‘As rodovias estão um caos’, avalia pré-candidato Décio Lima

Petista destacou que deseja manter a frente de esquerda unida, comentou sobre a polarização na disputa pela Presidência da República e sustentou a inocência do ex-presidente Lula

Redação ND Florianópolis

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O ex-deputado federal Décio Lima (PT) foi o entrevistado desta terça-feira (24) da série com os pré-candidatos ao governo do Estado de Santa Catarina realizada pelo Grupo ND no programa “Conexão News Voto+” que vai ao ar, às 22h30, pela Record News.

O petista destacou que deseja manter a frente de esquerda unida, comentou sobre a polarização na disputa pela Presidência da República e sustentou a inocência do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Décio se mostrou contrário às privatizações de empresas públicas do Estado e criticou as ações do governo atual de Santa Catarina.

Pré-candidato do PT é contrário às privatizações – Foto: Reprodução/NDTVPré-candidato do PT é contrário às privatizações – Foto: Reprodução/NDTV

Cite três motivos que o senhor deseja ser o governador de Santa Catarina.

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Primeiro pelo Brasil. Eu acho que o Brasil precisa de todos nós que estamos envolvidos com a causa e o debate da Constituição democrática nesses últimos 42 anos. E para Santa Catarina, efetivamente, se tornar a Suíça brasileira. Um Estado que anda com um potencial enorme no contexto da economia, mas infelizmente convive com a ausência visível de um Estado que não toca a vida do nosso povo e não constrói com aquilo que é importante para que nós possamos ser a grande Suíça do Brasil.

Qual a possibilidade de o senhor, no contexto da frente dos partidos de esquerda, declinar para o senador Dário Berger, como pretende o PSB?

Nós temos uma motivação muito clara: manter a unidade da frente democrática como um valor fundamental e praticarmos um exercício de inteligência, de quem teria condições de protagonizar aquilo que pertencemos, que é um conjunto de valores, de causa, de visão e de compromisso com a democracia, com o país e na defesa, sobretudo, de um estado social. Eu, nesse momento, pertenço ao maior partido desta frente, pertenço ao candidato a presidente da República que desponta liderando as pesquisas no Brasil e, portanto, há um sentimento natural de grande parte, ou quase todos os partidos da frente, que nós estejamos nessa condição de candidato ao governo da frente democrática. Mas ela é uma frente democrática, ela vai resolver democraticamente, senão ela deixa de ser democrática.

O senhor vê o senador Dário Berger como candidato na sua chapa a vice-governador, a senador da República ou a outro cargo?

O senador Dário Berger reúne uma biografia de resultados importantes na vida de Santa Catarina. A presença dele na chapa majoritária é um conforto inclusive num contexto de produzir uma relação com setores que são importantes na aglutinação, a fim de que nós possamos estar no segundo turno das eleições.

E aí tem outros nomes, por exemplo, Jorge Boeira, do PDT, Afrânio Boppré, do Psol, a Ângela Albino, do PCdoB. Quais serão os critérios e como é que o senhor espera que seja o dia seguinte dessa definição? A frente vai continuar unida ou o senhor teme rupturas?

Não, eu acho que nenhuma vaidade humana ou nenhum interesse interno dos partidos poderá fragmentar essa frente, porque todos ficaremos pequenos diante de uma possibilidade real. Há uma convicção clara de todos esses nomes que você mencionou e dos partidos, que hoje são oito, que há cerca de dois anos vem estabelecendo um processo de contestação. Além dos nomes que você citou tem o nome do ex-vice-prefeito de Joinville, o Rodrigo (Coelho), o nome de Fernando Coruja que é apresentado pelo PDT, que foi o nosso prefeito de Lages. O nome de Gelson Merisio, que é quem ganhou as eleições no primeiro turno em Santa Catarina nas eleições de 2018. Então é um exercício de inteligência que estamos fazendo entre nós, é legítimo que todos se coloquem neste momento, ninguém sai se lançando para vice ou para um espaço menor nessa composição, mas há um sentimento tranquilo entre nós de que vamos com inteligência fazer uma escolha daquele que tem uma condição real de unificar a frente e de poder levar essa frente para o segundo turno pela primeira vez na história de Santa Catarina.

Nós temos a polarização PT e PL para essa eleição. O ex-presidente Lula concedeu uma entrevista para uma emissora de rádio em Santa Catarina dizendo que a polarização contra Bolsonaro, em certa medida, é positiva. Realmente esse momento que o país vive entre essas duas frentes é saudável, é democrático? Quais os reflexos podem vir a SC?

Eu acho que essa polarização é de valores, não é apenas uma polarização entre Lula e Bolsonaro, é uma polarização clara entre o ódio e o amor, entre o autoritarismo e a democracia, entre um processo de esperança para o nosso povo, de poder fazer com que o Brasil volte a ser a sexta economia do planeta, ser um país de pleno emprego, é um país que precisa ser melhorado do ponto de vista da condição da grande maioria do povo brasileiro. Eu não vejo problema, porque todo clássico é bom. Eu não sou contra nenhum Fla-Flu, nem GreNal. É um clássico que ele tem que existir, ele tem que acontecer, mas ele tem que ter limites. O limite é o espaço da relação democrática, dos valores humanistas, de respeito. Porque quem pensa diferente de mim, que não defende hoje nesse momento a candidatura do Lula, é um ser humano que está ali daquele outro lado com a sua opinião. Eu já mudei muito as minhas opiniões ao longo da minha trajetória política e de vida. As pessoas são assim. Os seres humanos estão permanentemente em aprendizado. E eu acredito muito que nessa polarização o Brasil vai sair muito mais fortalecido, com muito mais amor, com muito mais ternura e com muito mais esperança. Eu acho que isso é que é importante.

A avaliação que se faz aqui em Santa Catarina é que o senhor tem realmente um currículo considerado inatacável, mas o seu candidato (Lula) tem problemas sérios que estão aí… as condenações em três instâncias diferentes…

Eu digo com muita clareza: o Lula é inocente.

Ele não foi inocentado.

O Lula é um injustiçado, não foi condenado. Qual é a sentença condenatória que o Lula tem?

Ele esteve na Justiça de Curitiba.

Nós temos um devido processo legal, o Lula é inocente.

Edição desta terça-feira (24) contou com Décio Lima (PT) – Foto: Reprodução/NDTVEdição desta terça-feira (24) contou com Décio Lima (PT) – Foto: Reprodução/NDTV

Não, ele não é inocente.

É a minha opinião. Você pode ter a sua. Vinte e cinco processos anulados. Eu gostaria inclusive de falar, não como petista, não como advogado, que li todos os processos do Lula. Queria falar para você como uma pessoa que conviveu na intimidade com o presidente Lula, porque criei a filha dele na minha casa. O ex-presidente Lula não pode ser alvo, absolutamente, de nenhuma dessas acusações que, no meu ponto de vista, são sórdidas. O Lula é inocente, o Lula é um injustiçado como foi Pepe Mujica (ex-presidente do Uruguai), como foi Nelson Mandela, como foi Mahatma Gandhi, como foi Luther King e que a história está mostrando isso e revelando para o Brasil.

O senhor tem viajado muito pelo interior de Santa Catarina. Quais são os principais problemas, as agruras que o povo transmite nessas conversas?

Temos um Estado que precisa ser refletido. Não só pela classe política, mas por todos nós. Nós temos um Estado que convive com um milhão de pessoas na agricultura familiar que não se tem um programa de fazer um processo de inclusão da pequena propriedade agrícola dentro de um salto de qualidade naquilo que produz. Eu me lembro muito do programa que eu realizei em Blumenau chamado Prove Blumenau, onde nós montamos agroindústrias familiares dentro da propriedade privada e permitimos que aquele produto, saído das mãos dos agricultores, pudesse ser industrializado e direto para os supermercados da cidade com a venda direta e agregando valor. Aquilo foi um sucesso. Por que Santa Catarina não tem para esse um milhão de catarinense um programa dirigido para a agricultura familiar? Nós, nesse momento que estamos dialogando, estamos vivendo, pasmem, com 712 mil mulheres na vulnerabilidade alimentar. Seiscentos e cinquenta e oito mil homens neste Estado, que é proclamado como uma das melhores economias do país, estamos ranqueados entre a sexta economia do país e vivemos com essas feridas sociais. Nós temos uma região do Contestado, do Planalto Norte, que tem um dos menores índices de desenvolvimento humano do Brasil, que se compara ao agreste do Nordeste.

E o que Décio Lima faria para mudar esse quadro?

Um estado social, um processo que bote o povo no orçamento, que realize programas efetivos, que toque a vida das pessoas, um programa que tem que começar com um modelo republicano de envolvimento permanente dos prefeitos, das entidades empresariais, dos trabalhadores. Nós temos hoje um processo organizativo que é fantástico. Somos divididos em 21 regiões, de associações de municípios que a Fecam (Federação Catarinense de Municípios) fez essa organização e em todas essas regiões têm vocações econômicas específicas, diferenciadas e debater, horizontalmente, onde é que nós vamos fazer os investimentos das políticas públicas e de investimentos do governo do Estado.

Dessas questões básicas de saúde, educação, infraestrutura, como que Santa Catarina pode avançar?

Eu acho que o Estado de Santa Catarina precisa de um planejamento, de construção de política de Estado, que não seja só pertencente a um modelo de governança na temporalidade da democracia. Eu quero, se a vida me permitir, estar nessa condição honrosa de ser governante do povo de Santa Catarina, planejar o Estado para que nós possamos identificar os problemas e resolvê-los com total transparência e clareza para o povo de Santa Catarina. Nós não podemos sair e ficar aí distribuindo dinheiro uma hora, nós não podemos ficar nessa vulnerabilidade. Um Estado como o nosso, que tem uma geopolítica extraordinária, uma faixa litorânea espetacular para desenvolver políticas de turismo, que é uma geração fantástica de empregos, um Estado que tem aqui uma agricultura familiar poderosa, é um Estado que não tem grandes aglutinações. Por exemplo, nós não temos latifúndio aqui, nós somos bem divididos. É um Estado que precisa ser organizado, planejado.

Pré-candidato Décio Lima observou que as rodovias estão em péssimo estado de conservação – Foto: Reprodução/NDTVPré-candidato Décio Lima observou que as rodovias estão em péssimo estado de conservação – Foto: Reprodução/NDTV

O senhor entende que as empresas públicas catarinenses podem ser privatizadas? Devem ser privatizadas?

Eu confesso que eu não tenho problema de fazer essa discussão. Mas eu entendo que o que foi privatizado no Brasil já foi um excesso, do ponto de vista de ferir a nossa soberania nacional. Eu vejo as empresas públicas de Santa Catarina com funções importantes para induzir o desenvolvimento do nosso Estado. Podem ter às vezes algumas distorções do ponto de vista da organização que precisam ser corrigidas, mas não ao ponto de fazer um processo de privatização porque eu acho que o Brasil já chegou nesse limite. Eu, sendo governador de Santa Catarina, não vou permitir que haja qualquer privatização com a intenção de fazer pilhagem do patrimônio público em detrimento de outros interesses. Eu acredito que a Celesc é importante, a Casan é importante e as entidades que estão aí são importantes para a gente poder ser parceiro da economia e do desenvolvimento do nosso Estado.

Onde é que o governador Moisés mais acertou?

Eu acho que o governo Moisés é uma negação da política. Eu acho que ele errou pelo fato de não ter construído uma posição clara do ponto de vista do pensamento da gestão do Estado.

E por que o PT apoia os projetos do Moisés na Assembleia?

Os projetos que são de interesses difusos nós não vamos absolutamente deixar de apoiá-los, seja do governo Moisés, seja do governo Bolsonaro, aqueles que são de interesse da população. Tanto que me questionam muito porque o PT não permitiu o impeachment do Moisés com o voto que nós demos na bancada. Você está lembrado que o voto do PT foi decisivo. Naquele momento nós não vimos os elementos que pudessem estabelecer o processo de impeachment. E veio o debate do acontecimento daquele dia 17 de abril de 2016 dos quais nós fomos vítimas do impeachment da Dilma. Não havia ali um preceito constitucional, um fato devidamente comprovado que pudesse afastar o governador, como também não houve com a presidente Dilma.

Eleito governador, como resolver o problema das rodovias: concessões, privatizações ou financiamento internacional?

As rodovias estão um caos. Eu andei pelo Extremo-Oeste de Santa Catarina, eu andei pelo Meio-Oeste e as rodovias estaduais, com alguma raridade, não oferecem condições que possam dar dignidade ao direito de ir e vir do povo catarinense. Essa é a grande verdade. Eu acho que nós temos que ter uma política clara de estudo. Precisamos depois pensar onde é que nós vamos buscar os recursos. Me lembro muito do que eu fiz em Blumenau, quase 300 quilômetros, asfaltamos a cidade toda, mas depois de montarmos um projeto fomos captar recursos no BNDES. Dinheiro tem, o que nós precisamos fazer é um projeto. Nós não podemos ficar mais naquela coisa de “deu buraco lá vai lá remendar”. Isso não é política de Estado, isso não é governo sério, não é governo que tenha compromisso com o povo de Santa Catarina. Eu vou fazer um planejamento no sentido de garantir uma política de infraestrutura, não só para rodovias, um processo que possa pensar Santa Catarina numa perspectiva inclusive de futuro.