À frente do governo de Santa Catarina há 200 dias, Jorginho Mello (PL) diz que recebeu um Estado em condição financeira ruim e com problemas, principalmente nas áreas de Saúde e Educação, com hospitais e escolas atendendo mal ou caindo aos pedaços.
Governador Jorginho Mello durante entrevista aos jornalistas do Grupo ND – Foto: Leo Munhoz/NDNesta entrevista, ele aprofunda o que conseguiu realizar nos primeiros meses de governo nas principais áreas. Além disso, detalha a estratégia do governo para retirar o embargo japonês para importações de carne, após um caso de gripe aviária.
Conforme Jorginho, o Japão é o segundo maior comprador de Santa Catarina e o embargo preocupa. As prioridades do governador para o segundo semestre também estão nesta entrevista concedida aos jornalistas do Grupo ND.
SeguirQual sua expectativa de redução do tempo de embargo de importações do Japão?
Vou tratar esse assunto com o embaixador e tenho certeza que ele vai ajudar, mas essa é a missão do ministro Carlos Fávaro, porque não tem tanta carne disponível no mundo. Esse bloqueio é normal, é um protocolo internacional, mas que não precisa levar de forma rígida, porque a ave contaminada está longe do aviário comercial. Se diz que é preciso suspender por 28 dias, mas é algo muito isolado. Maracajá é muito longe da produção efetiva, então não temos uma data específica [para revogar], mas vai depender da conversa com o embaixador e da missão do governo federal no Japão, tendo como primeiro item da pauta o embargo. Na segunda-feira (24) vamos saber o que ficou alinhavado. O governo federal vai fazer esse apelo para destravar.
A curto prazo, tem previsão de resolver a questão dos atendimentos emergenciais e carências dos hospitais?
Vamos começar antes do início de agosto uma recepção nova no Celso Ramos, na Carmela Dutra, no Infantil e no Regional. Um local decente para receber as pessoas. Cadeira para sentar, ar-condicionado que está quebrado, água para tomar, uma fruta para as crianças, ou seja, humanizar, respeitar as pessoas que demandam saúde. Encontramos a saúde dos hospitais públicos podre, um negócio deplorável. Vamos tirar o rabecão de dentro do Hospital Infantil, algo que assusta crianças e mães. Os médicos residentes estão ajudando a atender os pacientes verdes (atendimentos mais simples). Eles não faziam isso antes e era algo que gerava fila. Agora acabou. A saúde é um grande desafio, mas zeramos a fila oncológica. Câncer não espera. O mais novo esperava há oito meses. Cateterismo de criança zeramos também. Agora estamos na ortopedia.
Jorginho Mello e o repórter Paulo Mueller – Foto: Leo Munhoz/NDEm fevereiro o senhor prometeu, em seis meses, zerar a fila das cirurgias eletivas. Havia pouco mais de 100 mil pacientes na fila e, hoje, pouco mais de 62 mil. O prazo está esgotando. Por que não zerou?
Não zerou porque a saúde pública de Santa Catarina estava podre e não sabíamos que estava tão podre assim. O surto de dengue agravou. Ainda teve a Covid-19, bronquiolite. Essa avalanche nos dificultou. Isso não é justificativa, porque a intenção era zerar e zeramos o câncer e o cateterismo infantil. A fila nunca vai terminar, a gente quer zerar a espera velha. Queremos que ninguém espere mais de 90 dias, seja a doença que for. Estamos olhando agora para fazer telemedicina, mas custa caro. A saúde pública de Santa Catarina estava doente e, graças a Deus, já deu uma recuperada boa. Vamos continuar atuando, fazendo as reformas nos hospitais. O desleixo de muito tempo agravou.
A ideia de um complexo hospitalar na Grande Florianópolis continua?
Estamos reavaliando pra fazer um hospital fora da Ilha, porque dentro não dá para concentrar tudo num lugar só. Estamos reavaliando junto ao BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) para o financiamento, uma participação público-privada. Estamos vendo com responsabilidade para realmente fazer obras que atendam especificamente a todas às demandas regionais. Estamos refazendo o projeto.
Em relação à infraestrutura, em especial das estradas, o que será feito?
Vamos gastar R$ 1,3 bilhão na revitalização das SCs. Já fizemos o levantamento de todas as estradas, as que estão mais deploráveis e as que estão piores. Estradas inauguradas em novembro de 2022 já têm buraco. Vamos revitalizar. O relatório da Fiesc (Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina) será base, isto é, o trabalho que eles fazem de olhar as estradas mais estragadas por causa da demanda do transporte de cargas. Esperamos que o recurso seja suficiente. Vamos trocar asfalto, botar um material que aumenta a durabilidade e reduz o preço. Vamos pintar, sinalizar e trocar o pavimento, não fazer remendo. Vamos lançar o programa de revitalização depois que eu terminar a visita a todos os prefeitos, no final deste mês.
Cleverson Siewert, Nathan Northon Neumann, Jorginho Mello e João Debiasi – Foto: Leo Munhoz/NDO Pafisc (Plano de Ajuste Fiscal) gerou uma expectativa grande de economia de R$ 2,1 bilhões até o fim do ano, mas percebemos um crescimento na folha de pagamento. De que forma o governo vê isso, considerando que é uma das maiores despesas?
O Pafisc é um plano coordenado pela Fazenda e está tendo resultado. A nota de Santa Catarina subiu. Antes era B+, agora é BB-, ou seja, aumentou a nossa credibilidade no mercado. Isso é devido ao Pafisc: cortar, organizar, desburocratizar. Já deu resultado. Mais resultados vão aparecer até o final do ano, porque R$ 2,1 bilhões nós vamos deixar de gastar, para cobrir o rombo de R$ 2,8 bilhões que recebemos do governo. A folha de pagamentos é um tormento. Conseguimos agora antecipar o 13º, isso aquece o mercado, mas a folha é uma preocupação nossa. Dentre os ajustes, não vamos nomear nem fazer novos concursos, exceto para necessidades pontuais.
Santa Catarina tem 900 mil pessoas passando fome. Existe algum projeto na assistência social que ataque a extrema pobreza no Estado?
Nosso Estado tem o menor número de bolsa família, cerca de 220 mil e o maior número de carteiras assinadas, 2,7 milhões. Mas também temos pessoas desprotegidas. A nossa secretária de Assistência Social se afastou, estamos esperando ela se recuperar, e a adjunta está trabalhando e está fazendo um plano para idosos e crianças. Sobre nutrição, estamos indo atrás para descobrir onde tem esses bolsões, de pessoas que precisam de uma mão mais firme do governo. Estou vendo um programa com o Ceasa, de São José, que está em péssimas condições e vamos revitalizar. Queremos aproveitar as verduras que não venderam e vamos resfriar e embalar para distribuir e entregar, ajudando na alimentação. Mais adiante, queremos fazer restaurante cobrando R$ 1, R$ 2.
Como vê a reforma tributária?
Sempre fui a favor, mas também tenho que defender o que o Estado precisa. Sempre fui menos Brasília e mais Brasil. Nós mandamos 100 e recebemos 10. Tem Estado que manda 100 e recebe 260. Isso é uma sacanagem com Santa Catarina. Pagamos o preço por fazer o dever de casa. Tem quatro pontos da reforma que não concordamos. O conselho que vai ter, por exemplo, o imposto vai para Brasília. De novo? Por que não faz igual ao Simples Nacional que, na mesma guia, já vai o dinheiro para o município, para o Estado e para a União? Sobe o Fundo de Desenvolvimento Regional: nós também temos pobres. Por que só para o Nordeste? Precisamos ter esse fundo. Outro ponto é o aumento do tributo na área de serviço. Não concordamos.
O governador de Santa Catarina, Jorginho Mello – Foto: Leo Munhoz/NDComo está a relação do governo do Estado com o governo federal?
Muito respeitosa. Tratei com o ministro Fávaro sobre a gripe aviária, que nos preocupa muito. Nosso mercado para o Japão é da mais alta importância. Fui tratar com o ministro Haddad sobre os R$ 465 milhões que o governo anterior aplicou em estradas federais e que estão fazendo falta hoje. Precisamos reaver esse dinheiro. Tenho tratado com todos os ministros de forma respeitosa. Santa Catarina tem sua autonomia, a sua economia, um Estado valente, gigante, mas a relação com o governo federal é republicana.
No segundo semestre, as prioridades continuam na Saúde e Infraestrutura?
Saúde, Infraestrutura, novos planos de recuperação das estradas. Falar sobre ferrovia, energia, concretizar. Potencializar, levando energia trifásica para todos os cantos de Santa Catarina, para que o empresário possa expandir, possa produzir. O Badesc (Agência de Fomento do Estado de Santa Catarina) emprestando dinheiro para que as pequenas e microempresas possam empregar mais gente. Cada empréstimo dado tem que ter uma carteira de trabalho aumentada. Enfim, vamos fazer com que Santa Catarina volte a ocupar o estágio que merece e que tem condições, porque é um Estado diferente de todos do Brasil. É o último que entra numa crise e o primeiro que sai.