Fundada em 15 de agosto de 1896, na antiga Desterro, a Sociedade Musical e Recreativa Lapa completa 123 anos de história nesta quinta-feira. A formação da Banda da Lapa, tradicional grupo de músicos do Ribeirão da Ilha, coincide com o dia da santa padroeira local, a Nossa Senhora da Lapa.
Músicos da Banda da Lapa, familiares e amigos, por volta de 1928 – Arquivos Banda da Lapa/DivulgaçãoEla carrega a história de várias gerações de moradores, familiares e amigos que se dedicam a perpetuar o amor pela música e surgiu para alegrar as festas religiosas de um dos bairros mais antigos de Florianópolis.
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Desde o começo, quando ainda fazia disputas com a Banda de Cera – assim chamada porque os instrumentos eram tão precários que precisavam ser remendados com cera de abelha – a Banda da Lapa sempre teve a preocupação de se manter ativa. Por isso, sempre manteve uma escola de música, ensinando as novas gerações a tocar os instrumentos.
Seguir“Meus avós tocavam na Banda de Cera. Naquela época, os ensaios aconteciam na casa de moradores ou na praça, no rancho do Alécio e até no Centro Social. A Cera e a Lapa disputavam para ver quem tocava melhor. Quando a Cera acabou, os músicos migraram para a Lapa. Hoje, graças a Deus, temos uma sede”, relembra Manoel Feliciano, o seu Dedinha.
Manoel Feliciano, o Dedinha, toca na Banda da Lapa há 61 anos – Anderson Coelho/NDCom 81 anos, o servidor estadual aposentado é o músico mais antigo da banda e participa até hoje, onde quer que o grupo vá. Com exceção dos morros. “Ah, quando tem que tocar nos morros eu não vou mais, é muito íngreme para subir, mas nos outros lugares eu vou enquanto estiver vivo”, diz Dedinha. “E já avisei que não quero choro na minha morte, quero que me ponham a roupa da banda e toquem pra mim. Mas não quero morrer já não, ainda pretendo tocar muitos anos”, afirma, rindo. Seu filho toca saxofone e ele ainda quer trazer a neta, de 10 anos, para participar do grupo.
Tocar na Lapa é um orgulho
Para Dedinha, que iniciou na percussão aos 20 anos de idade, tocar na Lapa é motivo de orgulho. “É uma beleza, quem é que não gosta de música? Eu fico até meio prosa quando toco, tenho muito orgulho disso aqui. E acho muito bonito o fato de agregar as famílias, os filhos e netos”, diz. Ele destaca o fato de a banda ser muito organizada e harmônica, além da dedicação para comparecer aos eventos e manter a história viva. “Se a Banda da Lapa se acabar, o Ribeirão fica morto, ela é uma referência no bairro”, avalia.
Esse sentimento de satisfação permeia as histórias de quem faz parte do grupo. É assim para o motorista de transporte coletivo, Douglas Lapa da Silveira, 37 anos, que ingressou aos 13, e hoje é diretor de Patrimônio da banda. “Comecei tocando clarinete e hoje ensino flauta e toco saxofone. Dos 30 alunos da minha turma, só eu fiquei na banda”, relembra.
Camilly e o pai Douglas integram a Banda da Lapa, no Ribeirão da Ilha – Anderson Coelho/NDNaquela época, com recursos escassos, os ensinamentos eram passados por Alécio Heidenreich, 90 anos, que entrou em 1951 e tocou por mais de 60 anos. Atualmente, está afastado por questões de saúde. “Eu ia para o rancho de pesca, onde ele construía baleeiras, e ficava tocando. Ele me corrigia de ouvido, e assim fui aprendendo”, conta Douglas.
Em dezembro, a filha de Douglas estreou no conjunto como flautista. Com apenas 14 anos, Camilly Victória Martins da Silveira é a integrante mais nova da Lapa. A menina acompanha o pai desde criança e sempre manifestou o desejo de tocar algum instrumento. “Eu via meu pai e dizia que queria ser como ele. Aprendi aqui mesmo na banda, começando com as aulas teóricas e depois as práticas junto com a teoria”, diz Camilly.
Música para o amanhã
Pensando na continuidade da tradição, a Banda da Lapa mantém uma escola de música gratuita, com aulas todos os sábados, antes do ensaio do grupo. Os próprios integrantes ensinam de forma voluntária os aspirantes, em sua maioria crianças vindas do Sul da Ilha, mas também do Continente e do Centro.
De 30 pessoas, quatro ou cinco se formam, às vezes ainda menos. Mas é o suficiente para a renovação da banda. “É natural que no começo muitos venham na empolgação, mas é preciso ter vocação para continuar”, explica Douglas.
Sem limites de número de inscritos, a prioridade é abrir vagas para os instrumentos mais necessários no grupo. “Na minha época, o forte era o trombone. De uns tempos pra cá, todo mundo queria o saxofone, mas precisamos de outros instrumentistas, no trompete e clarinete, por exemplo. Por isso, começamos a focar nessas opções”, diz o saxofonista.
Novos caminhos
A Lapa é composta por 32 músicos que se dividem entre trompete, trombone, bombardino, tuba, saxofone, clarinete, flautas transversais, trompas, baixo elétrico, teclado, bateria e percussão. Durante o carnaval, alguns integrantes se juntam a outros músicos para formar o famoso bloco do Zé Pereira, arrastando multidões no Ribeirão da Ilha e outros bairros da Capital. Neste ano, o grupo alegrou sete noites do carnaval ilhéu.
“O Zé Pereira ensaiava na rua e tocava no Limoense durante o carnaval. Depois, vinha para o Ribeirão e passeava pelo bairro animando a festa. É uma das melhores bandas, não porque toco nela, mas porque é boa mesmo”, garante Dedinha.
Zé Pereira 2010, no trio elétrico a Banda percorreu o Ribeirão – Arquivos Banda da Lapa/DivulgaçãoEmbora foque na tradição, participando de procissões, festas do Divino Espírito Santo e outras festividades (religiosas ou não), a Banda da Lapa não perde o compasso quando o tema é atualização.
Em junho, o grupo reproduziu a atmosfera do cinema mudo, com a animação musical em tempo real da comédia “O Circo” (1927), de Charles Chaplin, durante a Mostra de Cinema Infantil, no Teatro Pedro Ivo, em Florianópolis. “Foi um desafio. Fizemos a trilha sonora, com alguns arranjos do Chaplin e músicas próprias, como dobrados e chorinhos, para compor as cenas”, explica Douglas. E o repertório varia de acordo com o evento. “Além dos tradicionais dobrados e valsas, procuramos trazer sertanejos e até arranjos da série Game of Thrones”, completa.
A banda se apresenta nos próximos dias 17 e 18 de agosto no salão paroquial da Igreja da Lapa, durante a festa da padroeira; e em novembro, durante o Floripa Instrumental.
Desafios
Sem muitos recursos, o grupo se mantém com ajuda de sócios, voluntários da comunidade, participação em eventos e com uma verba anual do Fundo Municipal de Cultura de R$ 15 mil para manutenção (cerca de R$ 2 mil ao ano) e aquisição de instrumentos, material didático e despesas diversas.
Da esq. para dir., José Carlos Corrêa, Manoel Feliciano (Dedinha), Camilly Victória Martins da Silveira e Douglas Lapa da Silveira – Anderson Coelho/NDÀ frente da Sociedade há 18 anos, o presidente José Carlos Corrêa (65) tem dois filhos músicos e considera a banda uma extensão da família. Para ele, a confiança é fundamental. “É uma responsabilidade grande porque sou eu que me comprometo quando surge um evento, fico preocupado se os músicos virão, mas o grupo é unido, toca até com tempo ruim”, diz José Carlos.
Um dos filhos de José, Wellinton Carlos Corrêa (39), maestro e responsável pela escola de música, está há 24 anos na Lapa. Ele afirma que os recursos disponíveis não permitem fazer melhorias na sede, como um local maior para guardar instrumentos e abrigar o Centro de Memória da Banda. “Com poucos recursos, não temos condições de fazer planejamento a longo prazo, mas já existe um projeto para tornar o grupo patrimônio imaterial de Florianópolis”, revela.
Cronologia da Banda
1896 – fundação da Sociedade Musical e Recreativa Lapa
1952 – banda fica parada por falta de recursos
1953 – grupo volta a atuar com esforços da comunidade local, músicos novos e veteranos e se mantém ativa até hoje