Leilão entre as letrinhas

Depois de um mês de “traição autorizada”, mais de 70 parlamentares mudaram de casa e redesenharam o peso das bancadas

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Semi presidencialismo fraco ou ditadura do supremo? O país vive entre essas duas aberrações, às quais se acrescenta mais uma: um sistema destinado a fragmentação legislativa, 32 agremiações com “representação” no Congresso. Circunstância que faz com que o Brasil seja hoje o “único” entre as 195 nações do planeta que não sabe quantas bancadas formam a sua Câmara.

Sopa de letrinhas – Foto: PixabaySopa de letrinhas – Foto: Pixabay

Depois de um mês de “traição autorizada”, mais de 70 parlamentares mudaram de casa e redesenharam o peso das bancadas, obrigando a Mesa da Câmara a uma “chamada”diária para “tirar as medidas de cada partido”.

Com o novo e bilionário Fundo Partidário, as bancadas se formam no correr de “leilões” – qual partido tem mais dinheiro para seduzir o parlamentar dos outros?

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Que país do mundo possui um Parlamento que muda todos os dias – como a meteorologia e a Bolsa de Valores– o tamanho de suas bancadas representativas? Não se salvará nenhum país com esses partidos criados para o ilícito e o “faz-de-conta”.

Um partido político sem base ideológica e programática– e não há, no mundo, mais do que meia dúzia de correntes do pensamento político universal – não chega a ser um partido: é uma “organização constituída para o mal”, criada com a segunda intenção de levar vantagens. Na raiz dessa doença estão os 32 partidos políticos, mal acostumados com campanhas milionárias e benesses ampliadas por lei.

Com a recente “capitalização” do fundo partidário, aumentado de R$ 2,5 bilhões para R$ 4,7 bilhões, configurou-se a inacreditável apropriação do dinheiro do contribuinte para o imoral financiamento dos partidos.

Partidos que estão na raiz da própria corrupção.No tempo em que os bichos falavam e os fios do bigode honravam contratos, os partidos políticos não passavam de meia dúzia. Hoje, já são mais de três dezenas, algo inédito no mundo – e estão por toda aparte, invadindo sua tevê sem serem convidados.

Antigamente, os que “realmente importavam”eram dois, no máximo três. Era-se um ou outro. Ser “de todos”, era ser desonrado. Com o passar do tempo e do vento, chegamos à atual geléia geral.

Não satisfeitos em transformar suas legendas em “Casa da Mãe Joana”, os partidos resolveram inovar. Antes, mudavam-se os “filiados”. Agora, muda-se o nome do partido, funda-se outro e estimula-se a migração entre todos.

As aletrias espalham-se por um imenso alguidar de sopas, um caldo escuro onde bóiam bizarrias como o Partido dos Peixinhos, o Partido dos Sem-Alguma-Coisa – e mais um sem-número de letrinhas desse enlouquecido alfabeto partidário,que impõe à Mesa da Câmara Federal a “chamada”diária, para registrar as “novas bancadas do dia”.

Esses “acampamentos” perderam o senso do que seja tradição – um atributo necessário até mesmo para a prosperidade de uma casa comercial.

O que dizer de um partido que pretende representar alguma corrente do pensamento sócio-político da humanidade e se chama “Partido dos que Acreditam no Brasil”? Sem uma séria reforma nas leis que regem este facilitário para a epidemia de partidos, o Brasil continuará uma terra de ninguém.