As paredes escuras, a falta de luminosidade e a sensação de estar viajando pelo tempo, conhecendo a historia da mineração catarinense. É assim que o visitante se sente ao passear pelas galerias da mina de visitação Octávio Fontana, em Criciúma, no Sul de Santa Catarina.
Mina de Carvão em Criciúma é aberta para visitação – Foto: NDTV/Reprodução/NDA mina funcionou por muitos anos até que em 1994 foi desativada. Em 2011 passou a ser ponto turístico e a partir dai o número de visitantes foi crescendo a cada ano.
Nos seis primeiros meses foram mais de 20 mil visitas e já tiveram meses onde um publico de mais de 3 mil pessoas passou pelo local. Além disso, impulsionou o turismo da região e focou em preservar um espaço importante da historia.
Ismail Ahmad, diretor turismo fundação cultural de Criciúma, explica que o local é seguro, sendo que tudo foi pensado na segurança dos visitantes e dos trabalhadores.
“A mina está no meio de uma área verde. Nós tivemos o cuidado também na construção de não mexer muito na vegetação, apesar de a mineração estar muito associada à degradação ambiental, hoje em dia, isso é folclore, não existe mais. Toda produção de carvão mineral aqui na nossa região é feita de forma bastante sustentável com pouco resultado de agressão ao meio ambiente”, explica Ismail.
A mina de visitação pode ser acessada caminhando ou indo em vagões que fazem o trajeto pelos trilhos. Mas, de uma maneira ou de outra o objetivo é permitir que os visitantes sintam a sensação que os mineiros tem ao trabalhar na extração de carvão, passando horas e horas sem ver a luz do dia. E assim, entender porque a atividade da mineração tem um valor tão significativo para a região sul do estado.
A jornalista e historiadora, Joice Quadros, conta que a atividade impulsionou outras áreas e ajudou a desenvolver outros serviços.
“A mineração de carvão fez toda a diferença no Sul de Santa Catarina à medida que desenvolveu economicamente, socialmente, toda a região e oportunizou a geração de emprego, renda e de novas indústrias que aportaram na região. Assim como o comércio e inclusive a prestação de serviços. Porque tem uma história que no início da exploração, muitos acidentes, muitos problemas de saúde com os mineiros foram registrados e isso aí desenvolveu a questão da medicina. E, hoje, Criciúma é o mais importante polo de saúde entre Florianópolis e Porto Alegre”, destaca Joice Quadros.
A Octávio Fontana é a única mina de visitação aberta da América Latina e uma das quatro do mundo. O espaço tem 15 mil metros quadrados e muitas historias registradas dentro das galerias mostrando o modo de trabalho, a religiosidade e as ferramentas que, hoje, já fazem parte do passado.
Atualmente, a mineração é mais moderna e tecnológica, mas ainda vive e continua sendo um pilar importante na economia local.
“Eu desconheço que exista uma energia tão segura quanto o carvão. Se existir, eu não conheço. A energia eólica depende de vento, a hidráulica depende de grandes vazões de água, a solar necessita de sol, existe a biomassa, outras tecnologias, mas geram em poucas quantidades. E nós temos aqui um carvão, que o tem que ser feito é tirar, porque ele está ali, está depositado, é extrair, com todos os cuidados ambientais e na saúde e segurança dos trabalhadores, extrair, colocar no forno e gerar energia. Então, esta é uma energia segura”, ressalta a historiadora.
É inevitável, as minas geram curiosidade, atraem visitantes e por isso estão cada vez mais associadas ao turismo. Afinal, poucos são os locais no mundo onde é possível conhecer a vida de um mineiro, o trabalho de extração do carvão, visitando exatamente o local onde uma atividade acontecia. Por isso, Criciúma tem planos de ampliar cada vez mais este tipo de turismo.
“Nós vamos ter o planetário, o mirante e a ampliação da mina de visitação. Isso tudo vai formar um conglomerado na região onde estamos. Temos certeza absoluta de que isso vai ser uma virada de chave nessa indústria do turismo aqui na cidade e no turismo de Criciúma. Temos convicção que será uma fonte de renda, de recursos para o município e principalmente para a população, porque sabemos que no turismo sempre que a gente faz alguma coisa que beneficia o turista, acaba beneficiando também o nosso munícipe”, explica Ismail.
Turismo e transição energética justa
A economia de uma região que depende da extração do carvão. Mas, que precisa ser remodelada. Para que seja uma transição justa é necessário quem depende dessa atividade seja capacitado para uma nova fase da mineração.
Assim surge a cidade do conhecimento. Uma área para desenvolver inovações. 70 hectares de um novo espaço, em Criciúma, onde o que se quer é unir moradia, trabalho, estudo, empreendimentos e lazer.
Gustavo de Lucca, coordenador do projeto cidade do conhecimento, revela que essa estrutura será um espaço para incubar empresas e para testar tecnologias de soluções inovadoras.
“Inclusive o plano diretor dessa região da cidade foi alterado para projetos especiais. Se consegue construir coisas diferentes. É um projeto de longo prazo, que está dentro de um guarda chuva chamado transição energética justa. Dentro dele, temos o projeto da cidade do conhecimento que ate 2040 faremos essa transição, uma mudança de economia da região que é baseada no carvão e que vai continuar sendo baseada no carvão, mas com novas tecnologias e não só produção de energia, mas outras coisas também”, explica Gustavo.
Uma cidade que já começou a ganhar forma. Nas dependências da Satc (Sociedade Assistência aos Trabalhadores do Carvão), há núcleos funcionando a todo vapor. No centro de tecnologia, 60 pesquisadores atuam para a indústria de energia e indústria química.
SATC conta com 60 pesquisadores trabalhando – Foto: NDTV/Reprodução/NDNas incubadoras, 25 startups das mais diversas áreas desenvolvem nos produtos para o mercado. Nos laboratórios, uma série de prestações de serviços é oferecida à sociedade. Mas, há ainda uma área vazia onde muita coisa deve acontecer nos próximos anos.
“Agora, a gente está com um concurso acontecendo do primeiro prédio. O conceito arquitetônico do primeiro prédio está rolando, vários arquitetos do Brasil e do exterior se candidataram para fornecer este projeto e o resultado sai em fevereiro. Então, temos tudo isso acontecendo”, ressalta o coordenador da cidade do conhecimento.
O desenvolvimento da cidade do conhecimento caminha no tempo da transição energética justa. Até 2040 o que se quer é ter um espaço moderno, inteligente e sustentável, mas que seja, também, um local de formação de novas profissões para atender uma demanda de um novo cenário que irá surgir num futuro próximo.
“Se nós temos novas tecnologias eu vou precisar capacitar pessoas para que essas pessoas possam trabalhar nessa nova indústria. É um ciclo, a gente forma pessoas, gera inovação e precisa formar uma nova geração de profissionais”, lembra Gustavo.
Continuar usufruindo do carvão, que entrega uma energia firme e segura, mas de uma forma cada vez mais eficiente e tecnológica para que a transição energética não impacte bruscamente na vida de quem vive da mineração e também na economia de uma região. Que seja uma mudança justa, que traga tantos benefícios quanto à indústria carbonífera trouxe ao longo dos últimos anos.