Os comerciantes do bairro Carianos, no Sul da Ilha de Santa Catarina, em Florianópolis, enfrentam uma fase difícil desde o início das operações do novo terminal do aeroporto Hercílio Luz, há quase um mês. Quem passa pela avenida Deputado Diomício Freitas, percebe a redução no movimento de carros e pessoas. Nesta segunda-feira (28), no início da tarde, apenas um dos estacionamentos da via que dá acesso ao antigo aeroporto estava aberto e a maioria dos restaurantes também estava de portas fechadas.
Avenida Deputado Diomício Freitas, no Carianos, antes com trânsito intenso e agora às moscas na região do antigo terminal de passageiros do aeroporto Hercílio Luz – Foto: Anderson Coelho/NDLeia mais:
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“A mudança foi bem significativa, o movimento caiu bastante”, conta Luiz Gomes, de 69 anos, proprietário de um estacionamento próximo ao antigo aeroporto há cinco anos. O estabelecimento recebia uma média de 200 carros por mês, que passou para 50 a 60 carros com a mudança do terminal, segundo o empresário. “O número de mensalistas também diminuiu cerca de 50%”, relata.
A família de Pablo Maceno, de 38 anos, fundou e administra uma locadora de veículos que opera perto do antigo Hercílio Luz desde 1990. “Com a saída do aeroporto, praticamente morreram as locadoras. Nós continuamos ali porque a gente ainda um público fiel. Mas a queda no faturamento foi para mais de 30%”, diz.
SeguirMirian Almeida tem 30 anos e mora no Carianos há dez. Ela trabalha em um posto de gasolina na avenida Deputado Diomício Freitas e também observou a drástica mudança. “Como eu trabalho no posto, percebi que caiu bastante o movimento. Fechou um restaurante e a maioria dos estacionamentos. O resto do comércio continua funcionando, mas não sei até quando, né?”, reflete.
A comerciante Rose De La Vega, de 44 anos, decidiu aguardar até dezembro para analisar se continuará no bairro. “A gente perdeu muito cliente aqui no bairro, os funcionários [do aeroporto], turistas. Foi uma queda bem grande, de uns 30 %. Se cair mais, a gente está pensando em cair fora daqui, ir para outro local. O bairro aqui ficou morto”, lamenta. Além de ser proprietária de uma loja de variedades há três anos, ela também é moradora da região.
Marina Souza (à frente) e Adriane Spiecker trabalham numa padaria do bairro Carianos e já sentiram o impacto nas vendas por causa da mudança do terminal de passageiros – Foto: Anderson Coelho/NDMarina Souza Santos, de 29 anos, teve que fazer mudanças na padaria da qual é sócia para compensar as perdas com a mudança de endereço do aeroporto. “Caiu de 20% a 30% o movimento. Para equilibrar, diminuímos a quantidade de produtos e montamos uma pizzaria à noite”, lembra. Ela percebe que até a quantidade de motoristas por aplicativo no bairro diminuiu: “Antes, sempre tinha”.
Sugestões de uso para o antigo terminal
As mudanças afetaram também os visitantes que chegam à Capital catarinense. Patrícia Viana, de 44 anos, estava voltando para Brasília na segunda-feira (28) e notou que “tem bastante coisa fechada. A gente demorou a achar restaurante aqui. Na vinda, nós chegamos 14h40 e não conseguimos encontrar almoço”. No início deste mês, pelo menos um dos restaurantes da região fechou as portas.
Patrícia Viana se surpreendeu com a nova realidade do bairro – Foto: Anderson Coelho/NDA esperança dos comerciantes, trabalhadores e moradores está na nova função do antigo aeroporto. Não faltam ideias para utilizar a estrutura.
“Poderiam focar na parte de cargas, apoio para a secretaria de Segurança Pública – seja do município, do Estado ou até do governo federal -, incubadoras de tecnologia voltadas para a área da aviação, aeroclubes ou até trazer algum programa de engenharia da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) para cá”, sugere Pablo Maceno.
Adriane Spiecker, de 50 anos, trabalha na padaria de Marina e pensa em algumas soluções para melhorar a qualidade de vida no bairro. “O que a gente estava precisando realmente era uma casa lotérica, um caixa eletrônico. Hoje, para sacar dinheiro, a gente tem a necessidade de ir até o Centro ou até o Bistek. Mas se torna mais longe, tem que pegar ônibus”, explica.
Questionada sobre a utilização do antigo terminal, a Floripa Airport diz que “ainda não está definido qual será o uso da antiga estrutura”.
Casa nova
Para quem foi para um local mais próximo do novo terminal aéreo, a mudança também é desafiadora. Otacílio Neto, de 33 anos, e Edilson Timóteo Félix, de 42 anos, trabalham na administração de um estacionamento que operava em frente ao antigo aeroporto e agora está mais próximo do novo.
Otacilio Neto (à esq.) Edilson Félix se mudaram para uma área próxima ao novo terminal e ainda se adaptam ao novo momento – Foto: Anderson Coelho/ND“Deu uma baixada de uns 30%, no movimento. Mas, devagarzinho, estamos nos recuperando. Estamos aprendendo a trabalhar de novo, porque é outra logística. Queremos manter o padrão de atendimento que tínhamos lá aqui”, conta Otacílio Neto.
Edilson relata que o estabelecimento funcionava há quase 30 anos no endereço antigo. “Depois do dia 1º, quando aconteceu a mudança, praticamente o bairro parou”, fala. Segundo o gerente, a mudança de local do estacionamento foi estudada e “começou em 2012, quando se soube que o aeroporto mudaria”.