Candidatos de Florianópolis explicam patrimônio acima dos R$ 300 mil e auxílio emergencial

Segundo o TCU (Tribunal de Contas da União), lista que inclui 17 candidatos a vereador na Capital possui mais de R$ 300 mil em bens e recebeu ao menos uma parcela do auxílio

Nícolas Horácio Florianópolis

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De acordo com o TCU (Tribunal de Contas da União), em todo Brasil, mais de 10 mil candidatos com patrimônio acima dos R$ 300 mil teriam recebido ao menos uma parcela do auxílio emergencial do governo federal. Em Florianópolis, capital do Estado, 17 candidatos estão neste relatório do TCU, todos disputam o cargo de vereador.

A maioria dos candidatos disse que houve erro na declaração de bens, enquanto outros alegam fraude. Tem candidato que confirmou o pedido e disse que estava no direito, a maioria porque ficou desempregada.

Em Florianópolis, 17 candidatos a vereador teriam patrimônio acima dos R$ 300 mil e receberam auxílio emergencial; maioria contesta o patrimônio – Foto: Anderson Lira/FramePhoto/Estadão ConteúdoEm Florianópolis, 17 candidatos a vereador teriam patrimônio acima dos R$ 300 mil e receberam auxílio emergencial; maioria contesta o patrimônio – Foto: Anderson Lira/FramePhoto/Estadão Conteúdo

O Republicanos é o partido com mais candidatos a vereador nessa lista do TCU, seis no total. Em seguida, o PDT, com três nomes.

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Podemos, PL, MDB, PSL, PSD, PRTB, PP e Patriota possuem um candidato cada com mais de R$ 300 mil em bens, que teriam recebido ao menos uma parcela do auxílio emergencial.

O ND+ fez contato com todos os citados entre sexta-feira (6) e terça-feira (10) por telefone e também pelas redes sociais dos candidatos para ouvir o que tinham a dizer sobre os dados do TCU.

Veja o que cada candidato declarou sobre o recebimento do auxílio emergencial:

Xande Fontes (Republicanos)

Alexandre Bastos Fontes, o Xande Fontes (Republicanos) aparece na lista, mas alega que houve um erro do jurídico. Ele tem declarados R$ 350 mil em bens: um apartamento (R$ 300 mil) e um veículo Ford Fox (R$ 50 mil).

“O advogado colocou o patrimônio que vem no modelo que o partido envia para todos os candidatos. Ele colocou valor padrão. Não tenho esses bens. Infelizmente, é um transtorno que não esperava passar nesse final de campanha”.

O candidato solicitou a mudança no seu registro de candidatura para não constar nenhum bem. Fontes confirmou que fez o pedido do auxílio, porque estava sem renda. De acordo com o TCU, ele retirou R$ 1.800.

Vivi Minorelli (Republicanos)

Ana Viviane Minorelli, a candidata Vivi Minorelli (Republicanos) declarou o total de R$ 415 mil em bens, relativos a uma casa (R$ 400 mil) e um Renault Clio (R$ 15 mil). Ela disse que a casa não pertence a ela, mas ao filho.

“Eu dava aula de inglês e de artes. Estava trabalhando no Bairro Educador, mas fiquei sem trabalho e o que me salvou foi o auxílio”, explicou.

De acordo com o TCU, ela solicitou R$ 3.600 em auxílio emergencial, pois cuida dos filhos sozinha e se enquadra no benefício destinado a chefes de família.

André Almeida (PL)

André Souza Almeida está na lista por conta do patrimônio declarado de R$ 300 mil, relativo a um terreno. Segundo André Almeida (PL), no entanto, um terreno foi deixado de herança para ele e dois irmãos e, portanto, somente R$ 100 mil pertencem a ele.

“Represento os profissionais de eventos e da cultura, abandonados pelas autoridades sem trabalho, sem protocolos, sem prazos de retorno e sem renda”, disse.

Segundo o TCU, André solicitou R$ 1.200. O candidato confirmou e disse que cumpre todos os requisitos exigidos do benefício.

Cezinha de Queiroz (Republicanos)

Cezar Gomes de Queiroz também aparece na lista. Ele teria um patrimônio de R$ 320 mil, relativos a uma casa (R$ 300 mil) e um veículo Fox (R$ 20 mil). O candidato disse que esse valor não está correto.

“Tenho uma casa de R$ 200 mil financiada e um Logan, que ainda não é meu, vai passar para o meu nome. Comprei de um amigo e estou pagando”.

Cezinha também informou que solicitou o auxílio, porque está desempregado, trabalhando como motorista por aplicativo, e é justo. O candidato informou que recebeu três parcelas de R$ 600 e pretende pegar as demais de R$ 300.

Gentil Souza (MDB)

Gentil José de Souza Filho, o candidato Gentil Souza (MDB) declarou R$ 437 mil em bens, relativos a um apartamento de R$ 320 mil e um Hyundai Creta (R$ 117 mil).

O candidato atendeu a reportagem, inicialmente, por rede social, mas não respondeu sobre o auxílio emergencial. Em ligação telefônica diretamente no celular de Gentil, um assessor, que não se identificou, disse que somente o candidato poderia tratar do assunto e pediu para retornar em 40 minutos.

O ND+ retornou mais de uma vez nos dias 9 e 10 novembro, e não foi atendido. Segundo o TCU, Gentil retirou R$ 1.800 em auxílio emergencial.

Janete Teixeira (PDT)

A candidata Janete Teixeira (PDT) tem uma casa avaliada em R$ 300 mil no Campeche. O nome dela aparece na lista do TCU, porém, Janete disse que ficou surpresa com a informação. De acordo com o TCU, ela teria retirado uma parcela de R$ 600.

“Não saquei em momento algum o auxílio emergencial. Tudo o que posso afirmar é que estarei fazendo um levantamento junto ao banco CEF para mais informações sobre esta situação, que me pegou de surpresa”.

Juliana Prado (Republicanos)

Juliana Lemos do Prado  é mais um nome. A candidata Juliana Prado (Republicanos) tem declarados R$ 305 mil, relativos a um apartamento de R$ 260 mil e um veículo Toyota de R$ 45 mil. Ela disse que as informações não batem e o patrimônio atribuído a ela pertence ao filho.

“Não tenho patrimônio desse valor. Eles me perguntaram [o coordenador de campanha] se morava em casa própria e quanto valeria meu automóvel, aí dei os valores. Houve falta de comunicação”.

Juliana confirmou que solicitou o auxílio, pois tinha direito e não havia declarado renda superior ao teto. Disse, ainda, que o auxílio foi suspenso com a candidatura. De acordo com o TCU, ela retirou R$ 1.200.

Marcão (Republicanos)

Marcos Roberto dos Santos, o Marcão (Republicanos) é mais um dos candidatos que está na lista dos beneficiados por auxílio emergencial. Ele tem declarado à Justiça Eleitoral um patrimônio de R$ 374 mil, mas disse que há um erro neste valor.

“Moro em uma comunidade no Norte da Ilha. Estranho eu ter um patrimônio de R$ 400 mil. Na verdade, a casa foi declarada em R$ 300 mil, mas não é minha, é da minha esposa. E a nossa casa está avaliada em R$ 150 mil”.

Marcão disse, ainda, que recebeu duas parcelas do auxílio, porém, estava desempregado e que seu patrimônio não condiz com o total declarado. De acordo com o TCU, ele recebeu R$ 1.800.

Alemão da Estofaria (PDT)

Mario Dzobanski, o Alemão da Estofaria (PDT) tem um patrimônio de R$ 666 mil declarados à Justiça Eleitoral: uma casa em Tijucas avaliada em R$ 600 mil, duas cabeças de gado, que acrescentam R$ 6 mil ao patrimônio, e um terreno de R$ 60 mil na praia da Solidão.

“Fiz a solicitação do pedido, mas não recebi nenhuma parcela. Foi negado. Se depositaram, deve estar no banco. Para mim, foi negado duas vezes”. De acordo com o TCU, ele teria recebido uma parcela de R$ 600.

Mirian Avila (Republicanos)

Outro nome na lista é o de Mirian Luciane de Avila. A candidata Mirian Avila (Republicanos) declarou um total de R$ 450 mil em bens, relativos a uma casa.

Mirian disse que tem somente isso, que ficou sem emprego e não poderia vender a casa. De acordo com o TCU, Mirian retirou R$ 2.400.

“Eu tinha auxílio desde maio, e quando virei candidata parei de receber. Eu recebia porque estava desempregada, fui demitida da rádio. Tinha uma filha grávida em casa morando comigo, ando de ônibus, portanto, precisei”, disse Mirian.

Noeli Beduschi (PRTB)

Noeli Beduschi, que tem declarado um patrimônio de R$ 374 mil, também aparece no relatório. Ela disse, no entanto, que declarou um imóvel do qual tem somente a metade, a outra pertence ao marido, que mora neste imóvel.

A candidata também disse que é autônoma e, na pandemia, ficou sem renda e, por isso, solicitou o auxílio. Ela disse, ainda, que se recorda de ter recebido cinco parcelas de 600. De acordo com o relatório do TCU, ela retirou R$ 2.400.

Pri Fernandes Adote (Podemos)

Priscila Fernandes Farias está na lista. Ela é a candidata Pri Fernandes Adote (Podemos) e declarou R$ 600 mil em bens, relativos a uma casa. A candidata nega o recebimento das parcelas e registrou boletim de ocorrência relatando o fato.

O marido de Priscila, Vinicius Ouriques, confirmou que o patrimônio é este e que não precisaram solicitar o auxílio emergencial. Após o contato da reportagem, o casal disse que identificou a ocorrência de uma fraude com o CPF da candidata.

“Usaram mesmo o CPF. Conseguimos acessar uma poupança digital em nome dela e o dinheiro está lá, desde julho. Fraudes assim ocorreram em diversos estados”. Segundo o TCU, Priscila solicitou R$ 1.200.

Ricardo Abreu (Patriota)

Ricardo Laurindo de Abreu tem um patrimônio declarado à Justiça Eleitoral de R$ 740 mil, relativos a uma Chácara em Biguaçu (R$ 375 mil) e uma casa (R$ 350 mil). Ricardo Abreu (Patriota) disse que os bens valorizaram. O candidato também declarou um Fiat Uno de R$ 15 mil.

“Sou autônomo, vendedor, e minha esposa é auxiliar de sala e ficou sem o recebimento do salário durante três meses. Como minhas vendas tiveram uma queda de aproximadamente 70%, devido ao fechamento da maioria dos comércios, o auxílio ajudou no pagamento de contas mensais”, justificou.

De acordo com o relatório do TCU, Ricardo retirou R$ 600.

Sueli (PSD)

Sueli Ramos Freitas, a Sueli (PSD), tem declarado um patrimônio de R$ 340 mil, relativos a casa onde mora (R$ 300 mil) e um carro de R$ 40 mil. Ela disse que o valor está errado e que, para fins eleitorais, o partido solicitou uma avaliação do imóvel e foi passado o valor de R$ 300 mil.

“O valor do meu imóvel é R$ 200 mil, esse informado na Caixa. Continuo achando que não vale R$ 300 mil, até porque moro em uma estrada de chão e final de rua. Por isso, acho que não vale e R$ 280 mil é valor de casa no Portal do Ribeirão”.

A candidata confirmou que solicitou o auxílio e recebeu o recurso. De acordo com o TCU, Sueli recebeu R$ 1.200.

Leno – Valdeleno (Progressistas)

O taxista Valdeleno Plácido Correia perdeu o emprego em novembro de 2019 e solicitou o auxílio emergencial. Leno – Valdeleno (Progressistas) –  confirmou o patrimônio declarado à Justiça Eleitoral, totalizando R$ 539 mil. Os bens correspondem a uma casa de R$ 500 mil e um carro de R$ 39 mil.

O candidato disse que retirou três parcelas de R$ 600. De acordo com o relatório do TCU, ele teria recebido somente uma destas parcelas.

Ney Fagundes (PSL)

Valdionei Fagundes, o Ney Fagundes (PSL) também aparece na lista. Ele tem um patrimônio de R$ 800 mil, relativos a um apartamento. Fagundes confirma o pedido do auxílio. Ele disse que, em 2020, além de acumular dívidas, vendeu um carro e saiu de uma sociedade.

“Eu usei o auxílio, porque estava no meu direito. Esse ano foi difícil para mim. Eu tinha um Lancer e vendi, fiquei desempregado e fiz dívidas. Vivi uma situação complicada, tratei um câncer e o dinheiro do carro foi nisso”, disse.

O candidato disse que o auxílio foi essencial para ajudá-lo e que passou um tempo morando com os pais. Segundo o TCU, ele retirou R$ 1.800.

Sensei Wilmis Moso (PDT)

Wilmis Germer Rolim de Moura também está na lista. Ele declarou uma casa valendo R$ 1.215.000,00, mas disse que cometeu um erro nessa avaliação. Professor de karatê, durante a pandemia, seu trabalho parou.

“Não tenho carteira assinada e, por isso, solicitei o auxílio. Estou sem dar aulas e perdi minha renda. Tudo parou. Minha falha foi ter declarado valor tão alto do meu terreno”, diz.

Wilmis disse que não recebe salário na empresa e que há 10 anos está trabalhando com karatê. De acordo com o relatório, ele recebeu uma parcela de R$ 600.

Como devolver o auxílio emergencial

O auxílio emergencial é uma política pública criada em função da pandemia de Covid-19. O benefício se destina a trabalhadores informais, microempreendedores individuais (MEIs), autônomos e desempregados.

Inicialmente, não havia um teto no patrimônio para quem solicitasse o benefício. Porém, a medida provisória 1.000, de setembro deste ano, instituiu o auxílio emergencial de R$ 300 e vedou a concessão a pessoas com patrimônio acima dos R$ 300 mil.

No site do Ministério da Cidadania, estão as instruções para todo cidadão que precisa devolver o auxílio emergencial nos casos de pedidos indevidos. A devolução começa no formato virtual, ou seja, pela internet, e termina no sistema bancário.

Para devolver o auxílio, basta informar os dados, emitir uma GRU (Guia de Recolhimento da União) e pagá-la. As GRUs são geradas conforme o valor de cada parcela do auxílio.

Após obter uma guia, é possível pagá-la nos diferentes canais de atendimento dos bancos, por exemplo, na internet, autoatendimento e agências.