‘Caso Choquei’ reacende discussões do PL das Fake News sobre regulamentação de redes sociais

Especialistas apontam responsabilidade dos meios de comunicação quanto à disseminação de informações; Jessica Canedo foi apontada pela página Choquei como affair de Whindersson Nunes

Daiane Nora Florianópolis

Receba as principais notícias no WhatsApp

O trágico caso de Jessica Canedo, 22, que foi vítima de discursos de ódio e faleceu após a página Choquei divulgar prints falsos de um suposto caso com o humorista Whindersson Nunes, reacendeu as discussões sobre novas regras para a regulamentação das redes sociais para evitar fake news.

Jéssica Canedo foi vítima de comentários de ódio após notícia da Choquei sobre suposta relação com Whindersson NunesJéssica Canedo foi vítima de comentários de ódio após notícia da página de fofoca ‘Choquei’ sobre suposta relação com Whindersson Nunes – Foto: Reprodução/ND

Discutida há três anos, o PL das Fake News (Projeto de Lei 2630/2020) visa preencher as brechas do Marco Civil da Internet (Lei nº 12.965/2014). Especialistas argumentam que a PL protegeria os usuários da disseminação de notícias falsas, de discurso de ódio e a publicação de massa por meio de robôs.

De acordo com Ramicés, especialista em Direito Digital, o principal ponto positivo da proposta é reforçar a responsabilidade dos provedores e dos usuários, criando mecanismos para que as pessoas sejam identificadas: “O provedor de conteúdo precisará verificar a identidade da pessoa física ou jurídica, para poder responsabilizá-la caso seja demonstrado qualquer tipo de crime envolvido ali”, diz Ramicés.

Faça como milhões de leitores informados: siga o ND Mais no Google. Seguir

Marcio Stival, também especialista na área, enfatiza a responsabilidade das redes sociais na propagação de fake news. “A partir do momento que a lei for implementada, as redes sociais que não cumprirem com as normas estabelecidas para prevenir a disseminação de notícias falsas serão penalizadas junto com os usuários responsáveis”, explica Stival.

Um progresso significativo na proposta da PL das Fake News é a distinção entre mensagens privadas e a disseminação em larga escala de conteúdos, afirma Ramicés: “Diferente de uma mensagem privada, que deve ser garantida o sigilo, a disseminação de conteúdo deve ser verificada. A garantia desse sigilo tem que existir porque é um direito fundamental à privacidade. Agora, se você quer fazer disseminação de grandes volumes de informação, aí você já é uma plataforma de conteúdo, e deve estar sujeito a todas as responsabilidades pertinentes”, esclarece.

Medidas cíveis e criminais

No caso específico da página Choquei, Stival observa que ações legais civis e criminais podem ser tomadas mesmo sem a aprovação da PL: “O responsável pela Choquei pode responder tanto na parte civil, quando a família da moça entrar com uma ação judicial contra a página, solicitando até indenização ou pedido de retratação, e pode ter uma resposta criminal, nesse caso, por conta da incitação ao suicídio. Mas aí, claro, tem que ser analisado exatamente os fatos que ocorreram”.

No entanto, Stival enfatiza a importância de ações preventivas e o avanço da PL das Fake News, que atualmente é uma prioridade no cenário político brasileiro e deve ser aprovada antes das eleições de 2024. “Uma única publicação pode ter consequências devastadoras para alguém. Não deveríamos precisar de um evento trágico para despertar a atenção das autoridades ou dos usuários da internet. É crucial cultivar uma consciência sobre a importância da ética no compartilhamento de informações online.”

Regulamentação x Censura

O maior obstáculo é a preocupação com uma possível censura. Stival esclarece que existe um debate intenso sobre o limite do controle do estado sobre o compartilhamento de conteúdo, independentemente de sua natureza. Por isso, a regulamentação está sendo desenvolvida com base na identificação e responsabilização, de tal forma que não comprometa a liberdade e privacidade dos usuários.

“A proposta deixa bem claro que as pessoas têm direito de se manifestarem, mas que elas serão responsabilizadas por isso. Essa sensação de impunidade que a internet às vezes traz tem que ser deixada de lado”, afirmou Ramicés.

Entenda o caso

Jéssica Canedo passou por uma confusão que a ligava a um suposto romance com Whindersson Nunes. Mensagens falsas entre Jéssica e o humorista foram espalhadas em páginas de fofoca nas redes sociais, sendo a Choquei uma das principais fontes desse boato.

Antes da tragédia, Whindersson ainda tentou esclarecer a situação comentando em uma das postagens, explicando que estavam usando a imagem dela de forma errada.

A confirmação triste da morte veio pela mãe de Jéssica, que compartilhou a notícia nas redes sociais;

Pronunciamento da Choquei:

“Todas as publicações foram feitas com base em dados disponíveis no momento e em estrito cumprimento das atividades habituais decorrentes do exercício do direito à informação”, diz a página em nota assinada por sua advogada.

“Queremos ressaltar que todas as publicações foram feitas com base em dados disponíveis no momento e em cumprimento as atividades habituais decorrentes do exercício do direito à informação.”

A nota de Whindersson na íntegra:

“A Nonstop Produções S.A., escritório responsável pelo gerenciamento de Whindersson Nunes, vem a público manifestar o posicionamento do artista sobre a dimensão catastrófica de uma história inventada a partir de uma fake news.”

Tópicos relacionados