A perda da visão periférica foi o primeiro sinal que a professora aposentada Marilene Breda Consulim, 71 anos, sentiu antes de ter um AVC (Acidente Vascular Cerebral). Depois, ela começou a enrolar as palavras e a perder parte da mobilidade. Em 9 de agosto, Lucas Guilherme, 34, acordou por volta das 4h da manhã, tentou levantar da cama, mas caiu. Com a mobilidade afetada, levou quase uma hora para conseguir chegar ao celular e pedir ajudar. As doenças cerebrovasculares, incluindo o AVC, são a principal causa de morte no Brasil, e, quando se fala em neurônios, cada segundo é precioso para evitar as sequelas. Como forma de prevenção e alerta, este domingo é considerado o Dia Mundial do Combate ao AVC.
Os primeiros sintomas que dona Marilene sentiu foram em uma segunda-feira. Ela já havia tido um AVC este ano e, apesar de ter perdido a visão periférica na segunda vez, o problema desapareceu sozinho no mesmo dia. Ela passou a noite bem e somente no outro dia foi perceber que algo estava realmente errado. “Eu tinha a intenção de falar, mas não conseguia pronunciar o que eu pensava. Eu falava, falava, e achava que tinha terminado a frase, mas não tinha”, relembra ela.
De acordo com o neurocirurgião Willian Costa Baía Júnior, o que Marilene teve em um primeiro momento foi um ataque isquêmico transitório. O vaso responsável pela irrigação da retina obstruiu e desobstruiu sozinho. “Quando o paciente tem um sintoma que melhora sozinho, mesmo assim deve procurar atendimento, pois de 30 a 40% desses pacientes vão desenvolver um AVC nas próximas três semanas”, explica.
Seguir
Em duas horas após os sintomas que Marilene sentiu no dia seguinte, ela já estava sendo atendida no Hospital Baía Sul. “Quanto mais rápido for o atendimento do paciente com suspeita de AVC, menor será a possibilidade de danos e sequelas permanentes”, afirma o neurocirurgião Jorge Moritz. “Cada minuto ou segundo que perdemos com a artéria cerebral obstruída são neurônios que estão morrendo e que podem desempenhar funções vitais às vezes, como respirar, movimentar um lado do corpo ou falar”, afirma Willian.
Doença acomete pessoas de todas as idades
Os AVCs atingem 16 milhões de pessoas no mundo a cada ano, dos quais 6 milhões morrem. No Brasil, são 68 mil mortes em decorrência de AVCs anualmente, de acordo com o Ministério da Saúde. Apesar de acometer principalmente pessoas mais velhas, há casos como o de Lucas Guilherme, que sofreu um ataque aos 34 anos.
Segundo ele, os médicos não descobriram o que o levou a ter o AVC, mas fatores como uso de álcool, tabagismo e estresse podem estar ligados à ocorrência. Hipertensos, diabéticos, sedentários e obesos também estão entre as pessoas propensas a desenvolver a doença. “Prevenção é sempre o melhor remédio e cuidar desses fatores de risco é fundamental”, afirma o neurocirurgião Willian Baía Júnior.

Única cidade com ressonância 24h
Na Grande Florianópolis só há dois hospitais com áreas especializadas em AVCs: o Governador Celso Ramos e o Baía Sul. Na rede particular, há um Centro de Atendimento de Urgência de AVC, com uma estrutura pronta para tratar os pacientes desta doença. É por meio de um grupo de WhatsApp que toda a equipe é acionada assim que um paciente é identificado com AVC na entrada do hospital. Desde a portaria até o pronto atendimento e a chegada à equipe médica, todos estão em alerta para priorizar a passagem a casos de AVC. A OMS (Organização Mundial de Saúde) recomenda a adoção de medidas urgentes para a prevenção e tratamento da doença.
No Baía Sul, a chegada do paciente até o diagnóstico por imagem não excede 30 minutos. Florianópolis é hoje a única cidade do país que tem um plantão 24h com ressonância magnética pronta para atuar em casos de suspeita de AVC.
O tempo entre os primeiros sintomas de AVC e a chegada a uma equipe especializada definem também o tipo de tratamento que será realizado. Em pacientes que tiveram sintomas em até 4h30, é feita uma trombólise intravenosa – injeção para destruir o coágulo. Pacientes que chegam com até 7h30 devem passar por uma trombectomia mecânica – quando é utilizado um cateter para chegar até o vaso.
Sintomas do AVC
Súbita fraqueza assimétrica dos membros: geralmente a falta de força acomete um braço ou perna em apenas um lado do corpo. A paralisia, ou quase paralisia, são facilmente identificáveis. A dificuldade surge quando a perda de força é discreta;
Súbito formigamento: notado em um dos lados do corpo ou na face, braço ou perna, pode indicar um AVC em instalação;
Assimetria facial: o desvio da boca em direção contrária ao lado paralisado é o sinal mais comum e perceptível. Às vezes a paralisia é discreta. Nestes casos, a pessoa deve tentar sorrir ou assobiar, assim a paralisia será facilmente notada;
Alterações da fala ou na compreensão da fala: a afasia é a incapacidade do paciente em nomear objetos e coisas ou de compreender o que está sendo falado. O paciente não consegue falar normalmente pois não consegue dizer nomes simples como cores, números e objetos. Dependendo da afasia, o paciente pode conseguir pensar no objeto, entender seu significado, mas não saber como dizer seu nome;
Confusão mental: uma alteração do discurso também pode ocorrer por desorientação e confusão mental. O paciente pode perder a noção do tempo, não saber dizer o ano nem o mês em que estamos;
Alterações na marcha e tonturas: o paciente com AVC pode ter dificuldade em andar, ter desequilíbrio, diminuição da força em uma das pernas ou alterações na coordenação motora;
Dor de cabeça forte e súbita: por vezes relatada como a “pior dor de cabeça já sentida”.