Saudade da Nova República

Brasileiro gosta mesmo é de desgoverno. Por isso toda hora aparece alguém para fazer esse tipo de acusação (até ministros do Supremo)

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Diante da instabilidade crônica que se abateu sobre a democracia brasileira – vamos aproveitando enquanto podemos chamar de democracia sem incorrer em propagação de fake news – impõe se uma suspeita preocupante: o Brasil, no fundo, tem saudade do governo Sarney.

Ali éramos felizes e não sabíamos. Brasileiro gosta mesmo é de desgoverno. Por isso toda hora aparece alguém para fazer esse tipo de acusação (até ministros do Supremo). Trata-se na verdade de um ato falho, de uma crítica que sublima um desejo latente: bom mesmo é a bagunça institucionalizada, oficializada. Quem manda no país? José Sarney ou Ulysses Guimarães?

Fake news – Foto: Divulgação/NDFake news – Foto: Divulgação/ND

Ninguém sabia ao certo. E era ótimo assim. Se não está claro quem manda, também não precisa ficar claro a quem respeitar ou obedecer. Cada um faz o que lhe dá na telha, bota a culpa num terceiro e toca em frente, sem estresse.

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Sarney era o governo Tancredo que o país queria e ficou querendo; era a retomada da democracia sem eleição direta; era o governo de união nacional dirigido por um político que a nação mal conhecia; era a Nova República que ficou velha em seis meses, com uma congregação carnavalesca de caricaturas da oposição e vícios da situação; enfim, era essa licença poética do vale tudo (que virou novela) simbolizada pela Ferrovia Norte-Sul – um país com a inconfessável tentação de ir do nada ao lugar nenhum.

A Nova República foi o período em que o Brasil ficou boiando na história. Vai ver é essa a vocação. Até plano econômico arrojado era inócuo. A inflação engoliu o Cruzado, jantou os fiscais do Sarney e engordou mais que boi escondido no pasto. Assembleia Constituinte convocada para passar o país a limpo virou receptáculo de demagogia.

E o que a Constituição consagrou de importante é a parte que muito juiz graúdo gosta de sobrevoar. Esse período terminou com o poeta desafiando o Brasil a mostrar sua cara e dar o nome do seu sócio. Ele mostrou. E deu os nomes. Mas aí aquela pasmaceira modorrenta e anestésica foi virando escalada de tensão. Será que o Brasil não fica mais tranquilo no anonimato? Parem com essa mania de querer organizar tudo. Isso magoa.

Deixa solto, como diria antigamente o flanelinha, gestor do caos metropolitano. Os períodos mais tensos da história recente pós-Sarney foram aqueles em que se construiu algo sólido. Pode conferir. Da política fiscal à infraestrutura. E até os que estiveram do lado da construção podem eventualmente passar a tacar pedra – que sempre é mais fácil e menos arriscado.

O jaquetão virou fardão. Sarney é imortal. E o flanelinha também. Ergam um monumento a ele na praça dos Três Poderes – com a inscrição que sintetiza a vocação local: deixa solto. Como notou certa vez o jornalista Marcio Moreira Alves: esculhambação não tem tradução para o inglês.

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