As Eleições 2022 podem eleger mais mulheres e negros?

Em Santa Catarina, desde Antonieta de Barros, que se elegeu deputada estadual em 1934 e foi a primeira mulher - e negra - eleita no país, não temos outra representante negra

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Amanda Santos Florianópolis

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Em um momento reflexivo em nosso país, o voto neste domingo (2) será mais do que uma perspectiva de melhorias. O povo quer mais. Está mais exigente e tem por meio da informação a possibilidade de fazer a diferença.

A editoria Diversa+, do Portal ND+, tem como público-alvo o universo feminino, mas também serve para chamar a atenção dos homens para as nossas necessidades e para o espaço que já ocupamos, ainda que estejamos em minoria. Nesse contexto, eu tenho a missão de abordar pautas de empoderamento negro feminino com o objetivo de ver mais inclusão e representatividade.

Em Santa Catarina, desde Antonieta de Barros, que se elegeu deputada estadual em 1934 e foi a primeira mulher – e negra – eleita no país, não temos outra representante negra – Foto: Reprodução site Juicy SantosEm Santa Catarina, desde Antonieta de Barros, que se elegeu deputada estadual em 1934 e foi a primeira mulher – e negra – eleita no país, não temos outra representante negra – Foto: Reprodução site Juicy Santos

Representatividade importa para todo ser humano. A humanidade é formada por pessoas, independentemente de orientação sexual, identidade de gênero, classe, religião, raça, idade e grau de instrução.

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Mas ainda assim, porque mesmo sendo a maioria da população como mulheres, negros e negras, ainda insistimos em eleger homens brancos?

Em Santa Catarina, desde Antonieta de Barros, que se elegeu deputada estadual em 1934 e foi a primeira mulher – e negra – eleita no país, não temos outra representante negra.

O perfil dos candidatos que mais receberam recursos para concorrer às Eleições de 2022 é de homens brancos, predominantemente de estados do Nordeste e Sudeste do Brasil. No total, 72,2% são brancos e 72,9%, homens.

Então, volto a perguntar: Por que, ao longo da história, mulheres e negros se fazem representar por homens brancos? E isso não é ativismo, é realidade. Falamos em igualdade, em inclusão, mas não votamos nos nossos. Vamos às urnas para fazer a diferença e continuamos o legado comprovado pela história, mesmo sendo tão difícil chegar até aqui: ter direito ao voto.

A história

Por muito tempo, mulheres, negros, pobres e analfabetos não votavam. Por conta da condição jurídica de escravizados, não éramos considerados cidadãos. Era vedada, portanto, a participação nos processos políticos formais.

Isso ocorreu em todo o período colonial e imperial até a abolição da escravatura. Atualmente, somos maioria, 51% da população. Mulheres e negros são sub-representados na política. E representatividade é o que vai fazer a diferença no mercado de trabalho, na vida em sociedade, na prática da cidadania, na contenção da violência doméstica, do feminicídio, do assédio e do abuso. Acreditem!

Cenário atual

A participação vem aumentando. Em 2020, pela primeira vez, de acordo com o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), que coleta informações de raça, apenas a partir de 2014 tivemos 276 mil candidatos pretos ou pardos que se registraram para concorrer no pleito, o equivalente a 49,9% dos mais de 5,4 mil prefeitos eleitos.

Aproximadamente 1,7 mil candidatos se declararam pretos ou pardos, o que correspondeu a 32% do total. O número é superior a 2016, quando 29% dos candidatos eleitos eram negros segundo a classificação do IBGE.

Este ano, em Santa Catarinas, foram registradas alta de 67% nas candidaturas de negros nas eleições deste ano quando comparado ao pleito de 2018. Dados do TSE apontam que 154 negros se candidataram a cargos políticos.

Entre os negros, 94 se declararam pardos (9,83%) e 60, pretos (6,21%). Em 2018, o número era de 92 postulantes negros. Já o número de mulheres que disputarão o pleito no Estado, de acordo com o mesmo órgão, é de 300.

A faixa etária com o maior número de concorrentes é a de 50 a 54 anos, seguida por 45 a 49 anos e 40 a 44 anos

Média favorável

A mudança é resultado da reforma eleitoral aprovada pelo Congresso em 2021, que adotou novas regras para incentivar a eleição de mulheres e pessoas pretas para a Câmara dos Deputados.

Os votos dados a mulheres e negros contarão em dobro para a distribuição de recursos do Fundo Eleitoral entre os partidos políticos. A Lei Eleitoral define, por exemplo, que os partidos devem repassar para as candidaturas femininas o mínimo de 30% dos recursos das campanhas eleitorais.

A conclusão é de que as mulheres vêm conquistando espaço no ambiente político, o que naturalmente impulsionou o crescimento de candidaturas negras em Santa Catarina. Mas como candidatura não define resultados e só o voto pode definir uma reforma cultural e de estrutura política, eu,  mulher negra só posso encerrar com a frase da lendária filósofa norte-americana Angela Davis: “Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”.