Em 1935, uma mulher negra chegou à cadeira de Deputada Estadual em Santa Catarina. No entanto, até este ano, Antonieta de Barros foi a única a ocupar o posto legislativo. Em 2016, uma mulher negra ocupou pela primeira vez o posto de tenente-coronel da Polícia Militar de Santa Catarina, penúltimo degrau da hierarquia.
Foi apenas nas últimas eleições municipais, em 2020, que mulheres negras foram eleitas à Câmara de Vereadores em Brusque, Grande Florianópolis e Joinville. Nenhuma ao posto de líder do Executivo. Só em neste ano uma mulher negra chegou à reitoria da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).
Depois de 132 anos da abolição da escravatura no Brasil, os dados mencionados mostram que mulheres negras chegaram a lugares importantes, mas em conquistas ainda limitadas. Somente na segunda década deste milênio é que ocupamos – pela primeira vez- posições importantes na sociedade.
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Mural que homenageia Antonieta de Barros foi feito por Thiago Valdi, Tuane Ferreira e Monique Gugie. A obra fica entre as ruas Tenente Silveira e Deodoro, no Centro de Florianópolis – Foto: Foto: Flavio Tin/NDNesta segunda-feira (25) comemoramos o Dia da Mulher Negra, uma data que merece ser celebrada, mas que mostra que ainda há muitos espaços a serem conquistados e estabelecidos.
“Nós não tivemos retrocessos porque só agora é que conseguimos avançar”, afirma Conceição Pereira, representante do Setorial de Cultura Afro-brasileiras em Itajaí, no Litoral Norte de Santa Catarina.
Joana Passos, primeira vice-reitora negra da UFSC, luta não só pela entrada, mas pela permanência e conclusão dos cursos por parte dos alunos. Ela vai trabalhar para que os estudantes tenham condições de viver a universidade, em período que seja mais de aprendizado e menos de resistência.
“É impressionante! Só agora, em pleno século XXI, termos a primeira mulher negra na reitoria da UFSC e, por muito tempo, eu fui a única em muitos espaços. Isto fala muito sobre um país que se alimenta do racismo estrutural e institucional”, destaca Joana.
“Mas é importante ressaltar que eu cheguei ao posto de vice reitoria, mas não cheguei sozinha. Eu ocupo este lugar com a força de muitas outras mulheres negras e homens negros que realizaram esse desejo maior. Eu venho para este lugar por conta de uma grande movimentação feminista negra da UFSC. Meu posto é resultado da caminhada de muitas pessoas negras”, ressalta a vice-reitora.
Neste posto, a missão de Joana Passos só está começando. Apesar de ter consolidado um grande passo na história da luta racial em Santa Catarina, a missão agora é fazer da universidade um lugar de vivência de um novo mundo.
“Há anos a gente luta para que quem ingresse na universidade conclua o curso. A universidade é cultura, é arte, é educação, a universidade é um mundo! Uma das metas de nossa gestão é reforçar uma política de permanência para que os alunos tenham condições de se dedicar ao curso e, para isso, é preciso melhorias na moradia e alimentação estudantil, além das bolsas de estudo que estão defasadas há 12 anos”, reforça Joana.
Uma mensagem para a Joana caloura!
Joana Passos, primeira vice-reitora negra da UFSC, deixa mensagem do que diria à jovem Joana, ainda caloura – Vídeo: Grazielle Guimarães/ND
A mudança de rota para ocupar grandes galerias
Em 2014 Daisy Américo formou-se em direito, mas precisou passar por uma cirurgia e ficar um longo período em casa para se recuperar. Este período marcou uma importante mudança de rota na vida da, agora, artista plástica.
Foi neste período que ela passou a se interessar por pintura e se desenvolver como artista. “Me apaixonei, estudei e fiz faculdade de artes visuais e, desde então, eu comecei a me dedicar exclusivamente à arte”, ressalta Daisy.
Agora ela ocupa importantes espaços artísticos na Grande Florianópolis, onde vive. Ela já teve obras expostas na Casa Cor, importante espaço de arte e cultura, e também no exterior. O foco agora é ocupar grandes espaços culturais.
Daisy Américo é artista plástica e fala sobre o desafio e desejo de ocupar grandes galerias de arte no mundo – Foto: Daisy Américo/Arquivo Pessoal/ND“Tornar a arte algo acessível, ocupar inúmeros outros espaços… É um desafio e é algo que estou focando. Ocupar estes espaços culturais mais próximos ao público, mas também tenho objetivos maiores como conquistar mais visibilidade não só aqui na Grande Florianópolis, mas em outros Estados e em grandes galerias e museus nacionais e internacionais também. Eu sonho em ocupar estes espaços”, destaca a artista.
O caminho, no entanto, não é linear. Daisy reforça a importância de uma preparação emocional e psicológica.
“É importante esse preparo psicológico para entender, por exemplo, que o que você recebe não é um não para você ou para tua arte, e sim que você deve buscar outras alternativas, assim como compreender que portas fechadas são temporárias e podem nos conduzir a ocupar outros espaços”, destaca Daisy.
Daisy Américo fala sobre a importância de ocupar espaços culturais em Santa Catarina – Vídeo: Luiza Gardini/ND
Um único caminho para avançar
Conceição Pereira é uma grande atuante na luta antirracista e feminista em Santa Catarina. Para ela, analisando a forma morosa como a história preta é destacada no Estado, só há um caminho para avançarmos e não retrocedermos: a união do povo negro.
“Estamos em um período eleitoral e nem mesmo os negros se unem em prol de um nome para promover a campanha! Nós, negros, precisamos nos unir, escolher o nome e tornar a eleição de um representante negro no Estado, de um representante negro no país. A campanha das pessoas pretas são minadas já na base”, destaca Conceição.
Conceição Pereira fala sobre os desafios do povo negro na política catarinense – Vídeo: Grazielle Guimarães/ND
Grande amiga de Joana Passos, Conceição comemora o posto de vice-reitoria. “Para mim, ver a Joana assumir a cadeira de vice-reitoria da UFSC foi uma alegria gigantesca, parecia que eu ia explodir de tanto orgulho!”
Essas conquistas relevantes, no entanto, são pequenas diante da capacidade que as mulheres negras possuem. “Me deixa triste ver que esse avanço ainda é pequeno diante da nossa capacidade. Temos mulheres capazes, inteligentes e competentes de ocupar a cadeira de reitoria, de Deputada Federal, de Presidente! Mas isso só será possível se nos unirmos”, reforça.
Mulheres negras à luta!!!
Com 68 anos, D. Conceição, como é carinhosamente chamada pela comunidade de Itajaí, deixa um recado que ela daria às mulheres negras jovens e a si própria na juventude.
“Estudar, estudar e estudar! Ser melhor sempre para ocupar o 1°, o 2° e o 3° lugar e lutar sempre! Nossa luta não tem como acabar. Por isso que precisamos ter foco para sermos sempre os melhores. Eu lutei ao longo da minha vida inteira e luto até hoje! Luta para mim é uma palavra chave”.