Guerra entre Ucrânia e Rússia completa dois meses com massacre de civis e milhões de refugiados

Mais de 5 milhões de pessoas já deixaram a Ucrânia desde o início do conflito; dados da ONU apontam que mais de 2 mil civis morreram

Redação ND* Florianópolis

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A invasão russa da Ucrânia completa dois meses neste domingo (24) com milhares de mortos, milhões de refugiados e os pedidos da comunidade internacional para que Vladimir Putin anuncie o fim da ofensiva.

Trabalhadores carregam corpos para identificação forense no cemitério de Buch, ao Norte de Kiev, em 6 de abril de 2022 – Foto: RONALDO SCHEMIDT/AFPTrabalhadores carregam corpos para identificação forense no cemitério de Buch, ao Norte de Kiev, em 6 de abril de 2022 – Foto: RONALDO SCHEMIDT/AFP

Sem uma luz no horizonte, o Ocidente busca financeiramente e diplomaticamente maneiras de fazer com que a Rússia saia do território ucraniano.

Mais de 5 milhões de pessoas já deixaram a Ucrânia desde o início da guerra, o que representa mais de 10% da população do país, segundo o último censo. Desse contingente, pelo menos 215 mil são estrangeiros que também fugiram do país.

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Uma arrecadação mundial para ajudar os refugiados ucranianos conseguiu o total de R$ 50 bilhões, segundo a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.

Segundo dados da ONU (Organização das Nações Unidas), 2.072 civis, 169 crianças entre eles, morreram nos dois meses de guerra. As Nações Unidas afirmam que os números reais podem ser maiores, já que áreas duramente bombardeadas, como Mariupol, são de difícil acesso para o registro de mortos e feridos.

Massacre de Bucha

O episódio mais marcante da guerra na Ucrânia neste mês foi o massacre de Bucha. Após a retirada de tropas russas da cidade, que fica próxima a Kiev, foram encontradas centenas de corpos de civis espalhados, muitos deles com as mãos amarradas. A Rússia nega o ataque à população do município.

Os inúmeros corpos encontrados em Bucha fizeram com que o presidente da Ucrânia, Volodmir Zelenski, acusasse Putin de genocídio. O discurso foi seguido por Joe Biden, que anteriormente havia chamado o mandatário russo de criminoso de guerra.

Visita de líderes mundiais, sanções e Chernobyl

Este segundo mês de guerra também contou com a visita de líderes mundiais, como o primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, a Kiev. Uma comitiva com representantes dos países bálticos também visitou a capital da Ucrânia para mostrar apoio ao presidente Zelenski.

As sanções do Ocidente contra a Rússia continuaram neste segundo mês da invasão, atingindo até as filhas de Putin, Katerina e Maria Vladimirovna Tikhonova. Canadá, Estados Unidos, Reino Unido e União Europeia promoveram as medidas econômicas que deixaram o governo russo perplexo.

Outro marco da guerra, a usina nuclear de Chernobyl foi recuperada pelos ucranianos após as forças militares da Rússia deixarem o local. A planta nuclear desativada foi tomada por Moscou na primeira semana de guerra, sob forte protesto da comunidade internacional pelos riscos radioativos no local.

Enquanto Chernobyl foi recuperada, a Rússia anunciou que a cidade portuária de Mariupol, no sudeste da Ucrânia, foi dominada pelas forças russas. A tomada do município, duramente atacado desde o início da invasão, foi comemorada por Putin, que definiu a operação como um “sucesso” .

“Uma vida assustadora”

Desde 24 de fevereiro, Elena Ivanovna foge da guerra. Há quase dois meses, com a mãe e três filhos, se protege das bombas no metrô de Kharkiv, no Leste da Ucrânia.

Uma vida “assustadora, difícil, mas continuamos com esperança”, diz, rezando pelo fim da guerra e para que os soldados russos deixem o país.

Na noite da invasão, sua família dormia tranquilamente no vilarejo ucraniano de Lyptsi, a apenas 10 km da fronteira com a Rússia.

“Acordamos às 4h30 da manhã (…), até as crianças acordaram. Perceberam que era uma guerra”, relata à AFP. O violento rolo compressor russo seguia em direção a Kharkiv, a segunda maior cidade da Ucrânia, 20 km mais ao sul. “Não foi como um trovão. A casa inteira tremia”, conta.

Elena, seu marido e seus filhos, de 8, 10 e 17 anos, rapidamente se vestiram, juntaram algumas roupas, documentos e correm para o porão da casa para se proteger.

“Quando tudo ficou em silêncio, corremos para o carro e a 170 km/h seguimos para Kharkiv”, diz.

“Durante a viagem, meu marido disse ‘olhe ao redor, os mísseis’ porque eles estavam caindo de todos os lugares, com um barulho estridente de bombardeio” lembra essa professora de 40 anos.

Em Kharkiv, eles se encontram com a mãe de Elena. Mas, a cidade, que tem 1,5 milhão de habitantes, também estava sob as bombas. Os russos tentavam tomá-la, mas a resistência do exército ucraniano os repelia.

Mais uma vez, a família se refugiou em um porão, onde permaneceu por seis dias. “Pensamos que aqui (em Kharkiv) estaríamos a salvos, mas aqui se tornou a linha de frente, com bombardeios de helicópteros e aviões. Então decidimos vir para o metrô”, como centenas de habitantes.

Famílias esperam por ônibus disponibilizado pela Unidade estatal de resgate para evacuação, em Lyman, no Leste da Ucrânia – Foto: Yasuyoshi CHIBA/AFPFamílias esperam por ônibus disponibilizado pela Unidade estatal de resgate para evacuação, em Lyman, no Leste da Ucrânia – Foto: Yasuyoshi CHIBA/AFP

700 pessoas em estações de metrô

Dois meses depois, cerca de 700 pessoas ainda vivem em várias estações de metrô de Kharkiv.

Embora a cidade não seja bombardeada massivamente, é atacada por granadas e foguetes, aleatoriamente, espaçados, a qualquer hora do dia e da noite.

No metrô, “na primeira semana dormíamos uns sobre os outros, não havia ajuda humanitária, ninguém entendia o que estava acontecendo”, explica Yulia, uma das inúmeras voluntárias mobilizadas para ajudar os deslocados.

Na manhã do dia 15 de abril, véspera da Páscoa ortodoxa, os voluntários organizaram uma distribuição de “paska”, um pequeno brioche tradicional.

Na plataforma da estação, cada família, cada refugiado, recriou um símile de intimidade apesar da ausência de separação física. Sobre um colchão, uma filha de Elena ganhou um grande castelo de princesa e montou cada uma das peças, muito concentrada.

“Temos ajuda humanitária. Os voluntários nos trazem comida três vezes ao dia, incluindo pratos quentes, doces para as crianças, brinquedos, lápis”, explica a mãe da menina.

Durante um mês, as crianças puderam até estudar, já que os voluntários ministram cursos presenciais ou online, com vídeos. Também são organizadas atividades para todas as idades: teatro, música, marionetes, exercícios físicos.

Para os mais novos “há pintura, jogos, para que as crianças se sintam melhor mental e fisicamente”, diz Elena. Mas ninguém sai psicologicamente ileso. “Agora, quando ouvem (as bombas) acordam, tremem e pedem remédio”, acrescenta.

Para ela, “a vitória virá quando todos os soldados russos partirem (da Ucrânia), quando não ouvirmos mais os mísseis, quando não houver mais foguetes”

*Com informações de Emmanuel Peuchot, da AFP e  Lucas Ferreira, do R7