‘O Estado não pode parar’: confira a entrevista com a governadora Daniela Reinehr

Governadora interina fala sobre aproximação com Jair Bolsonaro, troca do secretariado e medidas contra a Covid-19

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Redação ND Florianópolis

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A governadora interina de Santa Catarina, Daniela Reinehr (sem partido), esteve na manhã desta terça-feira (13) nos estúdios do Grupo ND onde falou sobre as trocas no primeiro escalão do governo, a falta de diálogo com o governador afastado Carlos Moisés (PSL), a possibilidade de continuar à frente do governo, entre outros assuntos.

Daniela anunciou a formação de uma força-tarefa dentro da PGE (Procuradoria Geral do Estado) na tentativa de recuperar os R$ 33 milhões pagos na compra dos 200 respiradores.

Daniela Reinehr criou uma força-tarefa dentro da Procuradoria-Geral do Estado para tentar recuperar os R$ 33 milhões pagos pelo Estado na compra dos 200 respiradores – Foto: Léo Munhoz/NDDaniela Reinehr criou uma força-tarefa dentro da Procuradoria-Geral do Estado para tentar recuperar os R$ 33 milhões pagos pelo Estado na compra dos 200 respiradores – Foto: Léo Munhoz/ND

A governadora interina ainda comentou sobre as relações entre o governo catarinense e o governo federal. “Nesse momento eu tenho certeza que melhorou muito a relação”, avaliou.

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Na conversa, ela deixou claro que as saídas de alguns secretários foram determinadas pela falta de diálogo entre ela e os ex-ocupantes das pastas.

Já são 15 dias no comando do Estado, de forma interina. Nessa segunda passagem, o que já foi feito?

Tenho ouvido os setores da sociedade e os principais desafios que encontrei foi criar um canal eficiente de comunicação com toda a sociedade catarinense. Ouvindo as pessoas, ouvindo seus anseios e adequar o que está sendo feito no Estado para superar todas essas dificuldades, foi o que a gente fez, principalmente na primeira semana. Com cuidados, porque não houve uma transição de governo, então tivemos que encontrar as respostas sozinhas e esses 15 dias foram muito focados na saúde, na melhoria no trato com a pandemia. Criar também essas convergências de ações entre governo estadual, federal e os municípios. Os prefeitos estavam muito carentes de atenção. Então foram 15 dias de muito trabalho, muito intensos. Estamos fluindo com menos tensão, uma pressão pela situação que se encontrava o Estado, com toda essa conjuntura que Santa Catarina está vivendo.

Então o diálogo com o governador Carlos Moises existe ou não existe?

Não existe diálogo, tanto que não houve a transição. Foi feita de uma forma bastante estranha. O livro (de posse) já chegou assinado para que eu assinasse. Não houve conversa alguma e se esperava que houvesse essa transição. Estou aqui interinamente por determinação do tribunal misto, por entender que houve elementos suficientes para que haja uma investigação maior no caso dos respiradores e eu fui trazida a assumir o governo do Estado por esse tribunal. Minha missão, interinamente, é dar andamento ao Estado, o Estado não pode parar. Os trabalhos não podem parar e, por isso, precisei fazer alguns ajustes na equipe. Não existe comunicação, não houve transição, foi algo que gerou grande espanto. Essa dificuldade de comunicar, de passar. Isso que determinou algumas mudanças (no governo), se fizeram necessárias algumas mudanças. Porque o Estado não pode parar, tem que haver um fluxo de comunicação com o todo o Estado. E as pastas precisam fluir independentemente de quem estiver à frente do governo. Todos estamos aqui para trabalhar para o Estado e não para uma pessoa.

A senhora acredita que ficará no cargo?

Tenho certeza que o tribunal vai cumprir seu papel. Minha função agora é a interinidade e me cabe respeitar a decisão do tribunal. Imagina-se que vai se produzir as provas necessárias nesse processo e eu tenho que seguir fazendo que Santa Catarina não pare, dar o meu melhor nesse momento e aguardar a decisão do tribunal.

Qual a expectativa da senhora em relação ao segundo processo de impeachment contra o governador Carlos Moisés?

É difícil de se confirmar, de falar algo. Eu entendo que me caiba falar a respeito. Cabe a mim cuidar do Estado, fazer o meu melhor, montar essa equipe que vai me ajudar em todas essas ações que não estão buscando um resultado imediato, ao contrário, são ações que eu espero que sejam perenes.

Qual a política que a senhora quer implantar no combate à pandemia? Algumas medidas mais rígidas?

A vinda da deputada Carmen Zanotto (como secretária da Saúde) trouxe uma tranquilidade muito grande e propicia que eu consiga cuidar um pouco melhor, me dedicar melhor às outras áreas. A Carmen, diferentemente de outras secretarias de Estado, tinha uma comunicação muito boa com a secretaria da Saúde e fazia esse link com o ministério da Saúde e governo do Estado. Ela está atualizada de tudo que acontecia na saúde de Santa Catarina e sabia onde tudo trancava, porque era nossa principal comunicação na área da saúde. As diretrizes que passei a ela foram à atenção básica, o tratamento imediato. Fazendo campanhas para orientar as pessoas que procurem uma orientação educativa mais direta.

O que o governo pretende fazer para auxiliar os empresários de bares, restaurantes e o setor de eventos do Estado?

Esses setores foram os que mais sofreram com a pandemia. Na semana passada, o chefe de gabinete recebeu a pauta dos empresários, já está com a secretaria da Saúde. Eles fizeram uma proposta muito bacana no meu entender. Nos propuseram uma solução, que, eu Daniela, entendo ser plausível. No entanto, a gente sabe que precisa passar pelo Coes (Centro de Operações de Emergência em Saúde). O que a gente tem de prático nisso e eu quero me solidarizar com o setor é, realmente lamentável, a situação. Eu fiz um pedido de auxílio emergencial para secretaria da Fazenda que faça esse estudo. Existem também linhas de financiamento e de auxílio sendo discutidas na secretaria da Fazenda para que a gente possa atender o setor, socorrer o setor. Realmente é o setor de maior dificuldade de retorno pela caraterística que tem. Estamos conversando com o Coes, para que consiga equalizar essa situação. O grande desafio é equalizar saúde e economia.

Como está o relacionamento da senhora com a Fecam?

É muito bom. Tenho conversado muito com eles. Tem chegado muitas demandas através da Fecam (Federação Catarinense de Municípios). Temos conversado com os prefeitos diretamente. Ainda quando vice-governadora eu era muito demandada, eu era muito procurada e sempre procurei atender.

A partir do alinhamento com o presidente Jair Bolsonaro e com o governo federal, Daniela espera trazer mais resultados para Santa Catarina – Foto: Léo Munhoz /NDA partir do alinhamento com o presidente Jair Bolsonaro e com o governo federal, Daniela espera trazer mais resultados para Santa Catarina – Foto: Léo Munhoz /ND

Em relação ao governo federal, a senhora está satisfeita como o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) trata Santa Catarina?

Eu tenho tido um excelente contato, sempre tive um excelente contato, evidentemente não como mandatária do Estado, mas sempre fui muito bem atendida. Nesse momento eu tenho certeza que melhorou muito a relação. A gente tem conseguido na saúde, na infraestrutura, tem conseguido um acesso e um retorno melhor. Que a partir de agora se tenha esse retorno, espero e tenho certeza que meus pleitos serão atendidos. Eu vejo isso como uma grande oportunidade para Santa Catarina. Espero que esse alinhamento, essa é a primeira vez que se tem um governo do Estado alinhado com o governo federal, eu consiga o máximo de resultados para nosso Estado. Esse é meu grande desafio, aproveitar esse alinhamento, aproveitar esse apoio que Santa Catarina deu na eleição do presidente. Para buscar muito mais do que a gente recebeu até agora.

Por que essa pressa de imprimir a sua marca, uma nova cara ao governo, a senhora acredita que sua chance de permanecer no governo são maiores agora em relação a sua primeira passagem?

Algumas mudanças foram necessárias para que o Estado possa ter mais fluidez. Para que não pare. As pessoas que chegaram ao governo vieram para secretarias são pessoas com capacidade técnica reconhecida.

A senhora justificou que os novos nomes do governo não foram escolhas da Daniela, foram escolhas de quem? Opositores dizem que a senhora está tentando influenciar no julgamento do tribunal especial.

As escolhas foram da governadora Daniela. Evidentemente que ouvindo toda a sociedade catarinense. Uma das grandes pautas que eu acredito que eu consegui trazer da minha governabilidade anterior foi criar um canal eficiente de comunicação com a própria imprensa e com a toda sociedade. Esse foi um dos grandes objetivos naquela vez, algo que era muito travado, muito fechado. Essa comunicação tenho com os prefeitos, as associações, com todos os setores. Eu entendo que esse era um anseio do Estado.

Governadora interina lamenta a crise institucional vivida pelo Estado no momento mas diz estar preparada para governar – Foto: Léo Munhoz / NDGovernadora interina lamenta a crise institucional vivida pelo Estado no momento mas diz estar preparada para governar – Foto: Léo Munhoz / ND

A senhora entende que essa troca no comando do Estado não faz bem?

Algo muito triste, um momento que ninguém gostaria de passar. Essa troca constante gera uma instabilidade muito grande ao Estado. Não gostaria que isso acontecesse. Mas o fato é que fui trazida ao governo interino pelo tribunal misto que afastou o governador, que entendeu que existem elementos suficientes para uma investigação maior no caso dos respiradores.

A senhora está preparada para governar até a próxima eleição caso continue no cargo?

Eu acredito que eu estive preparada no dia em que aceitei ser candidata a vice-governadora. Evidentemente que no dia a dia vai aprendendo qual a melhor situação. Um aprendizado constante. A reação que a gente tem de acordo com os problemas que vêm chegando em que demonstram essa capacidade de dar continuidade.

O que a senhora espera dos líderes políticos e empresariais?

O que espero de todas as lideranças e toda sociedade, nesse momento, é que a gente consiga convergir as forças pelo Estado. Estamos em um momento crítico, de pandemia, em que a gente vive uma crise institucional muito grande. Santa Catarina foi o Estado mais prejudicado do país, a gente não sofreu apenas com pandemia, sofreu com problemas climáticos, sofreu com economia, enfim uma série de problemas que precisam ser resolvidos.

Os R$ 33 milhões enviados à Veigamed [para a compra de 200 respiradores] a senhora ainda acredita ter esse dinheiro de volta?

Esse assunto é de extremo interesse meu. Que a gente consiga reaver esses recursos. Com isso eu determinei à PGE e na sexta-feira (9) foi montada uma força-tarefa. Foram nomeados procuradores com experiência na busca de ativos, para que a gente realmente consiga encontrar esses valores e trazê-los de volta para o Estado.

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