Posicionado no lugar onde durante oito anos assinou decretos, comandou reuniões e governou Joinville, Udo Döhler relembrou sua trajetória à frente da prefeitura da maior cidade de Santa Catarina.
Entre os percalços, as inúmeras reclamações sobre buracos em ruas, obras do Rio Mathias e, mais recentemente, a pandemia da Covid-19.
Udo Döhler relembrou sua trajetória em frente a prefeitura da maior cidade do Estado – Foto: Jaksson Zanco/PMJApós um governo marcado por críticas, que chegaram a refletir nas urnas em novembro, Udo deixa a prefeitura com ar de tranquilidade e diz não se arrepender de ter aceitado o desafio de comandar o município.
SeguirComo um dos seus últimos atos no gabinete, ele recebeu a equipe do Grupo ND para fazer um balanço da gestão, o que ficará para o próximo governo e seus planos para o futuro.
Grupo ND: Primeiramente, gostaríamos de agradecer o senhor por nos receber aqui. Aliás, este é seu último compromisso no gabinete, isso?
Udo: É verdade. Esta é a última oportunidade que temos para, daqui do Gabinete, falar com Joinville e Santa Catarina. Estamos terminando o nosso governo. Foram oito anos extremamente generosos e esperamos que tenhamos oferecido uma boa contribuição para melhorar a vida do cidadão joinvilense.
Ao parar e pensar um pouco nesta sala, o quanto o prefeito se sente realizado por contribuições à cidade? Já que daqui saíram decretos, reuniões, assinaturas, projetos…
Foram oito anos em que encontramos avanços importantes, especialmente nas áreas da educação e saúde. Hoje, Joinville conta com a melhor distribuição da saúde pública municipal do país.
Da mesma forma, no Ensino Fundamental, somos os melhores do Sul. A melhor escola, pontuada pelo Ministério da Educação, está aqui em Joinville. Foram avanços importantes e que vão refletir no futuro. 40% das profissões desaparecerão nos próximos 20 anos, então é preciso preparar a juventude para esse novo momento.
E nesses oito anos, quais foram as maiores dificuldades?
Inicialmente, nós chegamos na Prefeitura e encontramos o município em uma situação econômica e financeira muito difícil, quase de insolvência. E isso nos obrigou a melhorar o nosso processo de gestão. Joinville é a única prefeitura no Brasil 100% informatizada. Passamos oito anos sem nenhum desvio de conduta, sem nenhuma licitação anulada.
Tínhamos contas atrasadas no início do primeiro mandato de quase quatro anos. Hoje, todos os nossos compromissos estão sendo pagos rigorosamente em dia, inclusive durante a pandemia. O fluxo de caixa para o ano que vem já está definido. Enfim, saímos daqui tranquilos de que fizemos aquilo que foi possível.
Pandemia não pode ser deixada de lado na nossa conversa. O município, assim como o mundo, precisou rever a gestão e recursos. Qual a sua avaliação da gestão executiva e municipal junto a saúde neste ano?
A pandemia hoje é sem dúvidas a nossa maior preocupação. Quando chegamos na Prefeitura, o nosso investimento na área da saúde era de 33%. Como nosso compromisso constitucional é de apenas 15%, compete ao município apenas cuidar da atenção básica, porque a média e alta complexidade é dever do Estado. A pandemia já é um compromisso maior e é dever da União.
A nossa intenção era reduzir esse nosso compromisso para 27%. Hoje gastamos com a saúde 38%. Isso é extremamente adverso e até perverso em dado momento, porque nós temos cidades importantes em Santa Catarina, como a Capital do Estado, onde esses gastos são inferiores a 20%. Mas valeu a pena investir na saúde.
Atualmente todos os nossos postos de saúde foram reformados. O Hospital São José hoje é referência no Sul do país. E isso fez com que nós pudéssemos conviver com toda a segurança nesse momento de Covid-19.
As UTIs estão muito visitadas, são poucas vagas que estão sobrando. Recentemente com o aumento de casos, tivemos que aportar mais dez novos leitos, mas todos os equipamentos estão aí, como respiradores e EPIs. Essa última semana já foi melhor. Os casos se acomodaram um pouco. Mas enfim, estamos convivendo relativamente bem com a pandemia.
Hospital São José recebeu novos leitos na última semana para combate à pandemia – Foto: Carlos JúniorVoltando a falar sobre esses oitos anos. Durante todo esse período, o senhor consegue elencar ao menos três obras que se destacam?
Quando nós falamos em obras, nossa atenção se volta para uma ponte, por exemplo, que vai ligar o Adhemar Garcia e o Boa Vista. Esse é um recurso que havia sido prometido pelo Governo do Estado, de R$ 120 milhões. Esse aporte não aconteceu e nos obrigou a buscar recursos próprios, então fizemos o financiamento com o Fonplata de U$ 40 milhões. Ou seja, são R$ 200 milhões cujo dinheiro já está conosco e o projeto executivo já foi concluído.
O licenciamento ambiental demorou dois anos para ser realizado pelo IMA (Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina), mas também já aconteceu. Agora, o momento é lançar o processo licitatório. Dado o montante, será uma licitação internacional, ou seja, isso é coisa para o próximo prefeito. Mas os recursos estão aí, o projeto está pronto, o licenciamento ok, e essa vai ser uma obra muito importante.
Claro, existe aquelas que não puderam ser cumpridas como a do Rio Mathias, por exemplo, que me incomodou muito. Mas, como as licitações sempre se decidem pelo melhor preço, as empresas afundaram os valores, e no fim vieram aqui pedir aditivos. Poderíamos fazer, concedendo 25% de reajuste, mas que não era devido. E como esse recurso não é nosso, embora esse dinheiro todo viesse a fundo perdido, não concedemos esse reajuste. A expectativa era de que nesse ano eleitoral o fizéssemos, não o fizemos. O contrato foi rescindido…
Foi a sua grande dor de cabeça prefeito?
Foi, sem dúvidas. Mas 70% da obra foi realizada, é um dinheiro a fundo perdido, faltam apenas 30%, uma nova licitação acontecerá. O município tem recurso para fazê-la. As obras complexas já aconteceram, como o piscinão ali junto a praça Dário Salles, e agora são só as galerias, que são obras mais simples. E com isso estaremos livres das enchentes na zona Central da cidade.
Teve uma época que muitos moradores reclamavam de buracos nas ruas, questão de infraestrutura, asfalto. Como o senhor avalia a sua gestão neste assunto?
Durante dois anos nós sofremos fortemente com essa cobrança do buraco nas ruas. Qual a decisão que nós tomamos? Não adianta tapar o buraco em rua onde o asfalto já foi consumido, já que fecha hoje e no dia seguinte abre outro um pouco adiante.
O que decidimos então? Recuperar toda essa pavimentação. Por isso nós contratamos um financiamento inicial, junto ao Badesc, de R$ 20 milhões, que foram usados ali na rua Piratuba, rua Tenente Abílio João, rua Tuiuti, e isso funcionou bem. Então, nós nos remetemos ao Banco do Brasil e pedimos um novo financiamento de R$ 60 milhões, que depois ampliamos para R$ 160 milhões, e esses recursos estão sendo aplicados.
Todas as nossas vias importantes, se pegar aqui no Centro a rua Blumenau, a rua Prudente de Morais, a rua XV que vai até o Vila Nova, rua Santa Catarina na zona Sul da cidade, agora estamos recuperando a rua Albano Schmidt, a rua Hellmuth que é uma rua complexa porque ali passa o trânsito da fundição Tupy. Então, hoje na infraestrutura, Joinville virou um canteiro de obras. Deixamos isso para parte final [do mandato] e ninguém mais fala de buraco, felizmente.
Udo afirma que as obras do Rio Mathias foram sua principal dor de cabeça durante o mandato – Foto: Jaksson Zanco/PMJPrefeito, o senhor chegou a fazer uma análise das eleições? Até porque teve um candidato do seu partido…
Foi uma eleição atípica. Tivemos o nosso candidato, que não foi ao segundo turno, mas estava muito próximo disso. O Cidadania, que teve como candidata a Tânia Eberhaldt, que era do MDB e migrou para esse novo partido, foram 17 mil votos que saíram da sigla que, se somasse aos votos do candidato do MDB, ele estaria no segundo turno.
Mas, sobretudo, essa eleição teve um mote diferente. O partido Novo, no primeiro turno, tinha um espaço muito pequeno na televisão, de apenas 13 segundos, e acabou indo para o segundo turno. E por que? Porque o eleitor queria uma mudança, queria o novo. O novo apareceu e essa foi a vontade do eleitor.
Essa foi uma eleição muito disputada, com 15 candidatos. Eu me recordo que na eleição de 2012 eram cinco. Em 2016, foram oito e esse número foi dobrando, e dessa vez foram 15. Foi uma eleição realmente atípica. Mas eu acho que o eleitor escolheu bem.
Já deu algum conselho para o novo prefeito? Ou qual conselho daria?
Não (risos). O novo prefeito sabe bem o que deve ser feito para a cidade. Estamos convencidos que será uma gestão seguramente melhor do que a nossa. É assim que deve ser, tem que melhorar sempre. E é nesse sentido que vai toda a nossa torcida. Existe um grupo que está dentro da Prefeitura, são sete, oito pessoas, que estão diariamente conhecendo todos os detalhes. É uma transição tranquila.
É preciso ressaltar que Joinville é uma cidade complexa. É a maior cidade do Estado. Mais de 10% da economia de Santa Catarina está em Joinville. Nós somos a 27ª cidade mais importante do país. Então, o dia-a-dia é complexo, mas temos o convencimento que o novo prefeito, que assumirá no dia 1º, dará conta do recado.
Atual prefeito da cidade Udo Döhler concedeu entrevista ao Grupo ND – Foto: Jaksson Zanco/PMJE qual o recado o senhor deixa para o joinvilense?
O recado é para que a gente continue fazendo o que fizemos durante os últimos oito anos de Governo. Todas as sugestões e todas as críticas foram essenciais para que pudéssemos avançar com nossos acertos, abreviar soluções e melhorar as áreas da saúde e educação e agora, no final do Governo, a questão da infraestrutura.
Mas sobretudo, a contribuição mais importante ainda acontecerá, que foi o que buscamos na educação. Há dois anos e meio, nós fizemos uma parceria com Singapura de matemática e ciência. Hoje o país é líder mundial nessas matérias. Eles estão dez anos à frente do Japão, por exemplo. E os técnicos de Singapura vieram para cá, naquela época, treinaram 40 profissionais nossos que foram multiplicadores.
Hoje todos os nossos professores da rede pública, de matemática e ciência, aplicam o método de Singapura. Então, levando em conta que daqui a 20 anos 40% das profissões vão desaparecer, nós vamos estar preparados para essa nova realidade. Não tínhamos nenhum laboratório de ciência nas nossas escolas. Hoje nós temos os nossos espaços makers, nossas unidades de robótica, somos pioneiros na educação financeira no ensino fundamental. E na educação infantil, hoje somos referência, tanto que a Unesco está mostrando o nosso modelo da educação infantil para o mundo inteiro.
E agora, quais são os planos para a partir do dia 1º de janeiro?
É continuar com meu dia-a-dia. Quando prefeito, eu ainda estava lá na empresa como presidente do Conselho. Na área da saúde, nós estamos contribuindo para o hospital local. Então, esse vai ser o nosso dia-a-dia daqui para frente.