Dez inovações da modernidade para você refletir sobre a onda de bondade que está te arrastando pelos cabelos (ou pelo escalpo, se você não tiver cabelos) em direção a um lugar que você não sabe direito qual é, mas não precisa se preocupar.
Fake News – Foto: Divulgação/NDFake news é o que você diz e desagrada a mim; Sempre que eu quero calar a sua boca porque você está atrapalhando o meu discurso celestial eu grito que você está “desinformando” e atraio para cima de você a milícia sedenta do linchamento de boas maneiras; Quando você fala em eleição limpa, isso quer dizer golpe.
Quando você fala transparência, leia-se paranoia. Quando você fala auditagem, quer dizer terraplanismo; Na democracia moderna, o papel do juiz de uma disputa é minimizar a fraude, apagar as pegadas, dificultar a investigação e tentar afastar dessa disputa o participante que não lhe agrada.
SeguirOs novos códigos de empatia rezam que ao criminoso deve ser garantido o sagrado direito a uma segunda chance de voltar ao local do crime nos braços da Justiça para poder roubar tudo de novo; A forma mais eficaz de se combater um mal contagioso que afete toda a sociedade é prender você sozinho em casa para que eu possa viajar tranquilo para um lugar onde as pessoas não estejam presas e eu possa tomar o meu sol em paz; Acabou aquela novela arcaica de esperar por anos de estudos para imunizar alguém contra uma doença nova.
A modernidade permite que em poucos meses surja o soro redentor aprovado para inoculação geral numa boa, sem stress, que eu vi na televisão que é ótimo e sai de graça (o custo bilionário é do governo, ele que se vire). Se o soro está te protegendo mesmo e se vai te levar a um piripaque agora ou no futuro não é assunto meu. Minha prioridade é a propaganda e a picada. O fim da picada é problema seu.
Dito isso, venho por meio desta lhe informar que, doravante, daqui para frente, de hoje em diante – e tudo que puder significar futuro indeterminado – você está obrigado a se vacinar com essas substâncias experimentais que eu tenho a forte intuição que um dia serão aprovadas definitivamente e terão a sua eficácia e a sua segurança devidamente constatadas; Mas essa obrigação é democrática. Você está livre para não se vacinar com essas substâncias sensacionais se não fizer questão de trabalhar, de circular, de conviver e, em última análise, de se alimentar.
Ninguém vai te obrigar a nada se for a sua escolha passar a viver como um abajur; Só um detalhe que ia escapando: a lâmpada do abajur precisará ser retirada, porque vai que esse abajur começa a desinformar, espalhar fake news, expor festinhas na quarentena vip, apontar juiz tendencioso e perseguir ladrão honesto? Negativo. A segurança da coletividade em primeiro lugar.