A crise agrária na Ucrânia, aliada à forte política migratória adotada pelo Brasil, trouxe milhares de imigrantes ucranianos a Santa Catarina há cerca de 130 anos. Após longa viagem em navios muitas vezes superlotados, eles chegavam às terras catarinenses em busca de nova vida.
Soldados ucranianos se preparam para defender o país após ataque nesta quinta-feira (24) – Foto: Anatolii Stepanov/ AFP/Divulgação/NDGrande parte dos imigrantes era formada por agricultores e, por isso, muitos se instalaram em comunidades rurais, principalmente no Planalto Norte do Estado, onde se firmaram em cidades como Itaiópolis, Mafra, Papanduva e Canoinhas.
Quatro gerações depois, os descendentes mantêm vivas as tradições do país. Porém, nos últimos dias, têm vivido com a preocupação a respeito da tensão entre Rússia e Ucrânia, que culminou na invasão do território ucraniano pelo governo de Vladimir Putin nesta quinta-feira (24).
SeguirA RCUB (Representação Central Ucraniano Brasileira) acompanha de perto as movimentações no Leste Europeu: a entidade tem contato direto com as embaixadas ucranianas e representantes de outras comunidades do país no mundo e recebeu com surpresa a notícia do ataque russo.
“A gente sempre acredita na solução diplomática. Não acreditávamos que isso fosse ocorrer, apesar da invasão da Rússia vir ocorrendo desde 2014, com a Crimeia”, conta Lecia Maria Labas, presidente da Associação Ucraniana Catarinense Ivan Frankó e vice-presidente da RCUB pelo Estado.
Cidade de Kharkiv, na Ucrânia, mostra os primeiros sinais de guerra – Foto: Michael A. Horowitz/@michaelh992/Divulgação/NDSanta Catarina tem mais de 30 comunidades ucranianas, o segundo Estado com a maior representação, atrás apenas do Paraná. Em todo o Brasil, são cerca de 600 mil descendentes ucranianos que, agora, assistem com preocupação ao conflito.
“A nossa ligação é muito forte porque é a cultura que nos identifica. Somos ucranianos, mantemos viva a cultura, temos essa ligação que nossos bisavós e tataravós trouxeram há 130 anos. Isso nos impacta muito, mexe com as nossas raízes, com a nossa cultura”, fala Lecia.
Comunidade de ucranianos em Mafra pede fim do conflito no Leste Europeu – Foto: InternetCom a notícia dos primeiros bombardeios e mortes após a investida do governo russo, a aflição se une à tristeza nas comunidades. “É um país belíssimo e ver as cidades sendo destruídas gera uma aflição”, ressalta. A preocupação, aliás, não é só com a Ucrânia.
“O avanço da guerra não vai atingir só a Ucrânia, mas desestabilizar toda a Europa, gerar crises de democracia, impactar em relações comerciais. Uma guerra não deve ser jamais a melhor solução. A comunidade ucraniana repudia a agressão russa com as forças militares e confia numa solução diplomática”, destaca Lecia.
Orações pela paz na Ucrânia
Muito ligados à fé, os descendentes ucranianos se estabeleceram em torno de igrejas no Planalto Norte de Santa Catarina. E em Itaiópolis, a Paróquia Sagrada Família – Iracema acompanha com atenção o conflito na Europa, longe da pequena cidade de pouco mais de 20 mil habitantes.
“Nosso arcebispo maior da Ucrânia orientou que as famílias rezem pela paz, assim como nas missas celebradas em cada comunidade ucraniana”, conta o padre Emerson Sérgio Stack. A colônia, como são chamadas as comunidades ucranianas, tem cerca de 300 famílias.
Comunidade em Itaiópolis tem cerca de 300 famílias – Foto: Internet“É preocupante e ao mesmo tempo muito triste porque somos descendentes, nossos bisavós vieram da Ucrânia e nos deixaram a cultura e a tradição. E a gente também teme pela guerra no mundo, a situação é catastrófica”, comenta o padre.
Após a invasão, o presidente russo, Vladimir Putin, prometeu retaliar quem interferir na operação na Ucrânia. De acordo com informações das autoridades da Ucrânia, 40 soldados teriam morrido, além de outras 18 pessoas que estavam em uma localidade no sul do país.
A Representação Central Ucraniano Brasileira divulgou comunicado sobre a situação. Veja:
“Povo brasileiro, a comunidade ucraniana brasileira, composta por aproximadamente 600.000 descendentes de ucranianos, vem condenar a cruel agressão russa a Ucrânia e chamar todo o povo brasileiro a dar o apoio à soberania e integridade territorial da Ucrânia e a ajuda humanitária.
A agressão russa à Nação ucraniana não é uma agressão somente ao povo ucraniano, ela atinge os fundamentos da Carta das Nações Unidas que é a busca da paz e da não agressão, da convivência pacífica dos povos e a solução pacífica dos conflitos. A agressão militar russa a Ucrânia atinge toda a humanidade. A agressão é militar, politica e cultural.
Forças militares atacam a Ucrânia em seu todo o seu território, politicamente busca negar a existência do próprio estado nação ucraniano e culturalmente é a negação de nossa língua, religiosidade, tradições e modo de ser. A agressão russa é a agressão ao sistema democrático da Ucrânia.
Chamamos desde já a todos a realizarem manifestações contra a agressão militar russa a Ucrânia. Chamamos a toda a nossa comunidade ucraniana brasileira a reunir-se nas igrejas no domingo dia 27 e na quarta feira, dia 2 de março. Chamamos todo o povo brasileira à solidariedade e apoio ao povo ucraniano”.