O novo herói nacional

O brado ético e civilizatório de Renan Calheiros deu-se na sequência de uma cena que fez o país se lembrar dos melhores e mais emocionantes filmes de máfia

Receba as principais notícias no WhatsApp

Renan Calheiros deu um brado contra a baixaria. Imediatamente foi parar nas manchetes da grande imprensa. Uma imprensa para ser grande precisa ecoar as lições de moral de Renan Calheiros. É o tipo do evento que enche o brasileiro de esperança: a elite intelectual rendida a esse monumento da ética republicana.

Renan Calheiros é relator da CPI da Covid-19 – Foto: Marcelo Camargo/ Agência BrasilRenan Calheiros é relator da CPI da Covid-19 – Foto: Marcelo Camargo/ Agência Brasil

O brado ético e civilizatório de Renan Calheiros deu-se na sequência de uma cena que fez o país se lembrar dos melhores e mais emocionantes filmes de máfia. Calheiros e Omar Aziz, respectivamente relator e presidente da CPI da Covid, fazendo ameaças, afirmações intimidatórias, constrangimentos pessoais e coações contra um ex-secretário de Comunicação do governo federal.

Lembraram inclusive ao depoente que ele não estava mais no governo e, portanto, devia tomar cuidado porque não tinha mais proteção. Na boca de fumo se diz assim: perdeu, playboy.

Faça como milhões de leitores informados: siga o ND Mais no Google. Seguir

Ao fundo dessa cena edificante em pleno Senado, a voz estridente daquele senador de estimação das subcelebridades do Leblon pedia, como numa arquibancada de tietes histéricas, a medida mais grave contra o depoente – vocalizada pelo impoluto magistrado Renan Calheiros: prisão.

Calheiros dando voz de prisão a alguém e sendo não só tolerado, como lambido por uma intelectualidade que se diz resistência democrática é um dos sinais mais eloquentes de que o destino de um circo desses só pode ser pegar fogo.

E no dia seguinte o mesmo justiceiro de picadeiro usou os holofotes da comissão de inquérito supostamente destinada a investigar a pandemia para fazer discurso político – questão de foro íntimo, dane-se a Covid.

Uma homenagem a todos os inocentes que sofrem com a crise de saúde e acreditam em CPI de fachada. A grande imprensa, hoje composta majoritariamente por salva-vidas de aquário e pintores de rodapé, foi ao êxtase com a bravata de Calheiros.

Afinal, todos sabem que ele representa a candidatura Lula 2022 e aí reside a esperança nacional de retorno ao regime charmoso do bom ladrão. Se cultivar as amizades certas, quem sabe você vai se dar bem como um Joesley, ou um Bumlai. Vai que é tua. Mas se a sorte não te sorrir, aguenta aí só mais uma década de pindaíba e depois tenta de novo.

O tal ex-secretário que quase saiu preso do tribunal do Renan Calheiros não estava lá à toa. Achou por bem, após sair do governo, municiar essa mesma imprensa que queria o seu escalpo e investe tudo na CPI circense. Como diria Luiz Inácio 171, o mundo é dos espertos. Vamos ver se o Brasil sobrevive a eles

Tópicos relacionados