma liquidação e esperava atrair clientes, aí a gente chegou com os instrumentos, entramos na loja e subimos por uma escada até a janela por onde entramos na marquise”.
Por ali as pessoas já começaram a ficar, observando esses jovens rapazes montando seus instrumentos naquele lugar inusitado.
“As pessoas foram parando sem entender nada, e aos pouquinhos elas foram se reunindo, quando nós começamos, já na segunda música dava pra ver que haviam muitas pessoas nos observando”.
Waldir lembra que na medida que o show foi acontecendo mais pessoas foram se aglomerando para assistir os jovens talentos.
“A rua tinha trânsito de veículos, contanto que precisou parar, só para as pessoas assistirem o nosso show” recorda o músico.
The Snakes viaja para o Rio de Janeiro
Após o emblemático show no Centro, os garotos foram fazer uma temporada de apresentações pelo Rio de Janeiro.
Na cidade maravilhosa o grupo participou de diversos shows, entre os quais, na TV Rio, do “Programa do Bolinha” de Jair de Taumaturgo, e até uma audição no Canecão e Clube Bola Preta.
Nessa época, conheceram um DJ (Disk Jockey, figura que seleciona diversas músicas trabalhando suas composições para apresentá-las a um determinado público).
“Foi o senhor Wilson Deverly, importante DJ do Rio de Janeiro” relembra Waldir, que de imediato convidou a banda para um teste, uma oportunidade para gravar o primeiro LP.
O show no clube Bola Preta no Rio de Janeiro – Foto: Waldir Pessoa/Reprodução/ND“Quando ele assistiu a gente tocar, no clube Bola Preta, e fazer aquele show, se encantou por dois aspectos, pela eficiência do grupo, nos vocais e por ter observado a gente apenas tomando refrigerante”, relembra o músico.
“Diferente das outras bandas, nós éramos mais saudáveis” comenta Waldir.
Assim os jovens foram chamados para fazer um teste na antiga RCA, que hoje pertence à Sony Music, e assim se tornaram a primeira banda de Santa Catarina a ter um selo RCA com o LP “Sabor de Avanço”.
Uma cópia do LP original está nas mãos do Waldir até hoje – Foto: Waldir Pessoa/Reprodução/NDNaquela época por questões de direitos autorais, os músicos conseguiram apenas a autorização para gravar 2 ou 3 músicas dos Beatles em seu disco.
“De resto algumas outras músicas do repertório foram também autorizadas. Inclusive nós gravamos com outro nome, pois “The Snakes” já existia no Brasil, era a banda do Roberto Carlos com o Erasmo Carlos” .
“Gravamos o disco com o nome de “Os Rubis”, foi o nome dado pela gravadora mesmo, e como a gente estava ansioso para gravar acabamos aceitando” conta Waldir.
Em 1967 as coisas mudaram para os “The Snakes”
Após os anos na estrada, Waldir conta como as atividades da The Snakes acabaram após o compromisso assumido com um empresário em 1966.
“Em 1967, nós voltamos e quando chegamos aqui [em Santa Catarina] um dos componentes acabou se afastando da banda por questões pessoais”.
Waldir conta que a possibilidade dos músicos se mudarem para o eixo Rio-São Paulo era algo impossível para eles quando jovens. “Nós não tínhamos como sobreviver lá, só de música, muito menos aqui”.
Mesmo assim eles foram gravar, com um número muito menor de integrantes.
“No retorno cada um foi fazer alguma coisa diferente, eu mesmo interrompi meu segundo ano científico para ir até o RJ. Quando voltei pra cá retomei meus estudos e comecei a trabalhar, assim como meus outros colegas”.
Após um longo hiato os amigos retornam para o YouTube
Depois de muitas décadas a banda decidiu relembrar o passado, postando e produzindo seus clipes com covers dos Beatles em um canal no YouTube, que foi criado pelo próprio Waldir.
Com a parceria de Zênio e Waldir, os covers e o legado dos Snakes novamente voltaram aos ouvidos dos seus fãs, que relembraram os sucessos da época.
O legado dos The Snakes
Depois de 60 anos é normal que as coisas mudem, mas a música é algo que sempre vai permanecer e encantar os ouvidos das pessoas, independente da idade, religião ou classe social.
A banda The Snakes foi de muita importância para o cenário do rock em sua época, imagine quantos garotos jovens viram a banda em um palco e pensaram “eu quero fazer isso também”.
Um desses casos é relatado por Daniel Veras, da banda The Saints. Ele conta que assistiu a apresentação dos Snakes, no Bem Bolado. “Era onde tinha um boliche e bar na subida para o morro das TVs. Fiquei a noite inteira só olhando e escutando os Snakes. Eu devia ter uns 16 anos, foi quando despertou a vontade de formar o The Saints”, revela.
Tempero para a vida
Atualmente, Waldir é artista plástico mas nunca esqueceu ou deixou a chama da música se apagar e ainda relembra os momentos com os “The Snakes”.
“Com certeza eu faria tudo novamente e penso que os amigos da banda também. Foi um período maravilhoso. A música pra mim é o tempero gostoso que dá sabor à vida. E viva o Rock”.