CPI no Ponto Chic

Os partidos tinham “camisa” e torcida. O debate ficava acalorado, mas tinha lá o seu rigor civilizatório

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Alguém está interessado nesta CPI do Renan? Mais preocupada em defender os “filhos” do que encontrar as verdades? Serão investigadas as roubalheiras do “Covidão”? Melhor relembrar o único Senado que respeito na história: o Senadinho.

Ex-ministros da Saúde devem ser ouvidos na CPI da Covid – Foto: Geraldo Magela/Agência SenadoEx-ministros da Saúde devem ser ouvidos na CPI da Covid – Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

A ex-grande tribuna histórica desempenhou o essencial papel de “plenário” de parlamento popular, onde pipocavam discursos pró e contra os governos, com base nos partidos “velhos” dos anos 1950, o PSD e a UDN.

Sua sede se abrigava na confluência da Felipe Schmidt com Trajano, num Café popular com nome de elite: Ponto Chic. Ali, um ataque da oposição ao governo não passava em branco. Os partidos tinham “camisa” e torcida. O debate ficava acalorado, mas tinha lá o seu rigor civilizatório.

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A palavra quase nunca dava margem às chamadas “vias de fato”. Era no Senadinho que o governador Hercílio Luz (início dos anos 1920) presidia as reuniões informais do secretariado, solfejando a lendária e temida bengala. E mais de meio século depois, em 1979, um ruidoso protesto do povo e de estudantes assinalou o começo do fim da ditadura, no movimento conhecido como a “novembrada do calçadão”.

Se há uma CPI a respeitar, e uma pauta a investigar, é a que se debruça sobre os velhos pontos do passado: foi só o progresso que os fechou, como o “cafezinho” do Ponto Chic?Claro, o tempo é implacável, o que resta é só a memória. Às vezes nem esta sobrevive.

Como comprovariam alguns testes sobre “a cidade que era”. Por exemplo: onde ficava a fonte d’água da Carioca? O terminal de bondes a burro? O campo do Manejo? A ponte do Vinagre? A banca do Beck? O Restaurante Estrela? A barbearia do Formiga? O Hotel La Porta? A Ilha do Carvão? O único salão de sinuca da cidade? São endereços varridos para um escaninho da memória, onde jaz uma abandonada “cidade histórica”, um tanto quanto maltratada em nossos dias, com o centro divorciado do mar.

Floripa precisa revitalizar o seu centro, quase desértico nos fins-de-semana. Reviver a cidade “belle époque”, balizada entre o final do século 19 e os primeiros 50 anos do século 20. Na “Carioca”, bica d’água do Largo Fagundes, entre a Felipe Schmidt e a Tenente Silveira, os ilhéus enchiam seus baldes e ânforas para resolver um problema ainda atual: a falta d’água.

Os burros dos bondes da Companhia Ferrocarris faziam o seu cocô final no ponto do Miramar, próximo da estação elevatória do esgoto municipal – naquele hoje mediterrâneo Castelinho da Casan, forrado de azulejos amarelos.

São endereços de “ontem”, na praça XV, a banca do Beck – jornais do Rio trazidos pela TAC-Cruzeiro – a Padaria Brasília, o restaurante Estrela – do baiano Manoel Tourinho, imbatível em rabadas e dobradinhas. No sobrado desse casario, a Sinuca do Polli. Barba, “com ou sem velva”?

Fofoca inclusa, era na Barbearia do Formiga, térreo do Lux Hotel, ao lado do Senadinho. No Salão Record pontificava o fígaro Silvio Mello, zerando o quengo da gurizada. O Hotel La Porta era de 1931. Nele se albergavam as aeromoças da Varig e os “estrangeiros”, as tripulações dos Catalinas e os ingleses do Cabo Submarino.

E se hospedava um imaginário Rick Blaine (Humphrey Bogart) que, sem dispensar o chapéu e a capa gabardine, esperava Ilse-Ingrid Bergman na portaria. Fumando nervosamente, em baforadas, sobre a pequena Casablanca que circundava a Praça XV…Ao cair da tarde, as comadres armavam suas cadeiras nas calçadas para um duplo regalo: tomar a “fresca” e abastecer a usina caseira de notícias.