Por que candidatos de Joinville tiveram menos de dez votos?

18 nomes que concorreram à Câmara de Vereadores nessas eleições conquistaram dez ou menos votos

Juliane Guerreiro Joinville

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Assim que o resultado das eleições de Joinville foi divulgado no primeiro turno, uma situação despertou a curiosidade dos eleitores da cidade. Entre os candidatos à Câmara de Vereadores, 18 conquistaram dez ou menos votos. Um deles, inclusive, não teve sequer um voto contabilizado.

Para entender por que esses candidatos tiveram resultados tão inexpressivos nessas eleições, o ND+ entrou em contato com eles. Nem todos responderam, mas alguns contaram sobre como foi a campanha e por qual motivo teriam recebido poucos votos. Confira!

Nem o candidato votou em si mesmo

Entre a lista de candidatos com menos de dez votos, o que mais chama a atenção é o caso de Manoel Bambam Soares (DEM), que não recebeu nenhum voto, isto é, nem mesmo o dele.

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Manoel diz que foi registrado como candidato, mas que não fez campanha. “Eu fui registrado para completar a nominata do partido. Como deu problema com vários nomes que não passaram no TRE (Tribunal Regional Eleitoral), eu estava como filiado e coloquei meu nome. Só fui registrado, mas não fiz campanha”, afirma.

Como não recebeu verba do partido, ele acredita que não se encaixa como um candidato laranja. “Eu não me encaixo porque não fui beneficiado com dinheiro nem com cargo, com nada. Coloquei meu nome à disposição para completar a nominata, mas não tive benefício nenhum, só vi o negócio viável para ajudar o pessoal”, diz.

Dezoito candidatos não chegaram aos dez votos – Foto: Antonio Augusto/Ascom/TSE/Divulgação/NDDezoito candidatos não chegaram aos dez votos – Foto: Antonio Augusto/Ascom/TSE/Divulgação/ND

Candidato teve apenas um voto

Outra situação que chama a atenção é a de Jan Budal Arins (PMB), que recebeu apenas um voto. “Eu tenho duas empresas e, quando eu entrei na política, acreditei que a pandemia ia passar logo e as coisas iam andar normalmente, mas o movimento caiu 90% e tive que demitir funcionários. Com isso, eu fui obrigado a suprir, então trabalhava das 5 às 20 horas”, conta Jan, ressaltando que, por isso, não teve tempo de fazer campanha.

O mais curioso é que o voto que Jan recebeu não veio dele nem de sua família. “Eu não votei em mim mesmo para não desperdiçar o meu voto porque acho que ele é importante. Então, eu estudei e encontrei um candidato”, fala. Ele não recebeu verbas do partido e diz que nem mesmo chegou a abrir conta.

Decepção com o resultado

Se Jan e Manoel não fizeram campanha, há quem tenha feito e se decepcionado com o resultado. É o caso de Rogério Lisboa Portugal (PT), que recebeu apenas oito votos neste pleito. Ele já havia sido candidato em 2016, quando recebeu 28 votos, e ficou chateado com a piora no resultado.

“Não pretendo voltar a me candidatar, para mim foi um basta. A pessoa fica muito magoada. Se há quatro anos fiquei decepcionado, desta vez fiquei bem mais. Esperava, no mínimo, uns cem votos”, desabafa Rogério.

Manoel Bambam não registrou nem mesmo o próprio voto – Foto: Reprodução/Site TSE/NDManoel Bambam não registrou nem mesmo o próprio voto – Foto: Reprodução/Site TSE/ND

Resultado acende alerta para candidaturas laranja

Apesar de curioso, o resultado inexpressivo de alguns candidatos nas eleições acende o alerta para a existência de candidaturas laranja. 

O cientista político Eduardo Guerini explica que essa prática pode ocorrer de diversas formas. Uma delas é quando o partido não consegue completar a nominata e registra qualquer um dos filiados apenas para poder preencher a lista de candidatos. “Essa é uma prática que afronta a democracia porque, se o partido não tem estrutura, como vai disputar o pleito? Isso significa que é um partido nanico, uma sigla de aluguel”, avalia.

Outro tipo de candidatura laranja ocorre em relação às cotas femininas nas nominatas. Por lei, todos os partidos são obrigados a registrar 30% de mulheres como candidatas de acordo com o seu total de nomes na disputa. Como não têm participação feminina, muitas siglas candidatam mulheres que não estão envolvidas com a política apenas para atender a exigência legal. “Isso demonstra que o partido não tem abertura para a participação feminina”, explica Eduardo.

Porém, para o cientista político, “a laranja mais podre” de todas é quando o candidato usado para completar a nominata recebe recurso e o repassa para outros candidatos com maior potencial para vencer as eleições. “Todas essas formas demonstram que os partidos não estão preparados para uma disputa que inclua mulheres e com distribuição equitativa de recursos. Isso denota uma distorção dentro dos partidos brasileiros, que não têm vida partidária”, ressalta.

Para Eduardo, as candidaturas laranja são prejudiciais porque acabam não elegendo pessoas que realmente representam os interesses da população. “Muitos partidos são dirigidos por caciques que distribuem os recursos sem critério, que atendem aos interesses de candidatos com maior exposição e estrutura de campanha mais consolidada. Com isso, os partidos que disputam o pleito eleitoral dentro da democracia representativa não são nada representativos nem democráticos. Na essência, o eleitor só ratifica aquilo que os líderes do partido já definiram”, analisa.

Eduardo explica que há um procedimento investigatório e uma diretriz da Justiça Eleitoral para analisar os resultados das eleições e verificar a existência de candidaturas laranja. No entanto, ele reforça que é preciso denunciar para que as práticas sejam investigadas. “O ideal seria cassar a nominata e o registro do partido para impedir que essa prática se enraizasse, mas não é o que acontece”, fala.

Quem são os candidatos que receberam menos de dez votos em Joinville

  • Manoel Bambam (DEM) – 0 voto – não recebeu verba do partido
  • Jan Budal Arins (PMB) – 1 voto – não recebeu verba do partido
  • Jaqueline Oliveira (Solidariedade) – 2 votos – recebeu R$ 1 mil do partido
  • Cleri Thibes (Avante) – 2 votos – não recebeu verba do partido
  • Jadna (PSC) – 3 votos – recebeu R$ 100 do partido
  • Roseli Pereira (PSC) – 4 votos – recebeu R$ 100 do partido
  • Beatriz Barcellos (Avante) – 6 votos – recebeu R$ 176 do partido para materiais
  • Thalita Larrea (PSDB) – 7 votos – recebeu R$ 3.448,27 do partido
  • José Renan (PSL) – 7 votos – não recebeu verba do partido
  • Elisabete Fernandes (Cidadania) – 7 votos – recebeu R$ 2 mil do partido
  • Telis Júnior (PSL) – 7 votos – não recebeu verba do partido
  • Maraiza (PSC) – 8 votos – recebeu R$ 100 do partido
  • Rogério Lisboa Portugal (PT) – 8 votos – não recebeu verba do partido
  • Renata Pet (PTC) – 9 votos – não recebeu verba do partido
  • Kelly Freitas (PL) – 9 votos – recebeu R$ 2,5 mil do partido
  • Vanessa Val (DEM) – 10 votos – não recebeu verba do partido
  • Sonia Montteiro (PTC) – 10 votos – não recebeu verba do partido
  • Lino (Avante) – 10 votos – recebeu R$ 176 do partido para materiais

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