Localizada ao lado das ruínas da antiga Armação da Piedade, em Governador Celso Ramos, a Igreja Nossa Senhora da Piedade é considerada a primeira igreja edificada em Santa Catarina. Sua construção começou em 1738, em estilo colonial português, com o uso do óleo de baleia para reforçar a argamassa. Mas apesar de tombada pelo Estado como patrimônio histórico e cultural, todo o charme açoriano da construção vem se perdendo com a ação do tempo.
Igreja histórica abandonada preocupa moradores de Governador Celso Ramos – Foto: Reprodução/NDTV RecordTV“Tem uma característica que a faz muito especial, única, porque só duas igrejas no Brasil que datam dessa época do século 18 foram construídas de frente para o mar. As igrejas em geral eram construídas em frente a uma praça. Por isso, como parte da comunidade da Armação, temos muita pena da igreja estar nesse estado de completo abandono”, explicou a arquiteta Mariela Zingoni Baro.
A igreja chegou a passar por um processo de restauração no começo dos anos 2000, principalmente para reparos no telhado. Mariela participou do projeto na época e afirmou que a manutenção não foi suficiente. Agora, cerca de 20 anos depois, a edificação ainda pede socorro.
Segundo a arquiteta, “faz dois anos que as missas não se celebram aqui [na igreja], se celebram num salãozinho. Toda a comunidade está querendo ver como fazer e como ter orientação e verba para fazer esse restauro, que agrega também muito valor a todo o município”.
A igreja faz parte da Arquidiocese Metropolitana de Florianópolis. No entanto, como é um bem tombado pela FCC (Fundação Catarinense de Cultura), o pedido da comunidade é pela intervenção e revitalização imediata por parte do órgão, já que a edificação está em situação precária.
A maior preocupação é com o telhado. Ele foi danificado por um forte temporal há alguns anos e está repleto de buracos. As rachaduras e infiltrações nas paredes também assustam e as madeiras de sustentação e da escadaria que leva ao segundo andar estão podres, deixando visível o risco de desabamento.
“Meus filhos fizeram a primeira comunhão aqui. A minha filha, com 26 anos agora, queria casar nessa igreja. Então, a gente pede ajuda pra alguém restaurar essa igreja. A igreja tá pedindo socorro”, contou a cuidadora Darlene Cesconetto Quintino.
Até o pátio da Igreja já foi convertido em uma tentativa de restauração. Nas duas últimas temporadas de verão, a comunidade utilizou o amplo espaço para fazer um estacionamento aos turistas. Quase toda a verba arrecadada era destinada à manutenção da igreja, que segue sem receber missas há pelo menos dois anos. Mas, recentemente, o local foi cercado por entidades de preservação, inviabilizando a tentativa da comunidade.
Para o pescador e artesão Avelino Odilio Dias, era “o único jeito que a comunidade tinha de arrecadar esse dinheiro, que era para arrumar o telhado. Na época, nós conseguimos. Só que não liberaram para a gente consertar. (…) E hoje você vê que essa igreja tá indo abaixo”.
Em 2021, uma comissão foi criada entre moradores para cobrar a revitalização da igreja. O membro da comissão de moradores, William Wollinger Brenuvida sabe bem da importância do local para a cidade.
“Ela é um marco zero da região da Grande Florianópolis. A nossa região nasce na Armação da Piedade. O primeiro empreendimento, de uma empresa mesmo instituída em Santa Catarina no período colonial é a Armação da Piedade, a Armação Grande das Baleias. Então, ali a gente vai ter um conjunto arquitetônico, um conjunto socioeconômico, todas as decisões políticas passam pela Armação da Piedade durante muito tempo e ela era uma freguesia muito importante no Brasil colonial”, disse Brenuvida.
Em nota, a prefeitura de Governador Celso Ramos comunicou que apoiou a criação da comissão formada em 2021 pela comunidade empenhada na restauração, mas que não pode agir de maneira isolada porque a igreja não é um bem municipal. Afirmou ainda que pretende criar um conselho de cultura na cidade e formalizar um termo de cooperação técnica com a FCC, para então realizar a revitalização conforme a legislação determina.
O comerciante Paulo Roberto dos Passos falou que a comunidade “quer uma solução. O Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) empurra para a Mita, a Mita empurra para a prefeitura, a prefeitura empurra para a comunidade e a gente não sabe mais o que faz”,
A comissão de moradores já está buscando uma solução paralela, principalmente com o apoio da lei de incentivo cultural. A ideia é tentar viabilizar a revitalização, para quem sabe, dar fim a essa novela e reviver o espaço.
Confira mais informações na reportagem do Balanço Geral Florianópolis.