O aniversário de 122 anos de Antonieta de Barros foi marcado por uma aula-magna realizada pelo seu sobrinho-neto Flávio Soares de Barros, a escritora Jeruse Romão e pela professora e pesquisadora Azânia Mahin, na última terça-feira, na Alesc (Assembleia Legislativa de Santa Catarina)
Da esquerda para a direita: Azânia Mahin, Jeruse Romão e Flávio Soares de Barros – Foto: Lídia Gabriella/Divulgação/ND“A gente vai tentar falar sobre uma mulher que exerceu um protagonismo bastante forte e relevante, em um momento em que o mundo não estava preparado para isso: uma mulher se colocar como protagonista e não como uma mera coadjuvante da vida política, cultural e social”, disse Flávio no início da aula.
No discurso, o sobrinho-neto relacionou os muitos legados que foi deixado com a filosofia política. “Eu acredito que, na minha percepção, Antonieta traz muitas reflexões sobre como a política deveria ser e não só como é”.
SeguirFlávio acredita que em muitos momentos, Antonieta se perguntava: “Para que eu ‘tô’ fazendo isso? Por que eu preciso enfrentar essas oposições? São tão ferrenhas, por que eu tenho que passar pelas mesmas situações repetidamente?” Por que preciso passar pelas situações pelas quais o povo preto?”. – “Situações nas quais ainda passamos”, acrescentou.
Além disso, ele explica que o filosofo grego, Platão, enxergava uma certa indiferenciação no papel dos homens e mulheres. Por exemplo, se pularmos rapidamente ao século 20, os papéis sociais eram extremamente marcados, o homem vai ao trabalho provê e decide, enquanto a mulher, fica em casa. Segundo Flávio, Antonieta não faz esse papel, pois ela vai ao campo e se estabelece como referência política.
Por esse motivo, a catarinense já reflete essa visão platônica de que não há diferença entre homens e mulheres em um momento em que o conhecimento geral era voltado para uma diferenciação.
“Quando se questiona: ‘ah, mas Antonieta era feminista?’, sim ela era. Se eu partir da visão de que feminista é a pessoa que luta pela igualdade do direito das mulheres, isso torna feminista”, exemplificou Flávio de como a ex-deputada era à frente do seu tempo.
Respondendo a pergunta que Flávio fez sobre as supostas indagações que apareciam na mente da ex-deputada, ele acredita que: “O que ela queria ao enfrentar todas essas oposições, enfrentar o estranhamento de estar em espaço no qual não era bem aceita ou bem-vinda em certos aspectos, talvez fosse isso que quisesse. Ela queria se sentir bem por estar fazendo a coisa certa”, finalizou.
Educação pública de qualidade e sem racismo
Azânia Mahin foi a próxima a falar. Começou seu discurso falando de educação. Antonieta de Barros foi uma grande educadora e enquanto sua luta reverberou na criação da Lei 10.639 de 2003, no qual se tornou obrigatório incluir no currículo oficial da Rede de Ensino o estudo de “História e Cultura Afro-Brasileira”.
“A gente tem uma luta contínua pela defesa da educação pública é basicamente isso, né? A gente sabe hoje que uma educação que está formando as crianças racistas, não é uma educação de qualidade. Uma educação que rouba de todos nós a nossa história, não é uma de qualidade. Então, quando falamos que precisamos aprender sobre Antonieta de Barros nas escolas, a gente está falando que precisamos ter uma educação de qualidade no Estado de Santa Catarina”, disse Azânia.
A pesquisadora aponta que quando leu sobre a ex-deputada ficou muito interessada, porque aos 18 anos de idade foi presidente do Grêmio Estudantil na escola que estudava e Azânia também.
“Fiquei pensando: ‘Esse é um caminho que a gente trilha quando percebe que é isso é a nossa vida e é com a gente, né? Não vai ter nenhuma outra possibilidade de salvação?”.
Azânia confessa que, no início, se sentia estranha com a ideia de “herói ou heroína da pátria”. Porém, ao mesmo tempo, quando a gente transforma narrativas humanas reais possíveis, esse lugar de heroísmo se altera em algo diferente.
“Todos aqui tem a capacidade heroica, ela está dentro de cada um de nós, né? Todos temos essa capacidade de sermos heroínas e heróis do povo brasileiro”, complementa.
A professora ainda falou sobre a importância de protagonizar vidas políticas. “Toda vez que eu falo essa frase – que falo com certa frequência – eu penso no quanto nós somos protagonistas das nossas próprias vidas políticas, e Antonieta foi protagonista”, continuou.
Azânia comentou sobre o quanto pensa em Antonieta de Barros quando anda em cada canto de Florianópolis. “Nossa, ela andou nessas ruas, tocou nesses corrimãos e entrou nesses lugares”.
Muito maior do que qualquer conceito
Jeruse Romão começou seu discurso apontando que Antonieta de Barros é muito maior do que um conceito. Mas após o final de sua vida foi embranquecida e elitizada.
“Mas um tipo de elitismo, para tirá-la de nós, eles não queriam projetar um lugar que ela merecia, mas queriam tirar sua identidade”. E o que movimentou a escritora a realizar sua jornada de escritos sobre Antonieta de Barros, foi para devolvê-la às suas origens.
Muitos costumam dizer que foi uma mulher da política porque uma família branca a colocou naquele lugar, segundo Romão. “Mas e ela sendo presidente do grêmio aos 18 anos era o quê?”, indagou.
Jeruse relembra que a mãe de Antonieta, Catarina, foi escravizada por um alemão e teve dois ventres cativos.
“Imagine, o que foi roubado dessas pessoas que não sabem que são parentes da heroína nacional. Eu estou aqui cartografando para chegar em São Paulo e bater na porta deles: ‘Oi, vocês sabem que vocês são Antonieta?”.
Jeruse afirma que a catarinense era uma potência, tinha conhecimento e usava para pautas necessárias na época e permanecem atuais.
“Ela nunca trouxe qualquer texto condenatório, voltado para qualquer segmento social, a não ser para os racistas, machistas, para aqueles que excluíam as pessoas com menor condição de renda ou para quem agredia ao acesso à educação”, lembra Jeruse.
O princípio de Antonieta era a educação como um direito de todos. “Antonieta diz isso várias vezes, e ainda mais, é dever do Estado garantir a educação para todos”, complementa Romão.
Quando sofria negativas, Jeruse conta que ela se “agigantava”, como quando foi atacada por um deputado e revidou com a clássica frase: “ser negra não me ofende, me ofenderia se você me pintasse de branca”.
Atualmente, para Jeruse, seus maiores legados ainda estão em andamento. “Voltou como heroína nacional para ajudar a nacionalizar a história da gente preta catarinense, e eu acredito que esse é o legado contemporâneo”.
“Ainda não somos vistos”
“Nós, a gente preta catarinense, assim como ela, com esse tamanho todo ainda não somos vistos. Por isso, ela voltou e disse: Ah, está ruim? Vou voltar’. Agora estou em uma tarefa linda, que é nacionalizar Antonieta de Barros, porque é nacionalizar o povo preto de Santa Catarina”, finalizou.
Nos últimos momentos da aula-magna, entrou em debate o porquê de Antonieta de Barros não se tornar a patrona da educação catarinense, pois ela tinha muitos projetos e lutava pela classe dos professores. No fim, surgiu o aviso de que os deputados Marcos José de Abreu (PSOL) e Luciane Carminatti (PT), irão dar entrada no projeto de lei.