A Paróquia Nossa Senhora da Boa Viagem recebeu na última terça-feira (30) a notícia de que uma das agendas culturais previstas não seria cumprida na cidade de Bocaina do Sul. A exibição do filme “Geada de Chumbo, memórias da ditadura militar em Lages” foi impedida pela prefeitura municipal.
Filme teve exibição proibida em auditório de escola – Foto: Reprodução/Geada de Chumbo, Memórias da Ditadura Militar em Lages/NDO longa-metragem seria exibido no último dia 30 no auditório da Escola Padre Theodoro. A ação fazia parte de atividades entre 1 de setembro e 4 de outubro, acolhendo o apelo do papa Francisco para a celebração do “Tempo da Criação 2022”. A celebração traz uma série de reflexões feitas sobre a Igreja Católica que abrange temas como oração, ecologia e mudanças climáticas, por exemplo.
Segundo comunicado da Paróquia, a decisão da prefeitura de não passar o filme foi tomada “por conta de uma denúncia feita na Ouvidoria do município com parecer do Controle Interno da Prefeitura Municipal de Bocaina do Sul”. A Paróquia diz em nota que a alegação é de que o filme tem “severa denotação política”.
Prefeitura não fala em censura
O ND+ entrou em contato com a prefeitura de Bocaina para entender a medida. A resposta veio da Controladoria Interna de Bocaina do Sul, que explicou que o documentário tem “o lado histórico e o lado político” e que “ele fala expressamente e diretamente sobre um candidato às eleições”.
“Se fosse um documentário sobre a lava-jato também não ia passar. Neste momento não podemos ter nenhum vínculo de um ente político com as eleições. O nosso papel é orientar para que não tenha nada irregular. Passar este documentário neste período poderia acarretar em ser mal interpretado”, explica a pasta.
Outro ponto argumentado não tinha relação com a produção em si, mas com um comentário feito em rede social (que, segundo a pasta, foi apagado). Este comentário teria sido feito por uma das diretoras, Suzane Faita, com um link para outra produção que teria viés político.
O que diz a Paróquia?
Em nota assinada pela Paróquia Nossa Senhora da Boa Viagem, o padre José Roberto Moreira e os diretores Armin Reichert, Jary Carneiro Junior e Suzane Faita dizem que a temática da motivação partidária também foi levantada.
“Registra-se que não há qualquer motivação partidária por parte dos promotores da exibição do filme, ao contrário, apenas os fatos históricos são apresentados na categoria de documentário, o que já é de conhecimento de todos. A condição de censura para exibição da obra cinematográfica, ficou evidente, até porque, todos os partidos políticos que pleiteiam a vitória nas eleições de 2022, pregam de forma aberta o sistema democrático, que é o regime de governo ainda vigente neste país. Assim sendo, um documentário histórico com ‘memórias da ditadura’ em nada fere o sistema eleitoral”, escreve.
Sobre o filme
Geada de Chumbo, Memórias da Ditadura Militar em Lages foi lançado no dia 17 de abril de 2021. Os acontecimentos relacionados à ditadura, que compreende os anos entre 1964 a 1985, são descritos a partir de entrevistas com pessoas que presenciaram a violência e foram, de alguma forma, impactadas pela censura e repressão. Também integram o documentário familiares de presos políticos em 1964.
De acordo com um dos diretores do filme, Armin Reichert, o filme foi custeado pela lei Aldir Blanc municipal e levou em média dois anos para ser finalizado.