No mundo de “1984”, o clássico de George Orwell, o Estado cria uma linguagem dúbia e postiça, capaz de adaptar e preparar a realidade para a inauguração de uma ditadura. É o “doublethink”.
No Brasil de hoje, o “duplodizer” aparece em todas as esquinas e em todos os plenários – seja no ambiente onde se administra a Justiça ou no frágil funcionamento de um Legislativo fragmentado e pusilânime.
Fake news é a versão incômoda daquela verdade -autêntica ou falsa – que um grupo político deseja banir ou ocultar – Foto: Divulgação/NDVejamos algumas variações do “duplodizer” aplicado a antigas máximas da velha e da nova (e estranha) democracia: “Do poder, para o poder e pelo poder”: é a deformação da venerada frase de Abraham Lincoln – “do povo, para o povo e pelo povo” – conceito de uma democracia genuína, convalidada pela vontade popular.
SeguirHoje temos um poder não-eleito usurpando as funções dos demais poderes em nome da prevalência de um sobre o outro, desmanchando o equilíbrio e a harmonia desejados por Montesquieu.
Fake news: versão incômoda daquela verdade -autêntica ou falsa – que um grupo político deseja banir ou ocultar. Forma de privatizar a mentira, desde que seja a seu favor.
Projeto de lei para a vigília da democracia plena: roteiro camuflado de como combater as liberdades públicas e individuais, introduzir a censura prévia e instaurar um regime liberticida, também conhecido como ditadura. Prisão domiciliar: impunidade explícita para os muito ricos.
Alguém já teve notícia de uma “prisão domiciliar” concedida a preso pobre, negro e favelado, liberado da cadeia para cumprir sua “domiciliar” no morro? Ajuste: sempre que se lê ou ouve a palavra “ajuste”, cuidado! “Ajuste” não tem nada a ver com justiça. Na verdade, é a sua antítese. “Ajuste” geralmente é aumento de preço ou diminuição de salário.
Transparente: na vida pública brasileira, nada é transparente, tudo é opaco. De transparentes, mesmo, só os escândalos e os parentes. Os “sobrinhos” que os políticos empregam, praticando o nepotismo explícito ou cruzado. Esforço concentrado: sinônimo de ócio parlamentar, em decorrência do qual se faz necessário o tal esforço, sempre muito bem remunerado.
Na verdade, é uma concentração de deputados que detesta o esforço de aparecer no trabalho. É legal: “Pode não ser moral, mas é legal”… Ou seja: trata-se, apenas, de uma maneira “soft” de admitir que alguém “botou a mão no baleiro” ou legislou em causa própria, na maior cara de pau.
Narrativa: é a mentira mal maquiada, inventada por interesse político ou ideológico, com o fim de impor uma “verdade” mentirosa, hoje conhecida pelo nome infame de “pós-verdade”.
Pela “narrativa” o réu vira inocente e o condenado se torna vítima ou santo. Quanto mais narrativas tenha um país é desenvolvido ou atrasado. Pior para o Brasil, que tem se especializado em “narrativas”, as quais bem poderiam ser o apelido perfeito para “fake news”.