O dia era 3 de outubro. Eram as eleições dos anos 1950, ainda com cédulas de papel, distribuídas por partidos e candidatos. Vivemos, hoje, as eleições das mídias sociais e do voto eletrônico. Paradoxo: são “modernas”, mas não insuscetíveis de fraude.
Vivemos também as eleições da TV: horário gratuito, partidos sem torcida e candidatos caprichando no marketing. Os partidos que dominavam a cena eram dois, assim como duas eram as escolas de samba.
Urnas eletrônicas – Foto: Anderson Coelho/arquivo/NDA turma da Copa Lord sambava pelo PSD e a dos Protegidos rebolava pela UDN, numa democracia francamente provinciana. Abertas as urnas, os votos eram cantados ao microfone das duas rádios “oficiais”, de forma rigorosamente “parcial”. As emissoras orientavam seu “departamento musical” para celebrar as vitórias ou camuflar as derrotas.
SeguirDurante os primeiros quatro dias, cada uma das “rádio apuradoras” – a pessedista Guarujá ou a udenista Diário da Manhã – proclamava a vitória do seu partido. Até que a realidade começasse a corrigir os boletins e a baixar a primeira partícula de verdade na poeira da dissimulação.
A guerra da informação fazia parte da estratégia da vitória, ainda que ela terminasse em derrota. Quer dizer: tal como hoje a “desinformação” era uma tática. E “ler” os resultados, uma tarefa para connaisseurs. Para o bom entendedor, era essencial prestar atenção no score musical das emissoras. Ali residiam alguns “cifrados”.
Quando a capitulação parecia inevitável, a rádio perdedora assumia os sons do luto, na forma de um tango de Gardel, alguma músicas acro-religiosa ou – suprema confissão- alguma típica “dor de cotovelo”, como o bolerão cantado por Nelson Gonçalves: “Boemia, aqui me tens de regresso/ E suplicante te peço/ A minha nova inscrição”… Já o contrarregra da rádio vencedora empilhava no braço da sua eletrola as bolachas carnavalescas, entre as quais a gravação que popularizou Dorival Caymmi no Carnaval de 1956: “Eu vou pra Maracangalha, eu vou/Eu vou convidar Anália, eu vou”… Era a senha para a partida da “barca” e para a gozação dos vencedores.
A “nau” levantava ferros do Miramar, levando abordo os infelizes náufragos dos cargos em comissão, a turma dos “inconsoláveis”, chorando a perda da “boquinha”.
Vagas que seriam repassadas para a tropa de ocupação dos novos conquistadores. Antes das apurações, o lado mais fraco já se precavia, discretamente. Na surdina, acumulava o provimento de gêneros alimentícios, “rancho” para um mês, mais ou menos.
Consumada a derrota, os vencidos se recolhiam em prisão domiciliar esperando o bombardeio da “Força Aérea” adversária. Foguete de assobio. Buscapé. Espanta-coió.
Para a garotada das famílias vencidas era como ser Anne Frankn um sobrado de Amsterdam em plena Floripa dos anos 1950. Os “miúdos” sofriam na escola recebendo “selos” e sendo “inticados”.
E nem se podia reclamar de bullying, para proteção da criançada. Uma derrota eleitoral servia também para “bulir” com os adultos, que só deixavam o seu bunker um mês depois, para organizar a aguerrida oposição.
Com o tempo, o jornal dos vencidos ganhava um novo viço, em destempero e atrevimento. Era a hora de devolver os rojões, na forma de “denúncias” e de críticas ao “secretariado”. Havia menos adesistas e mais dignidade.
Quem perdia ia amargar na oposição – sem se colocar na “vitrine”, pleiteando alguma “boca”. E quem vencia ia trabalhar para não fazer feio. Hoje, feio é não recomeçar a campanha no dia seguinte. Pela reeleição.