A CPI pré-datada

Seja contra ou a favor da CPI do MEC, dê uma olhada na embalagem dela e constate que nunca viu nada igual

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Quando você acha que já viu de tudo na anedótica cena política brasileira, um novo evento exótico vem mostrar que você é e sempre será um desavisado. Seja contra ou a favor da CPI do MEC, dê uma olhada na embalagem dela e constate que nunca viu nada igual.

Nos últimos anos esse exotismo ganhou um componente extra, com a tal onda de “renovação” que encheu os gabinetes de arrivistas e aventureiros. O mais caricato deles, o ex-governador de São Paulo João Dória, O Breve, já anunciou a sua saída da vida pública de volta à privada. Mas há vários outros que prometem insistir na ciranda.

CPI da Covid, – Foto: Edilson Rodrigues/Ag. Senado/NDCPI da Covid, – Foto: Edilson Rodrigues/Ag. Senado/ND

Tem por aí políticos novinhos em folha de todas as estirpes, ou melhor, de todas as faltas de estirpe. Tem “outsider” de direita, de esquerda, de centro, centrão, centrinho, extremistas da moderação, moderados da extremidade, etc. Todos chegaram agora há pouco de banho tomado e não têm nada com isso. Um desses outdoors da modernidade imaginária é Rodrigo Pacheco, atual presidente do Senado Federal. Se apresenta como um agente do equilíbrio, mas que ninguém se atreva a convidar ministro do Supremo para dar explicações no Senado, que ele não gosta.

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Pacheco foi o espectador privilegiado de uma CPI que o STF mandou instalar no Senado, e que com figuras como Renan Calheiros e Omar Aziz no comando transformou a pandemia em palanque contra o governo. Até vazamento ilegal de sigilo de médica aconteceu ali, sem que se ouvisse nada parecido com repúdio vindo do presidente da casa. Os casos de desvio de verbas emergenciais de saúde verificados em vários estados e municípios – o Covidão – não interessaram à CPI. Não houve pauta sem sotaque de provocação política ao Palácio do Planalto.

Aí surgiu a proposta da CPI do MEC, a partir das denúncias de favorecimento a aliados político-religiosos do então ministro da Educação, Milton Ribeiro. E o que declara Rodrigo Pacheco? Que a CPI será instalada, mas só depois das eleições.

Como assim? Existem ou não existem os supostos delitos a serem investigados? As pistas serão congeladas por meses para esperar a hora que os nobres parlamentares se debruçarão sobre elas? Pacheco disse que o período eleitoral não oferece a isenção necessária ao processo investigativo de uma CPI. Como assim? Ele está dizendo que político em campanha não é confiável? Quem é capaz de explicar a invenção revolucionária da CPI pré-datada?

Este é o novo estilo de moderação da política brasileira. Dá um pause na realidade, deixa a eleição rolar numa boa, depois aperta o play da CPI prometida meses antes e a vida continua – descongelando os objetos da investigação que ficaram parados no tempo. Uma CPI de época. Isso não pode ser sério.

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