“Foi a revolução quem fez a mulher brasileira o indivíduo que ela é hoje, foi a revolução quem deu à mulher o direito de ter cérebro, de deixar de ser sombra da criatura e ser a própria criatura”. Você sabe de quem é essa frase? Se disse Antonieta de Barros, acertou.
Se estivesse viva, nesta terça-feira (11), ela completaria 122 anos. Muito se sabe sobre a grande mulher que foi Antonieta de Barros, primeira deputada negra do Brasil, professora e jornalista. Mas você conhece os legados da mulher que foi considerada uma das heroínas da pátria para além da vida pública?
Feliz aniversário, Antonieta de Barros! Se estivesse viva, completaria 122 anos nesta terça-feira (11) – Foto: Jeruse Romão/Acervo da Família/DivulgaçãoLegado na família
“Antonieta sempre foi uma presença em nossa família, não por alguma lembrança específica, mas como um exemplo de superação”, disse o sobrinho-neto de Antonieta de Barros, Flávio Soares de Barros.
SeguirEle relembrou o quanto o pai, mesmo sem ter conhecido, falava dela, de Leonor – irmã de Antonieta – e sobre a rigidez de Catarina – mãe das duas, que trabalhou como lavadeira para ajudar no sustento da casa, já que o pai de Antonieta morreu muito cedo.
Os contatos familiares eram muito distantes, mas o laço familiar era inquebrável. “Sempre houve uma proximidade afetiva, mesmo distante. Quando meu avô faleceu, Leonor publicou um anúncio no jornal em Florianópolis, o que demonstra essa proximidade”, conta Flávio.
O sobrinho-neto de Antonieta conta que se sempre se sente intrigado pelo fato das irmãs – Antonieta e Leonor – terem fotos de família, algo pouco comum na época. “Outra coisa é a independência e certos hábitos, como viajar aos finais de semana ou até ter telefone fixo, como mostrou a professora Jeruse Romão [em suas obras sobre Antonieta]”.
Para ele, esses aspectos mostram que Antonieta era uma mulher à frente do seu tempo. “É até difícil imaginar hoje como duas irmãs pretas, Antonieta e Leonor, eram vistas em seus deslocamentos”, relembra.
Antonieta de Barros no jardim de casa, na década de 30 – Foto: Alesc/Jeruse Romão/Divulgação/NDFlávio aponta que sua maior proximidade com Antonieta é quando lê os textos que ela escreveu. “Quando leio algum texto dela, percebo que temos muito em comum. Sinto uma inspiração muito forte, isso me traz um sentido de responsabilidade de prosseguir construindo o legado que ela deixou”.
Assim como Antonieta, Flávio também se interessou pela política. Porém, somente depois de muito tempo percebeu que estava seguindo, em alguns aspectos, os mesmos passos que ela. “Claro que não com o mesmo brilho, nem a mesma coragem“, complementa.
O orgulho de ter uma mulher como Antonieta de Barros na família é enorme para Flávio. “Para que suas ideias sejam conhecidas mais amplamente, estamos criando o Instituto Antonieta, que irá proceder à difusão do legado de Antonieta”, finaliza.
Antonieta de Barros: uma mulher à frente do seu tempo
Jeruse Romão, professora, escritora e grande admiradora de Antonieta de Barros, conta que “ela foi uma pessoa diferenciada, alguém que trouxe pautas diferentes na época. Não devemos lembrar dela somente na data do seu aniversário ou data de morte, devemos lembrar dela por conta da sua importância“.
A autora lembrou das pautas pelas quais Antonieta lutava firmemente, temas bem atuais que tratam sobre gênero, lutas raciais, contra a violência e contra o ódio.
Um exemplo dessa luta de gênero viva na vida de Antonieta de Barros foi uma frase que disse em 1932, na qual discute uma pauta atual em um tempo distante: “se o trabalho é o mesmo, por que se depreciar o esforço feminino, ou explorá-lo, pagando menos?”
Um dos maiores exemplos de Antonieta de Barros como percursora das lutas raciais é uma frase que dizia a outros professores: “existe uma diversidade de pessoas, ou seja, não existem alunos iguais, cada um possui sua individualidade, então não devemos generalizar a cor ou classe social de cada um.”
“Ela tinha uma frase sobre a liberdade de opiniões, que cada ser humano deve ter: ‘posso ter uma postura que as pessoas podem divergir, porque somos seres individuais e cada um tem sua opinião, mas espero que me escutem com profundo respeito'”, conta Jeruse.
Segundo a escritora, nas muitas vezes que Antonieta de Barros precisou enfrentar ataques raciais ela dizia: “o respeito é o princípio essencial para a convivência humana”.
Heroína da pátria
No início de janeiro de 2023, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) incluiu o nome de Antonieta de Barros no Livro de Heróis e Heroínas da Pátria. A sanção que inclui nome da catarinense no livro foi publicada no DOU (Diário Oficial da União), em formato de lei nº 14.518, de 4 de janeiro de 2023.
Antonieta de Barros nasceu em 11 de julho de 1901, na cidade do Desterro, atualmente chamada de Florianópolis, treze anos após a abolição da escravatura. Para se tornar heroína da pátria, percorreu um caminho bem desafiador, mas com muita garra e dedicação conseguiu superá-lo e se tornar uma mulher inspiradora para muitas.
Pioneira e líder excepcional
Para Jeruse, Antonieta deixou uma lição grandiosa sobre a importância do apoio ao acesso à educação de pessoas mais carentes, tanto em escolas como em instituições de ensino superior. “Eu, Jeruse, acredito que ela estaria muito satisfeita com o avanço das mulheres na política, pois lá na década de 30 ela disse: ‘as mulheres podem ser quem elas quiserem ser'”.
Antonieta de Barros foi uma heroína da vida real. Ela realizou feitos pioneiros que ninguém do movimento negro esperava e, por isso, é considerada uma inspiração para muitos. Ela criou a própria escola particular e deu aulas para adultos e pessoas carentes.
Segundo a Alesc (Assembleia Legislativa de Santa Catarina), Antonieta foi a primeira mulher negra a trabalhar na imprensa catarinense, quando fundou o próprio jornal, chamado “A Semana”, que conduziu entre os anos de 1922 e 1927.
Também foi a primeira deputada negra do país. Em 1934, foi eleita e exerceu o mandato entre 1935 e 1937 na Alesc. Além disso, em 19 de julho de 1937, se tornou a primeira mulher a assumir a presidência de uma assembleia no Brasil.
Vale lembrar que Antonieta foi responsável pela criação do Dia do Professor, comemorado em 15 de outubro. A data começou a ser comemorada inicialmente em Santa Catarina, a partir do ano de 1948. No entanto, 15 anos depois, em 1963, a data se tornou oficial no Brasil pelo então presidente João Goulart (PTB).
Como professora, Jeruse acredita que talvez Antonieta não estaria satisfeita com a valorização do professor nos dias atuais. “Para ela, o professor era o instrumento e o aluno era a alma, somente o professor pode propiciar o sucesso ou garantir o fracasso“.
“O professor, tem que ser mais que instrutor: o arquiteto apaixonado do futuro, o plasmador consciente das individualidades, um idealista impenitente. Trabalhar com a alma e o coração, postos no futuro, e ser, desse alvorecer deslumbrador, que se divisa, além, muito além, ainda, o sol, e a própria vida”
– Antonieta de Barros
‘Uma vanguardista’
“Se pararmos para analisar, Antonieta era uma vanguardista. Ela decidiu que não iria ficar fechada na caixinha do racismo e do machismo”, disse Jeruse.
No entanto, isso não significa que Antonieta não foi afetada por movimentos conservadores, tanto homens quanto mulheres a condenaram pelo fato dela ser mulher negra e estar na política, diziam que aquele lugar não era o dela, explica a escritora.
Como Jeruse disse, Antonieta enfrentou desafios, ainda na infância, quando a escola não era acessível para as mulheres, teve que enfrentar pessoas racistas. Ela não foi aceita de forma imediata, teve que desafiar a política e de ser aceita como política.
“Toda ação precisa de um instrumento. O instrumento básico da vida é a instrução. Se educar é aprender a viver, é aprender a pensar. E nessa vida, não se enganem, só vive plenamente o ser que pensa. Os outros se movem, tão somente”
– Antonieta de Barros
“Por isso digo que ela trouxe um diferencial, inspirou e inspira muitas mulheres. Repito de novo, não é sobre data de nascimento e data de morte. É sobre a importância que Antonieta teve para a sociedade”, declarou Jeruse.
“Eu senti uma responsabilidade enorme ao escrever sobre alguém tão inspirador, tenho uma irmã chamada Antonieta, por conta de Antonieta de Barros. Sua memória não era acessível para todos e ela é uma pessoa que tem uma biografia inspiradora”, revela Jeruse.
Jeruse afirma que é muito difícil encontrar uma mulher negra, filha de escravos, que nasceu 13 anos após a abolição da escravatura, que viveu em uma sociedade preconceituosa e que se tornou alguém grandiosa. “Por isso foi desafiador escrever sobre uma mulher inspiradora, para que as pessoas leiam e conheçam a vida e as obras de Antonieta de Barros”, declarou.
O catolicismo presente na vida de Antonieta
Romão assegurou: “ela era muito católica”. Antonieta era muito bem vista na igreja, sua coluna no jornal era recheada de citações e passagens bíblicas e, de fato, ela exercitava a fé na vida cotidiana.
Antonieta de Barros citava sempre o amor, em sua coluna. Apesar disso, não existe registros de casamentos ou envolvimentos com outras pessoas. “Ela exercitava o olhar para os mais pobres que não tinham posses, auxiliava as pessoas tanto de forma material quanto espiritual. Ela exercitava o amor ao próximo”, disse Jeruse.
Era comum que Antonieta participasse de movimentos dentro da igreja. Como campanhas do agasalho ou campanha da fome. Sempre em prol de pessoas doentes e frágeis. “Ela praticava o bem sem ver a quem e possuía a figura de mãe, muito associada à Maria”, finaliza Jeruse.
Um aprendizado
Antonieta de Barros enfrentou muitos desafios por ser uma mulher negra que conquistou diversas coisas em um século em que o preconceito exacerbado corria solto sem nenhum tipo de penalização. Toda essa força inspira meninas, fazendo com que lutem pelos sonhos e nunca desistam de seus ideais.
Aqueles que não conhecem o legado que Antonieta de Barros deixou aos catarinenses, Jeruse aconselha a ler os textos dessa figura icônica e fazer uma imersão. Além disso, refletir sobre como alguém, no início do século 20, que tinha poucas condições, não desistiu dos seus sonhos e conquistou muito.
Antonieta de Barros enfrentou muitos desafios por ser uma mulher negra – Foto: Flavio Tin/Arquivo/ND