Foi logo após o nascimento do filho mais novo que a psicóloga Merlina Saudade e o marido decidiram que era hora de sair da Venezuela. O país vivia uma grande crise econômica e, ao ter que ir para o hospital sem nenhum recurso, a família viu que a situação não iria melhorar tão logo. Hoje, a família vive em São José, na Grande Florianópolis.
Projeto de revitalização da ala leste do Centro Histórico de Florianópolis continua em discussão – Foto: Anderson Coelho/Arquivo/ND“A gente tava surfando essa crise, mas chegou a hora de eu ganhar meu filho mais novo. E aí, para eu entrar para ser atendida no hospital, eu tive que levar todo o material que desse para uma cesária, ainda eu entrando para o parto”, contou Merlina.
Ao desembarcar no Brasil, se estabeleceram em Roraima. Mas, a vida projetada pela psicóloga e pelo advogado não se realizou. Ela ficou sem emprego e ele teve que ir para a colheita de bananas. Até que a situação passou a ficar cada vez mais difícil.
Segundo a psicóloga, o “marido trabalhava na feira e na feira era onde aconteciam momentos de violência”. Ela contou que o marido quase foi sequestrado em uma ocasião.
Foi quando Santa Catarina entrou na rota da família para ter uma vida melhor. Aqui, foram ajudados por várias pessoas e entidades. Foram conseguindo se reerguer com paciência. Mudaram de Florianópolis para São José e hoje têm emprego fixo e muitas expectativas boas para o futuro.
Só em São José mais de 230 famílias venezuelanas estão cadastradas na Secretaria de Assistência Social. Mas há também imigrantes de muitos outros países que vêm buscando uma nova vida no Brasil. Ao chegar no Brasil, a principal dificuldade está em conseguir regularizar toda a documentação.
“Normalmente, eles chegam no Brasil pelo Norte. Lá, eles têm acesso à carteira de trabalho, mas ficam um ano ou dois anos e eles já não têm mais o registro, não têm mais essa autorização e precisam atualizar a data de permanência”, explicou a secretária adjunta de Assistência Social de São José, Luciana Pereira da Silva.
Deixar essas famílias regularizadas, com documentação e estrutura de emprego, escola e assistência médica requer um esforço do Município e organização por parte do poder público para acolher os imigrantes.
De acordo com Luciana, “demanda vaga na escola, demanda consulta médica e outros procedimentos médicos e na assistência social também, porque inicialmente essa família não tem talvez nem onde morar, mas também não tem condições de sobrevivência mínima”.
Na Capital, é na Casa do Migrante da Pastoral que muitas famílias encontram esse apoio e acolhimento. Lá, eles podem ficar pelo período de até três meses compartilhando a estrutura da casa, recebendo aulas de português e orientações para entrar no mercado de trabalho.
“Eles aqui não pagam aluguel, eles não pagam nada. Eles têm a cozinha abastecida de alimentos e eles mesmos preparam, eles mesmos cozinham”, afirmou o administrador da casa, Levi José.
O espaço abriu as portas em 2019 e de lá para cá muitas famílias já foram acolhidas. O espaço acaba sendo o primeiro lar de muitos venezuelanos no Brasil, onde criam laços para recomeçar uma nova vida.
Segundo a Polícia Federal, mais de 19 mil estrangeiros estão regularizados em Santa Catarina, sendo pouco mais de 3 mil só na Grande Florianópolis. A maioria (42%) vindos da Venezuela, outros 31% do Haiti e os demais de vários outros países. Pessoas de 36 nacionalidades diferentes já buscaram regularização de documentação para viver no Brasil.
Ao deixar a vida difícil para traz eles chegam cheios de esperança, não escondem a tristeza de ter que abandonar suas raízes e a saudade que fica de quem lá ainda ficou. “Dói porque tem sete anos que eu não vejo minha mãe e meu marido ao mesmo tempo sem ver seus pais”, disse Merlina.
Mas também não escondem a alegria e a gratidão de ter encontrado em Santa Catarina a oportunidade de viver diferente, de escrever a cada dia uma história diferente.
Confira mais informações na reportagem do Balanço Geral Florianópolis.