– Por que você me trancou no banheiro?
– Pra você não falar besteira na frente dos outros.
Pessoa trancada no banheiro – Foto: Pixabay– Mas eu não falei besteira nenhuma. Aliás, eu não falei nada.
Seguir– Não falou porque eu te tranquei no banheiro.
– Ok. Então pode me destrancar agora?
– Não.
– Por quê?
– Pra você não falar besteira na sala.
– Mas eu não tenho nenhuma intenção de falar besteira na sala.
– Acabamos de discutir um assunto polêmico aqui fora e deu uma discussão terrível.
– Então o que adianta você me manter trancado, se já deu problema?
– Na dúvida prefiro te deixar fechado aí.
– Que dúvida? Você diz isso com base em quê?
– Com base na minha decisão de manter a casa em harmonia.
– Mas já saiu briga!
– É, mas se eu não tivesse te trancado no banheiro seria pior.
– Como assim?
– Poderia ter saído tapa.
– Como você sabe?
– Porque eu sei que te trancar no banheiro diminui os contatos e evita conflitos.
– Mas eu nunca bati em ninguém.
– Tudo tem a primeira vez.
– Por que você acha que eu iria às vias de fato com alguém agora pela primeira vez na vida?
– Não é questão do que você já fez. É questão do que você pode vir a fazer.
– Por que eu subitamente viria a fazer isso?
– Não sei. Mas na dúvida, melhor te prender no banheiro.
– Continuo sem entender o que eu fiz que te colocou em dúvida.
– Não é necessariamente você. Saia desse personalismo. Existe um mundo à sua volta. Os ânimos andam inflamados. Se alguém te faz uma provocação mais ácida você pode ter uma reação sem precedentes. No fundo estou te protegendo.
– Estou com fome.
– Bebe água.
– Água não mata a fome.
– Pra que matar? Que pensamento violento é esse? Viu como você está precisando ser contido?
– Querer matar a fome é um pensamento violento?
– As palavras denunciam as intenções. Eu notei o tom agressivo com que você pronunciou o verbo matar. Ficou clara a sua falta de empatia.
– O que eu preciso fazer pra mostrar minha empatia?
– Calar a boca.
– O silêncio é empático?
– No seu caso, sim. Melhor que falar besteira e contribuir com a onda de ódio.– Quando é que eu vou poder sair daqui?
– Quando o perigo passar.
– E como é que eu vou saber se o perigo passou?
– Você não precisa saber de nada.
– Não?
– Não. Quem te trancou fui eu, quem vai saber a hora de te destrancar sou eu.
– E o perigo?
– O perigo é você.