Repetem-se no Brasil resistências à privatização de estatais prestadoras de serviço, como os Correios – afinal privatizados depois de assaltos aos seus bens e até ao seu fundo de pensão.
Criaram-se nas estatais habitualmente assaltadas por partidos políticos uma diretoria de “compliance”. Não é moderno? É o termo, em inglês, da regra de conduta corporativa que zela pelas “leis gerais e regulamentos internos”. Meu Deus, mas só agora, depois dos cofres arrombados? Deveria ser criada a diretoria “É proibido roubar”.
O que será dos Correios?- Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil/NDAssim mesmo, em bom português, para que todos entendessem. Nelson Rodrigues, o dramaturgo da alma brasileira, matou a charada há mais de quarenta anos:– O homem faliu. Trata-se de uma espécie que não deu certo…Pois é.
SeguirO Brasil é um país “quase” civilizado. É como diagnosticou o próprio Nelson, num Rio de Janeiro ainda nem tão violento.
Estamos sempre nos subúrbios de uma plenitude e nunca chegamos lá. Quase fazemos as coisas vitais e realmente nunca as fazemos. Somos como aquela cidade do realismo fantástico de Gabriel Garcia Márquez, onde os homens eram quase honestos, a Polícia era quase eficiente, a “renda per capita” quase de primeiro mundo. Neste “país-do-quase”, estamos quase limpos, quase “lavados” (a jato), quase reabilitados, quase vivendo uma vida normal. Quase.
Falta-nos, porém, neste momento tão embaciado, um pouco de bom humor. De repente, parece que o Brasil perdeu, definitivamente, o bom astral. Na primeira página dos jornais e dos telenoticiários só ricocheteiam as más notícias, como ameaças de penosas rupturas ou os desentendimentos institucionais entre autoridades.
Depois do que aconteceu no Afeganistão, o mundo parece ter perdido o humanismo e a misericórdia. Mas, lamentavelmente, o Brasil está perdendo a própria capacidade de viver em democracia, cujo primeiro princípio é o convívio entre os contrários.
Convívio é bom humor, é civilização, é liberdade. É uma manifestação de refino cultural e de inspiração bergsoniana (“o humor é a quebra da lógica”). Os seus equipamentos, como as “charges”, dos bons humoristas, são aparelhos limpos, porque de suas lâminas não escorre sangue. Quando diminui o bom humor, é sinal de enfraquecimento da democracia.