“A missão do jornalismo é construir pontes”, diz jornalista catarinense que está na Ucrânia

A correspondente internacional da Euronews está no leste da Ucrânia, onde estão as tropas russas

Kalil de Oliveira Florianópolis

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Anelise Borges é uma jornalista catarinense que trabalha como correspondente internacional para a Euronews. Ela já reportou da Síria, Afeganistão, Irã, Líbia, Brasil. Neste momento, ela cobre a tensão entre a fronteira Ucrânia e Rússia.

A jornalista Anelise Borges costuma fazer as coberturas sozinha. Ela mesma filma e edita seus trabalhos – Foto: Anelise Borges/Reprodução/NDA jornalista Anelise Borges costuma fazer as coberturas sozinha. Ela mesma filma e edita seus trabalhos – Foto: Anelise Borges/Reprodução/ND

A repórter, que já cobriu mais de 30 países, entrevistou figuras como o presidente venezuelano Nícolas Maduro. Ela já trabalhou para veículos como France 24, TRT World e Al Jazeera.

Formada em jornalismo pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), é mestre pelo Instituto Europeu de Jornalismo e pela Universidade Paris 3-Sorbonne. O portal ND+ conversou com exclusividade com a jornalista, que contou sobre o dia a dia de trabalho em área de tensão – e até mesmo insegurança -.

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Estás no leste da Ucrânia, exatamente onde boa parte das tropas russas se encontram. Você não sente medo? 

O medo é humano. As pessoas sentem medo. Mas eu tenho a impressão de continuar fora da história mesmo quando eu estou no meio da situação. Essa sensação mostra que a realidade é muito mais difícil para as pessoas que não podem ir embora. Eu tenho a opção de pegar um voo e voltar para casa. Meu passaporte me permite sair dali, inclusive com a ajuda de outros países. Mas, claro, existem momentos de tensão e apreensão.

Você conta que quando esteve no Afeganistão, durante a tomada de poder pelo Talibã, uma mulher lhe pediu para ser entrevistada e ficaste receosa com o que poderia ocorrer com ela. Como é lidar com esse sentimento?

É a parte mais difícil. Tenho mais medo do que pode acontecer com as minhas fontes do que comigo. Essas pessoas, que me contam suas histórias, ficam. Normalmente elas não conseguem ir embora. Elas são as que mais têm a temer com as consequência de falar à imprensa.  Eu perguntei para essa senhora se ela sabia o que estava arriscando ao se expor daquele modo. E ela me respondeu que já havia perdido tudo, disse que a sua vida já não possuía o mesmo valor.

Anelise Borges durante cobertura no Afeganistão em 2021 – Foto: Anelise Borges/Reprodução/NDAnelise Borges durante cobertura no Afeganistão em 2021 – Foto: Anelise Borges/Reprodução/ND

De que forma é possível permitir que a voz dessas pessoas seja escutada?

Essas pessoas têm o direito de falar. Eu penso em estratégias para não expô-las, como alterar a voz, filmá-las de costas. Mas elas não podem ser silenciadas. É muito importante que suas vontades sejam respeitadas. Elas querem que suas mensagens cheguem ao outro lado. Mas é importante protegê-las de algum modo.

Qual sua intenção ao reportar situações de crise?

Criar empatia. A maior missão do jornalismo é construir pontes. Trazer as pessoas que estão longe dessas zonas de guerra, de perigo, para perto. Aproximar seres humanos que tenham realidades distintas. Colocar um no lugar do outro. Fazer essa gente que está confortável entender que se fosse aquela senhora que não tinha o que comer ou um menino que pode ter sua fazendinha invadida faria o mesmo.

Que tratem os refugiados de forma mais digna. Que não os vejam como pessoas que estão lá para roubar seus trabalhos, mas como professores, diretores, pesquisadores, etc. Sofremos de distâncias. Esquecemos que somos feitos da mesma coisa.

Como é trabalhar como correspondente internacional?

Hoje eu não sei mais se tenho casa. Minha casa é o mundo. Nestas zonas de guerra você encontra histórias que são os exemplos mais fortes de generosidade. Quando as pessoas têm muito pouco, aí que elas dividem tudo o que possuem. [Foram nestas situações que] encontrei os valores mais profundos.

Te angustia não saber se tem casa?

A questão da casa é muito interessante. Tenho períodos longos que vou de um lugar para o outro. Mas tem um lado positivo: sinto que a minha casa é o mundo. Tenho amigos e criei laços com pessoas em diferentes cantos do planeta, como a Síria, Líbia, Irã. Parte do meu coração está no Afeganistão.

Como você é recebida pelas pessoas?

As pessoas abrem as portas para mim e dividem momentos muito difíceis, de humilhação, de dor. Situações nas quais elas perderam tudo. Suas casas foram bombardeadas, algum ente querido morreu.

Sinto que ser mulher me auxilia um pouco. Mulheres tendem a inspirar confiança. Vi situações que meus colegas homens não conseguiam entrar e nós sim. Claro que não é sempre. Há situações, por exemplo, que um membro do Talibã não vai olhar na minha cara por me achar inferior.

Anelise, você estudou na UFSC, como a instituição participou de sua carreira?

Eu aprendi valores essenciais lá. É super legal falar da UFSC. Faz tanto tempo [que me formei]. Foi minha introdução ao jornalismo, eu não tinha a menor ideia da aventura que embarcava. Eu escolhi o curso porque queria ser uma contadora de histórias. Foi um choque [estudar lá]. Eu aprendi valores que não estava preparada. Aprendi que a verdade é muito importante. Não era a vida que eu tinha imaginado e isso só aumentou meu interesse e curiosidade.

Aprendi questões cruciais para a minha carreira aí, ao lado de pessoas como a Bel (professora do curso de jornalismo da UFSC Isabel Colucci. Elas estudaram juntas). Uma formação muito rica que me mostrou várias vertentes do jornalismo. As ferramentas valiosas que uso para contar histórias, aprendi na UFSC.