O PSOL, partido de oposição ao prefeito de Florianópolis, Gean Loureiro (DEM), conquistou uma bancada com três vereadores. Na sequência da série de reportagens com os vereadores empossados para a 19ª legislatura da CMF (Câmara Municipal de Florianópolis), apresentamos a bancada psolista.
Conheça, a seguir, as prioridades, preferências no lazer e trajetórias políticas de Marquito, Afrânio Boppré e da Coletiva Bem Viver, que representam o PSOL na Câmara Municipal.
Marquito: Um mandato agroecológico e de justiça social
Marcos José de Abreu, o Marquito, vai iniciar o segundo mandato como vereador em Florianópolis. Ele foi o candidato a vereador mais votado da Capital na eleição de 2020, com 5.858 votos.
SeguirMarquito entrou no PSOL na virada de 2014 para 2015 motivado por quadros nacionais, entre eles, Ivan Valente, Chico Alencar, Luiza Erundina e Marcelo Freixo.
Na eleição de 2020, Marquito (PSOL) foi o recordista de votos entre os candidatos a vereador na Capital – Foto: Anderson Coelho/NDDiz que também admirava o PSOL local, naquele momento, liderado por Afrânio Boppré, hoje seu colega de bancada e cita Rafael Melo, ex-presidente do PSOL em Santa Catarina.
“Entendendo que era um lugar que eu me alinhava na perspectiva do que eu trabalhava, com ações ligadas a ecologia e justiça social, então tinha um entendimento de que caberia esse tipo de projeto”, lembra Marquito.
Segundo ele, a candidatura em 2020 foi motivada pela importância do mandato na Câmara. Marquito destaca que, mesmo fazendo uma oposição muito bem demarcada, a agenda foi propositiva e conseguiu aprovar projetos de lei importantes.
Ele cita a Política Municipal da Agroecologia e Produção Orgânica; a Lei da Compostagem; a Lei da Zona Livre de Agrotóxicos e a Lei em defesa das abelhas nativas sem ferrão e a Lei que defende os pescadores artesanais e maricultores, permitindo que restaurantes e afins adquiram o pescado e o marisco de produção familiar, diretamente do pescador.
Para Marquito, a vitória em 2020, com amplo apoio do eleitor da Capital, se explica no fato de que muitas pessoas confiaram em seu projeto, além de todas as pessoas que compõem o mandato, as organizações da sociedade civil e o que ele chama de tecido social.
Transparência e simplicidade também foram determinantes, segundo ele. Com seus 5.858 votos, Marquito fez 1.800 a mais do que o segundo colocado em 2020.
Veja a distribuição de votos que Marquito recebeu por bairro de Florianópolis:
“Esse mandato tem feito a diferença, virou referência no país, então, a motivação maior foi dar continuidade e mostrar que esse projeto político de ecologia e justiça social é bem importante para a cidade e acertamos”, ressalta.
Prioridades do mandato
No segundo mandato, Marquito pretende manter a ação ligada à ecologia e justiça social. Quer dar continuidade às leis aprovadas no primeiro mandato e fazer uma ação efetiva na questão da produção e proteção das águas. Segundo ele, é preciso pensar a água de forma sistêmica. O tratamento de esgoto sanitário também é uma questão importante.
“Queremos trabalhar a questão da região metropolitana, até com outros mandatos, para discutir temas maiores, como mobilidade, saneamento, resíduos sólidos e produção de alimentos. Pensar a região metropolitana mesmo, os cuidados com as baías Sul e Norte”, destaca.
Conectado à natureza
Pai de três crianças, Marquito se diz bastante envolvido nas questões da primeira infância. Morador do Sul da Ilha, ele gosta de cuidar do jardim, da horta, das plantas e das abelhas nativas.
“Acabo fazendo bastante essa atividade no quintal com as crianças, ou indo para a praia. A gente vai muito no Pântano do Sul, Açores, Morro das Pedras, temos essa dinâmica. Gosto de pedalar, fiz muitas viagens de bike na minha vida”.
O vereador mais votado de Florianópolis disse que também gosta de estar com amigos da forma mais simples: uma fogueira e uma roda, para ele, é mais agradável do que uma balada. Trilhas, atividades comunitárias e feiras nos bairros também atraem Marquito.
No entretenimento, o vereador indica os autores de suas leituras favoritas: Michel Löwy, Leonardo Boff, Ana Primavesi, Mário de Andrade.
Afrânio Boppré: enxadrista amador, vereador experiente
Nas horas vagas, Afrânio Tadeu Boppré (PSOL) gosta de jogar xadrez. Aos 60 anos, um dos mais experientes vereadores de Florianópolis iniciará o seu terceiro mandato. Boppré entrou no PSOL na fundação do partido, em 2005, quando era deputado estadual.
Nas horas vagas, Afrânio Boppré gosta de disputar uma boa partida de xadrez – Foto: Anderson Coelho/NDJunto de vários colegas, entre os quais Chico Alencar e Luciana Genro, Boppré rompeu com o PT, pois considerou errôneos os caminhos que o partido estava assumindo à época.
Crítico do governo Gean em Florianópolis e um dos principais nomes da articulação de oposição, Boppré está há quase 30 anos na vida pública. Em 1992, foi eleito vice-prefeito da Capital na chapa encabeçada por Sergio Grando, que governou a cidade de 1993 a 1996.
Segundo Boppré, o resultado nas urnas, para ele, mostra que o trabalho tem credibilidade na cidade e a sua atuação política é referência para várias ações. Ele destaca, também, o compromisso com políticas públicas na área da educação e a conduta ética e responsável na atividade parlamentar.
Para Boppré, o que passa na Câmara Municipal diz respeito à vida de milhares de pessoas, o que motivou a candidatura para vereador em 2020. Ele recebeu 2.961 votos nas eleições mais recentes.
Veja a distribuição de votos que Afrânio Boppré recebeu por bairro de Florianópolis:
“A Câmara Municipal concentra políticas públicas estratégicas e entendo que a minha experiência de vida, parlamentar e militante, deveria continuar ocupando aquele espaço. Assim a população também entendeu. Mesmo pessoas que não votaram em mim ficaram contentes de ver o mandato reeleito”, disse Boppré.
Prioridades do mandato
Neste terceiro mandato, Boppré diz que quer atuar em três frentes: a pandemia e as suas consequências do ponto de vista econômico e social; o tema da educação e o transporte coletivo – o político é um crítico ferrenho do aumento da passagem do transporte coletivo anunciado recentemente pela Prefeitura.
“Tudo indica que o Auxílio-Emergencial tende a acabar e o problema social vai crescer muito em Florianópolis. A informação que eu tenho é que temos 83 mil pessoas em Florianópolis vinculadas ao auxílio, então, é preciso política pública para isso” defende Boppré.
Jogador de xadrez
Além do xadrez, nas pausas do trabalho, Boppré conta que lê muito. No momento, vai das poesias de Maura de Sena Pereira às leituras acadêmicas de Economia e de Ciências Sociais.
Boppré se considera um enxadrista amador e afirma que joga todos os dias. “Hoje em dia é fácil jogar xadrez. Jogo no app do celular, Li Chess, milhões de pessoas no mundo inteiro conectadas. Mas tenho mesa de xadrez também no gabinete. No almoço, sempre aparece alguém para jogar uma partidinha relâmpago”, confessa.
Em 2021, além de jogar muito xadrez, Boppré promete uma atuação radical na fiscalização da prefeitura e da Câmara. Ele nomeia sua atuação de oposição inteligente e quer fazer o que chama de “marcação homem a homem, com relação ao poder Executivo”.
Cíntia Coletiva Bem Viver (PSOL): convergências de lutas
Cíntia Mendonça, Lívia Guilardi, Mayne Goes, Joziléia Daniza e Marina Caixeta. Essas cinco mulheres fazem parte do primeiro mandato coletivo da história de Florianópolis. A ideia é que trabalhem juntas, assumindo as tarefas normais do mandato.
Coletiva Bem viver, vereadoras do PSOL em Florianópolis – Foto: Sérgio Vignes/Divulgação/NDPara elas, a renovação virá da própria diversidade do grupo, que tem liderança cultural, economista, bióloga, liderança indígena e gestora pública.
Legalmente, a vereadora inscrita por CPF é Cíntia Mendonça, mas na prática as outras quatro também participarão, como assessoras de gabinete. O salário será dividido igualmente e as decisões serão tomadas de forma coletiva, explicam.
Elas escolheram o PSOL por acreditarem que o partido representa suas crenças de construção de caminhos, que levem a condições igualitárias e dignas a todos os povos, considerando a vida humana com mínimo impacto e destruição da natureza.
Sobre lançar uma candidatura coletiva, as mulheres explicam que foi o resultado do planejamento da organização construído dentro do partido. Elas consideram essencial a transformação na forma e no modo de representatividade institucional.
“Por isso a candidatura é coletiva, de mulheres feministas que representam convergência de lutas”, define Lívia.
Bandeiras do mandato coletivo
Para elas, a vitória nas urnas deve-se a atuação do partido e de todos os candidatos, “sem a qual não teríamos alcançado a vitória”.
As mulheres do Coletivo Bem Viver observam que a necessidade que a população sente de mudanças na institucionalidade, bem como de se sentir representada efetivamente, também foi determinante para a vitória. Na eleição de 2020, elas fizeram 1.660 votos.
Veja a distribuição dos votos recebidos pela Coletiva Bem Viver por bairro de Florianópolis:
“Nossas bandeiras são as da superação das opressões, da exploração e da destruição do planeta e como elas se expressam no território municipal, na educação, na cultura, nas relações com o meio ambiente, na saúde. Mas essencial é a validação de mecanismos de participação popular, pretendemos levar a voz do povo para dentro da Câmara”, pontua Lívia.
Gostos diversificados
Sobre as horas de folga, as cinco políticas mostram que os gostos são diversos: desde uma trilha até um banho de mar.
“Somos muitas e cada uma tem uma característica diferente. Lívia nas horas vagas, gosta de caminhar na mata, Marina de tocar seu violão, Cintia gosta de ir à praia…”, conta Lívia.
Lívia também recomenda uma leitura: “Metamorfose”, de Franz Kafka. Segundo ela, uma obra muito atual nos tempos de pandemia. Para ficar em frente a TV, a sugestão é “Bacurau”, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles.