Antes mesmo da chegada do brasileiro Kesley Vial, de 23 anos, o centro de detenção Torrance no Novo México, onde ele estava detido desde 29 de abril, já havia sido considerado um local insalubre, não seguro e humano.
A análise é de um relatório da Agência de Inspeção Geral (Office of Inspector General), que pertence ao Departamento de Segurança Nacional (Department of Homeland Security) dos Estados Unidos.
Local onde jovem de SC estava detido nos EUA foi considerado não seguro – Foto: Reprodução/NDAs péssimas condições foram apontadas após uma visita surpresa do órgão ao centro de detenção em fevereiro. No documento o órgão classifica o local como “criticamente insuficiente, o que impede que a instalação atenda aos requisitos contratuais que assegurem aos detidos residirem em um ambiente seguro, protegido e humano”.
SeguirPor isso, o órgão recomendou a transferência imediata de todos os detidos da instalação, a menos e até que a instalação garanta equipe adequada e condições de vida adequadas.
Kesley morreu sob custódia do Serviço de Imigração e Controle Alfandegário dos Estados Unidos (ICE, em inglês), na última quarta-feira (24). As causas da morte do jovem, que morava com a avó em Camboriú no Litoral Norte de Santa Catarina, ainda não foram divulgadas.
Kesley estava detido após tentar entrar ilegalmente no país, na última semana ele foi encontrado desacordado na prisão, no estado do Novo México. As informações são do Portal R7.
No último dia 17 de agosto, Kesley foi encontrado desacordado por um agente que trabalha no centro de detenção. Em seguida, foi transferido para o Hospital da Universidade do Novo México, onde morreu.
Ainda de acordo com a ICE, após a morte de Kesley ser confirmada, a instituição realizou todos os procedimentos legais de comunicação aos órgãos competentes, incluindo o consulado brasileiro em Houston, no estado do Texas.
A causa da morte de Kesley não foi divulgada pela ICE, que afirma que uma autópsia será feita para determinar o motivo do óbito do rapaz. Por meio de nota, a instituição reforçou o compromisso com a saúde das pessoas detidas, que são responsabilidade da agência.
Péssimas condições sanitárias e falta de monitoramento
A inspeção do centro de detenção Torrance foi feita sem aviso prévio entre os dias 1 e 3 de fevereiro deste ano e o laudo com as análises do local foi encaminhado à agência de imigração dos EUA em 16 de março, com o objetivo de identificar se o local estava de acordo com a legislação do país.
Entre as irregularidades apontadas pela instituição está o número de agentes, que deveriam ser 245, mas apenas 133 funcionários atuavam na detenção, sendo obrigados a mais de seis turnos extras para cobrir a falta de pessoal.
Local onde brasileiro estava detido nos EUA apresentava diversos problemas sanitários – Foto: Reprodução/NDA falta de agentes também geravam problemas em relação à supervisão dos detentos já que, além da falta de funcionários, as salas de controle ficam separadas e em uma área de baixa visão dos detidos gerando vários pontos cegos na escadas, atrás de paredes próximas as áreas de banho e no local onde ficavam os telefones.
Um dos detidos inclusive relatou ao departamento que sentia que não conseguia chamar a atenção dos agentes caso houvesse uma emergência, esse foi um dos motivos que fizeram o relatório recomendar a transferência imediata dos detidos.
Detentos relataram que sentiam que não conseguiriam chamar a atenção de agentes caso ocorresse uma emergência – Foto: Reprodução/NDAs condições sanitárias também estavam entre as irregularidades apontadas pelo relatório. Das 157 celas em oito prédios visitados onde haviam detidos, 83 delas tinham problemas de encanamento, incluindo privadas e pias que estavam inoperáveis, entupidas ou continuamente jorrando água. Além de torneiras sem água quente.
O mofo e vazamentos também preocuparam a equipe de vistoria por haver perigo para os detidos e funcionários, que poderiam escorregar ou cair, além de riscos à saúde respiratória por causa do mofo.
Queria rever a mãe
Kesley viajou com o objetivo de reencontrar a mãe, Rose Vial, que mora em Danbury em Connecticut há 19 anos, mesmo período ao qual não via o filho. “Passei 19 anos longe dele, sempre na esperança de lhe dar uma vida digna, e meu maior sonho era lutar para um dia ele estar aqui comigo”, lamentou Rose nas redes sociais.
Agora a mãe do jovem criou uma página de financiamento coletivo para tentar levar o corpo do filho do Novo México para Danbury, em Connecticut, onde mora há mais de 19 anos. A meta da “vaquinha” está estipulada em US$ 28 mil (mais de R$ 141 mil), dos quais US$ 10 mil (cerca de R$ 50 mil) já foram arrecadados.
Amigos do jovem relataram que Kesley, que antes de partir para os Estados Unidos, trabalhava em uma loja de conveniência em Santa Catarina. E que era um jovem educado e batalhador.
A decisão de tentar ir para os Estados Unidos, contaram ainda, foi motivada pelo desejo de encontrar a mãe, que vive há mais de 15 anos naquele país. E que durante todo esse período, eles nunca se viram. “Era o grande sonho dos dois”, contou um dos amigos.
Levantamento divulgado pelo CBP (Departamento de Controle de Fronteiras), cerca de 5 mil brasileiros são detidos todos os meses tentando entrar irregularmente nos Estados Unidos.