Moradora de São José costura bonecas para serem doadas neste Natal

Brinquedos já foram levados até para crianças na África; produção conta com a ajuda de outras "bonequeiras"

Brunela Maria São José

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É num pequeno quarto de uma casa ao final da rua João Grumiche, no bairro Roçado, em São José, que a magia acontece. Amor, solidariedade, laços, fitas e retalhos de tecido são transforados em bonecas e bonecos que fazem brilhar os olhos das crianças e até dos idosos durante o Natal. As “Bonequeiras Solidárias”, comandadas pela cozinheira Ondina Rosa Costa Nascimento, 60, já fizeram sorrir meninos e meninas até da África e se preparam para entregar a produção deste ano, no dia 23 de dezembro, no Sertão do Maruim.

Ondina Rosa Costa Nascimento, 60, criou as “Bonequeiras Solidárias” quando seu neto de apenas um ano morreu - Daniel Queiroz/ND
Ondina Rosa Costa Nascimento, 60, criou as “Bonequeiras Solidárias” quando seu neto de apenas um ano morreu – Daniel Queiroz/ND

A rotina é árdua, mas segundo Ondina, compensadora. Todos os dias ela sai para trabalhar às 5 horas e quando volta está de novo no quartinho, pronta para montar mais uma boneca. “Entro aqui e esqueço dos problemas. Penso na felicidade e como é gratificante ver a alegria no rosto das crianças. Não aceito dinheiro, apenas doações em retalhos, tecidos e fibras. Muita gente que vem aqui até coloca preço, mas transformo tudo em produto e faço outra boneca”, revela.

Ondina começou quando perdeu o neto de um ano e ficou viúva. Resolveu que seria voluntária quando fez uma visita à comunidade Frei Damião. “Estava muito triste porque era recente a morte do meu netinho e olhava as crianças pedindo carinho. Decidi então ajudar”, lembra.  Com vontade sobrando e muita criatividade, faltava para ela um detalhe: saber costurar. A técnica foi oferecida pela irmã, Inês Rosa Costa, 62, e juntas iniciaram as produções. Sem nenhum padrão, buscando valorizar as diferenças e produzindo bonecas brancas, morenas, loiras e até carecas, entregues às crianças com câncer.

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Devolvidas por puro preconceito

Desde o início do projeto, Ondina sonhava em confeccionar bonecas negras. A intenção era presentear as crianças carentes da região. Mas, no começo, elas não foram bem aceitas. A ideia só avançou quando uma entidade de Santos (SP), que levava artesanato para a África, ficou sabendo do trabalho das Bonequeiras, e fez uma encomenda para um orfanato só de meninos. “Fazemos de várias tonalidades, porque ninguém é igual ao outro. Ano passado enviamos para o sertão da Bahia, mas aqui na região, só quando nos pedem” explica.

Atualmente, bonecas mulatas, morenas e negras, todas encantadoras são enviadas regularmente para Moçambique e Nigéria. Por lá, a aceitação é bastante grande. Por aqui, houve casos de Ondina receber o presente de volta, por se tratar de boneca negra. “A resistência é grande. Não entrego boneca negra em São José. Na minha família tem essa mistura de cores, mas nas produções, as bonecas negras são restritas às encomendas”, conta. Em 2016 foram contabilizadas mais de 1,5 mil produções. Este ano, o número de peças deve ser maior, já que houve mais doações de fibras e tecidos. Os pedidos de material são feitos pelas redes sociais. Junto com as bonecas, Ondina costuma levar doces, que pede já em novembro para adiantar o trabalho.

Produção é preparada desde o começo do ano

Não importa o tamanho da embalagem, nem mesmo o que há dentro do brilhante pacote. No olhar sincero de uma criança a alegria de receber um presente supera qualquer dificuldade. As comunidades beneficiadas pelas Bonequeiras são estrategicamente escolhidas por enfrentarem problemas sociais. É nesses locais que Ondina afirma renovar suas forças e segurar a emoção nem sempre é possível, diante do pouco que se torna muito, às vésperas do Natal.

Desde que deu início à confecção de bonecas, a artesã mudou de vida e deixou a tristeza de lado. Parou de chorar e encontrou nos abraços e sorrisos uma verdadeira missão de vida. “Resumo tudo no amor. Porque eu enfrento dificuldades no meu dia a dia, mas não desisto e no fim conseguimos levar alegria parar as crianças. As vezes falta material, precisa pagar a conta de luz que vem alta, sem contar no meu sonho em ter o espaço maior. No final de tudo isso superamos, porque há muito amor envolvido”, conta.

Os meses de trabalho compensam, segundo ela. As peças começam a ser produzidas em janeiro, quando os panos crus recebem os moldes. Depois, são cortados, preenchidos com fibras, ganham cabelo, maquiagem e aguardam até setembro a confecção das roupas feitas pela irmã. Os doces também não podem faltar. “Nunca vou esquecer de uma criança que ficou emocionada porque nunca tinha tomado um sorvete. Me disse que trocaria a boneca pelo doce”, complementa.