A dor e a vergonha

Há uma grande provação amanhecendo todos os dias na alva luz das manhãs brasileiras

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Ninguém diria que debaixo desse sol que ainda nasce, belo e vigoroso, a vida foi tingida de cinza-escuro, como o céu de uma tarde tempestuosa.

Tanta mazela social e tanta discórdia político-institucional parece sublinhar os versos do poeta Vinicius de Moraes sobre a “sua” pátria, coitadinha, tão pobrinha: “A minha pátria não é florão/ Nem ostenta lábaro não/ A minha pátria é desolação de caminhos/É terra sedenta e praia branca/ A minha pátria é o grande rio secular/ Que come terra, bebe nuvem e urina mar…”Principalmente come nuvem.

Nuvem – Foto: PixabayNuvem – Foto: Pixabay

A mutante nuvem da política, que deveria mudar o país para melhor. Mas essa nuvem surge sempre carregada por medonhas discórdias e por espíritos que só pensam em exercitar o verbo “ter”, conjugado na primeira pessoa.

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Política que desmancha a harmonia entre os poderes e hipertrofia a prevalência de apenas um: que denuncia, prende, julga, legisla e executa ações de governo. No Brasil que vivemos o próprio Antônio Gonçalves Dias, o poeta romântico-mor, nem assinaria aqueles versos de saudades da pátria – “os pássaros que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá”.

Aliás, se alguma ave ainda aqui gorjeia é para cantar as suas lamentações. As manchetes dos jornais sugerem uma atmosfera de “day after”, a desolação típica de um país atormentado pela praga da decomposição moral: corrupção em todos os níveis, com a inominável circunstância de que, em tempos de pandemia, estão roubando até da Saúde.

Os escândalos se sucedem nas arcas do erário: estão recebendo bilhões para combater a pandemia – e estão canalizando tudo para bolsos e cuecas.

No momento mais sinistro da vida pública brasileira, suas excelências parlamentares resolvem se presentear com um indecoroso aumento no reembolso de despesas médicas, em percentual inimaginável pelo trabalhador mortal…Não é que tenham perdido a vergonha – há muito perdida. Perderam, sim, a “noção” de vergonha. Ou a percepção semântica do que seja pejo, pudor, pudicícia.

Há uma grande provação amanhecendo todos os dias na alva luz das manhãs brasileiras. E há um ferro ardendo em brasa para testar os viventes diante da dor. Uma prova repetida todos os dias, talvez para “purificar o espírito”, como sublimava o poeta Unamuno: – “A dor é a substância da vida e a raiz da personalidade, pois somente sofrendo se é pessoa”.

O Papa Francisco pediu que roguem por ele, diante dos desafios do Vaticano. Mas se não for o Santo Padre, quem haverá de rogar por nós?
A dor pode reanimar o homem, resgatando-o pela superação do sofrimento. Mas se a dor é boa mestra, pressupõe a esperança da cura.Quando se revela “incurável”, a dor tem o dom de embrutecer e até de bestializar o homem que a hospeda, pois se torna maior do que ele.

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