O desencanto da Águia

Será que o Brasil não conta mais com as figuras impolutas que davam “peso” e “mérito” a senadores e deputados, governadores e presidentes?

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Baiano ilustre, orgulho da raça, “Águia de Haia”, Ruy Barbosa hoje anda desencantado em seu panteão celestial. Olha o Brasil com muita preocupação com os rumos que a política vem tomando e o pobre cardápio de suas opções.

Será que o Brasil não conta mais com as figuras impolutas que davam “peso” e “mérito” a senadores e deputados, governadores e presidentes? Ruy, lá das alturas, procura um nome para sufragar e não acha, não encontra resposta para o atual enigma.

Bandeira do Brasil – Foto: PixabayBandeira do Brasil – Foto: Pixabay

Um refrão ufanista costumava homenagear a qualidade da massa encefálica do brilhante baiano, reclamando igual brilho para todos os nascidos na “Boa Terra”:- Pau que nasce torto, não tem jeito, morre torto; baiano burro garanto que nasce morto…”

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Mas o velho Ruy revelou todo seu desencanto com as manchetes correntes:- Ministros do Supremo afirmam em Portugal que o Brasil é governado por um novo poder moderador: o próprio STF. Parece que os 35 partidos políticos não se bastam, nem tampouco representam os mais de 100 milhões de eleitores. O que se vê é a sempre lamentável ciranda de candidatos em busca de novos partidos e novos partidos em busca de dinheiro dos milionários fundos eleitorais. O ilustre baiano ficou chocado.

Tive paciência para lhe explicar o caso do apodrecimento da política nacional, o clima de barganha e a perda dos valores éticos e morais. O sábio da Bahia tonteou ao assistir o representante de um partido ocupar um ministério “de porteira fechada”, ou seja, com todos os seus empregos, penduricalhos e verbas para apaniguados:- Estamos assumindo o ministério para dar apoio ao governo. Mas isso não quer dizer que vamos concordar com tudo…

Os partidos, aliás, só apoiam os governos para assumir cargos. Chantagem pura. Mas votam contra para mostrar “independência” e extrair mais uma verbinha, mais umas boquinhas estatais e, claro, mais uns “pixulecos”, o neologismo que poderia ser bem traduzido pela universal “propina”…

O autor de “Oração aos Moços” pediu um copo d’água, enxugou um inesperado suor que lhe brotou da fronte – logo ele, um baiano magrinho, acostumado ao calor – e lançou um olhar súplice em minha direção:- Meu filho, certamente estás brincando com este velho. Não me diga que o Brasil de hoje confirma aquele meu amargo discurso:- “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, o homem ainda sentirá vergonha de ser honesto…”