Produtividade e eficiência para reduzir custos e enxugar máquina pública

31/08/2021 às 09h00

Funcionalismo público terá novo perfil, ajustado à máxima “fazer mais com menos”; uso da tecnologia ajudará a otimizar tarefas

Lorenzo Dornelles Florianópolis

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Um assunto que é muito debatido – velha promessa de campanha política – é o enxugamento da máquina pública, com redução de custos desnecessários. Com o aumento de tecnologias no setor público, isso será possível?

Segundo a análise do professor Denilson Sell, do curso de Administração da Udesc, a tecnologia vai ter um papel fundamental para compensar uma queda no número de servidores, que será necessária e inevitável.

Funcionalismo público terá novo perfil, ajustado à máxima “fazer mais com menos”; uso da tecnologia ajudará a otimizar tarefas – Foto: Fábio Abreu/NDFuncionalismo público terá novo perfil, ajustado à máxima “fazer mais com menos”; uso da tecnologia ajudará a otimizar tarefas – Foto: Fábio Abreu/ND

“Cabe destacar que o comprometimento das receitas com folha e pensão inviabilizam a reposição de servidores, na medida em que o quadro atual está se aposentando. Torna-se imprescindível buscar maneiras de manter os serviços mesmo em cenário de redução substancial de efetivo”, explica.

Para o professor, a redução de custos não passa só pela diminuição da mão de obra, mas por outros auxílios vindos da tecnologia.

“Entendo que a digitalização pode possibilitar o aumento da produtividade e da eficiência, ajudando na redução de custos e na promoção da qualidade no serviço prestado”, alerta.

A tendência é que os empregos públicos devam passar por uma mudança de perfil nos próximos anos.

“Quanto à perspectiva de trabalho, entendo que novos modelos de contratação e de parceria público-privada vão fazer cada vez mais sentido nas práticas adotadas pelo governo”, completa.

Avanços esbarram em cultura e gestão

Três aspectos que são fundamentais para reduzir custos dentro da gestão pública foram relacionados pelo professor, Givanildo Silva, da UnoChapecó.

A primeira delas menciona a tendência de queda no número de profissionais no futuro.

“No governo federal, até 2025, a perspectiva é ter entre 30 e 40% dos servidores públicos federais se aposentando. Aí tem a parte de aposentadoria, salários, pensões, que são pagas pelo fundo, e não diretamente pelo governo. Essa é a primeira perna do enxugamento, que se dá na questão de não recolocar concursos, não fazer a reposição desses funcionários que serão aposentados”, afirma.

A mudança no perfil das contratações e no pagamento de salários é o segundo pilar destacado pelo professor. “Os servidores públicos recebem o dobro dos salários pagos na iniciativa privada, em média. Mas, existe a possibilidade de enxugamento da questão salarial, porque não existe um gatilho anual de reajuste dos salários”, afirma. 

“O governo federal pode justificar a contenção com base na Lei de Diretrizes Orçamentárias e não colocar previsão de reajuste salarial ou fazer um reajuste abaixo da inflação. Dessa forma, consegue enxugar o gasto com salários dos servidores públicos”, explica.

Por último, o especialista ressalta a importância da autoavaliação e incorporação de melhorias dentro das organizações. “A terceira perna é que a própria gestão pública possui um mecanismo de melhorias, de sempre estar reavaliando, fazendo com que a máquina pública seja mais eficiente, seja menos burocrática”, diz.

“Um exemplo é a Secretaria de Estado de Administração. Um grupo fica constantemente avaliando o atendimento, os serviços, os processos ao público e otimizando. Isso pode reduzir o número de servidores, fazendo com que os processos sejam digitalizados”, completa Silva.

Menos servidores, salários mais baixos e maior produtividade

As mudanças apontadas não são simples de serem colocadas em prática. Pesquisas recentes revelam que 70% das iniciativas de transformação digital em organizações privadas e públicas fracassaram. 

“Neste sentido, são vários os desafios relacionados, incluindo os fatores organizacionais, como falta de uma visão clara, falta de alinhamento, aspectos normativos e legais, cultura refratária à inovação, questões éticas, entre outras”, afirma o professor Denilson Sell.

Há também os fatores ligados ao trabalho e à tecnologia, como a falta de alinhamento dos processos, tecnologia inadequada ou imatura, além dos fatores individuais: novas competências requeridas e medo da mudança.

A solução, na visão do professor, demanda estudos, planejamento e inclusão da população.

“Cabe aos gestores públicos buscar compreender conceitos sobre cidades inteligentes e governo como plataforma, estabelecer uma visão e objetivos claros para nortear a jornada de transformação das organizações, além de estabelecer estratégias e canais que propiciem o engajamento da sociedade na criação do bem comum”, pontua. 

A transformação digital pode envolver inovações na administração pública que vão além da inovação tecnológica, na prática aborda uma nova maneira de enxergar a sociedade e de entregar valor à sociedade. “Estamos falando em tornar o governo um orquestrador de ações, em possibilitar que diferentes atores se tornem parceiros do governo ou que possam estabelecer novas formas de produção de valor”, conclui Sell.

Pilares da gestão pública – Foto: Ilustração/NDPilares da gestão pública – Foto: Ilustração/ND