Dentro da série de entrevistas com lideranças políticas catarinenses para o ND Notícias, o jornalista Paulo Alceu recebeu o senador Jorginho Mello (PL). Os erros do governo do Estado no combate à pandemia da Covid-19, os efeitos na economia catarinense e as medidas que o governador afastado Carlos Moisés (PSL) deixou de adotar ao longo desse um ano de crise sanitária, foram temas da conversa. O senador defendeu que o “fecha tudo não resolve nada”.
Mello diz que o processo de impeachment “é um remédio amargo, que muitas vezes tem que adotar”. Para o senador, a “Onda Bolsonaro” que fez Carlos Moisés, governador do Estado, não deve se repetir em Santa Catarina no próximo ano. “Pode ocorrer para o presidente da República, para ele vai, mas dali para baixo vai ter que se virar, vai ter que serviço prestado”.
Senador Jorginho Mello (PL) criticou as ações do governo Carlos Moisés (PSL) – Foto: Leo Munhoz/NDO que o senhor não faria que o governo de Santa Catarina fez?
Todos os governos precisam ter, acima de tudo, transparência, informação, planejamento, nós paramos em momentos que não havia necessidade de parar todo o estado. Na época tinha 295 municípios, 280 não tinham nenhum caso no início da pandemia, foi parado tudo. Hoje nós temos 291 municípios e cada um tem uma morte.
SeguirEntão faltou planejamento, faltou entender, conhecer o nosso estado, região por região. Faltou planejamento e descuidaram com o dinheiro público. Quando você faz uma compra de R$ 33 milhões e manda pagar para uma casa de massagem no Rio de Janeiro. Eu não perdoo isso. É inadmissível e tem que ter responsável. Por isso que a Justiça de Santa Catarina teve cinco votos dos desembargadores – no Tribunal Especial de Julgamento que afastou o governador Carlos Moisés (PSL) – e foram votos impecáveis.
Por isso eu fico com a Justiça de Santa Catarina, precisa ter alguém responsável por esse pagamento, não existe cachorro sem dono. Tem que ter um responsável e o responsável foi o governador, que não atuou e não gerenciou.
O senhor acredita que o impeachment seria uma solução e a vice-governadora Daniela Reinehr (sem partido) assumir o governo definitivamente?
Todo impeachment é traumático e é mais uma posição política do que jurídica. Isso prejudica a autoridade que está sendo impichada e prejudica, no caso, o Estado de Santa Catarina. Não tenho dúvida que esse entre e sai prejudicou a economia catarinense, a forma política que sempre foi harmônica.
Agora a vice-governadora assumiu, se ele tiver habilidade política ela poderá ficar, terminar o mandato, depende do Tribunal de Justiça e da Assembleia, daquele número de deputados e desembargadores. Tem seis votos dados precisa de mais um voto para cassar, definitivamente, o governador.
Depende do entendimento dos senhores deputados, porque os desembargadores, pelo que eu vi, tem posição formada. Precisa de mais um voto para afastar. Eu não desejo isso para ninguém, eu só preciso saber onde estão os recursos de Santa Catarina. Isso tem que ser explicado para justiça, para sociedade.
Senador, o senhor é daqueles que torce para que tudo dê errado, para o senhor ficar bem? O senhor está de olho no governo de Estado, Moisés já não deu certo, de repente Daniela Reinehr não dá certo também, isso é bom para o senhor?
Eu tenho torcido para todos os governantes. Eu sou representante de Santa Catarina. Eu não quero que dê errado nem com Moisés, nem com Daniela, nem com ninguém, Santa Catarina perde com isso.
Quem faz política na véspera faz mal feito. Eu nunca fiz isso. Eu sou um político, faço por paixão, sei jogar, sei trabalhar, sei fazer política de resultado. Eu não tenho estimação por A ou B, eu quero quem o povo escolheu cumpra seu mandato.
Santa Catarina é tão boa que para se dar mal tem que ser muito ruim. O Estado anda sozinho, o governo só não pode atrapalhar
O que ele fez que atrapalhou?
Faltou gestão, faltou pulso firme. Como é que alguém paga R$ 33 milhões sem o governador saber? Que casa da Mãe Joana é essa então? É isso que precisa ser responsabilizado. Eu sempre ajudei o governo que se instalou. Sempre que foi a Brasília, sempre ajudamos Santa Catarina com emendas. Vou ajudar a vice-governadora agora, que está na função de governador. É um dever meu como senador.
Senador como blindar nossa economia para evitar que tenha problemas com a pandemia, embora o Estado esteja numa situação privilegiada? Essa situação é por causa da ajuda federal ou porque o Estado sabe gerir sozinho?
Prioridade é a pandemia e a vacinação. Se você vacinar você libera as pessoas para trabalhar. Segundo é a economia, tem que andar junto. O estado de Santa Catarina recebeu do governo federal R$ 22 bilhões. É dinheiro considerável. Nosso estado se encontra em uma situação financeira boa. Pelo que nós produzimos, pela economia diversificada que tem Santa Catarina. É um estado que se der crise em um setor o outro socorre. Nunca vai dar uma crise generalizada.
Precisamos agora salvar o turismo, serviços, bares, restaurantes, shows, uma série de atividades que estão passando por uma dificuldade jamais vista. Nesse momento é que o governo precisa ser forte. Ter condições de alcançar dinheiro, financiamento a longo prazo, sem juros, a exemplo que foi feito o Pronampe – um programa do governo federal que de apoio às microempresas e empresas de pequeno porte.
O senhor acha que está faltando isso em SC?
Muita conversa e o dinheiro não está chegando na ponta.
Falta de colaboração da Assembleia Legislativa?
A Alesc não sei como tem se portado. Mas pelo que tenho visto, tem aprovado tudo que o governador (Carlos Moisés) manda para lá. Efetivamente nós temos que fazer com que o dinheiro chegue na mão de quem tem um restaurante, que tem um botequim. Tem que ser reeditada a PEC de Guerra – permite a separação do orçamento e dos gastos realizados para o combate à pandemia de Covid-19 do orçamento geral da União – para poder, se for caso, extrapolar o teto sem punição.
Fazer aquela linha de crédito de novo, o governo bancar até 75% do salário, isso é necessário, não tem saída. É o auxílio para os mais carentes, que é de R$ 250, precisa melhorar isso. E oferecer a quem tem atividade recursos para ficar vivo.
Senador defendeu que fechar todas as atividades não é solução para combater à pandemia – Foto: Leo Munhoz/NDO senhor acha que está correto medidas restritivas menos severas?
O fecha tudo não resolve nada. O que precisa ter é um planejamento, no que pode mais no que pode menos. Você pode ir mesclando as regiões e deixando a economia funcionar, não descuidando da saúde pública. Precisamos cuidar da saúde e cuidar da saúde é vacina.
Parar esse negócio de fazer média, de vou comprar vacina, que o consórcio vai comprar vacina, que a prefeitura vai comprar vacina. Quem compra a vacina é o governo federal. Se você compra vacina você tem que disponibilizar para o Ministério da Saúde.
Como o senador avalia a condução do processo de vacinação em SC? O senhor mudaria alguma coisa?
Estive falando com a secretária de Saúde, Carmem Zanotto. Aqui tinha muito aquele ponto da segunda dose, mas como vai aumentar o volume de doses dos contratos, acredito que precisava ser usada a segunda dose para outras pessoas, porque temos a segurança das doses que vão chegar. Isso não foi feito, o que ela me disse é que vai alterar. Isso aumenta o número de pessoas imunizadas. Tem que acelerar esse processo.
O Estado errou dados para informar o governo federal, depois reclamou que não veio vacina suficiente, o estado não alimentou os dados de forma correta. Foi uma série de equívocos e tomara que a deputada Zanotto tenha condições de fazer isso andar e ela tem condições e conhecimento ela tem.
Para Jorginho Mello, o Estado falhou por não ser transparente e não fazer um planejamento para enfrentar a pandemia – Foto: Leo Munhoz/NDO Estado falhou muito?
O Estado falhou. Não ser transparente, não fazer um planejamento para enfrentar a pandemia. Até agora não deu dinheiro para os pequenos. Tem que dar, não adianta só conversar, tem que fazer, efetivamente, chegar na ponta.
Santa Catarina suporta mais esse processo de entra e sai até 2022?
Tem que ser definitivo agora. Esse julgamento agora vai ser definitivo. Se for mantido fica a governadora até o fim, senão volta o governador até o fim. Só se criarem outros impeachment. É um remédio amargo, que muitas vezes tem que adotar. Infelizmente isso nos leva a uma reflexão: pensar, raciocinar, ter clareza na hora de votar.
O catarinense não soube escolher o governo?
O povo sempre saber escolher. Mas teve a Onda 17, que foi uma avalanche. O governador Moisés ninguém conhecia ele. Aconteceu e virou governador com 71% no segundo turno. Por quê? Pelos olhos lindos dele? Não, por causa da “Onda Bolsonaro” que teve no país e que, dificilmente, vai ocorrer de novo. Pode ocorrer para o presidente da República, para ele vai, mas dali para baixo vai ter que se virar, vai ter que ter serviço prestado, vai ter que ter reconhecimento, se não, não vai ter mais essa avalanche.