207 mortes. 207 vidas perdidas em apenas cinco meses por conta de um único vírus: o novo coronavírus. Uma tragédia que vem afetando amigos e familiares das vítimas que construíram suas histórias em Joinville, no Norte do Estado.
Só nesta segunda-feira (17), 10 pessoas morreram em decorrência do coronavírus na cidade mais populosa de Santa Catarina.
Segundo secretário de saúde, cidade vive o pior momento da pandemia – Foto: Rogerio da Silva/SECOMPMJ/NDA primeira morte confirmada foi no dia 30 de março. A vítima foi o empresário Mário Borba, de 68 anos. De lá pra cá, as mortes foram crescendo mês a mês.
SeguirSó no mês de agosto, até esta segunda-feira (17), a cidade alcançou a triste marca de 72 mortes. Se comparado com o mesmo período do mês anterior, houve um salto de 64%: nos primeiros 17 dias de julho, foram 44 mortes. Entre as vítimas, o maior número são homens e idosos com mais de 80 anos, com 115 e 60 mortes respectivamente.
Segundo os dados da Prefeitura de Joinville, a curva de mortes vem em ascendência nas últimas semanas: a cidade já chegou a registrar oito mortes em um único dia (11 de agosto). E, agora, supera esse número registrando 10 mortes neste dia 17 de agosto.
“Estamos vivendo nosso pior momento”
“A cidade vive o seu pior momento dentro da pandemia.” É dessa forma que o secretário de saúde de Joinville, Jean Rodrigues da Silva, define o avanço no número mortes e infectados na maior cidade do Estado.
No entanto, o secretário afirma que, se não fossem as medidas restritivas adotadas, os números poderiam ser bem piores.
“Infelizmente, esta projeção já tínhamos há algum tempo. Porém, segundo as projeções, a marca teria sido alcançada há um mês”, admite o secretário.
Isto quer dizer que as mais de 200 mortes estavam previstas para julho e, neste momento, a cidade estaria com aproximadamente 250 vítimas de Covid-19.
Medidas contribuíram para frear crescimento das mortes, acredita Secretaria de Saúde
A análise do secretário de Saúde é de que as medidas de enfrentamento estão dando resultados, apesar das mais de 200 vidas perdidas.
Segundo ele, todas as decisões para flexibilização ou não das atividades têm como base a Matriz Gutai, um instrumento que considera diversos critérios de gravidade e auxilia na tomada de decisões. A fórmula foi desenvolvida pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e adotada pelo governo do Estado.
“A partir desse controle da matriz, em alguns casos estamos, sim, sendo mais restritivos. Um exemplo é o transporte coletivo que permanece suspenso na cidade”, conta.
Secretário não descarta novas restrições caso os números aumentem – Foto: Reprodução NDAs medidas, entretanto, vêm sendo questionadas pelo MPSC (Ministério Público de Santa Catarina), inclusive após o decreto que flexibiliza o horário de funcionamento de bares e restaurantes na cidade. A medida passa a valer nesta quarta-feira (19).
Além disso, no ofício enviado pelo MP à Prefeitura, o órgão também questiona o porquê da cidade não estar adotando as recomendações sobre avaliações de risco.
“Recebemos o ofício com tranquilidade e vamos respondê-lo conforme solicitado. A respeito dos bares e restaurantes, não foi uma medida tomada ‘ao vento’. Foi ao encontro da recomendação da OMS (Organização Mundial de Saúde) de tentar diminuir a concentração de pessoas em lugares fechados”, conta.
O secretário explica que, quando há restrição de horário nesses lugares, acaba acarretando na concentração de pessoas. “Não estamos tratando essa medida como uma flexibilização, mas sim como um ajuste.”
Para especialista, falta de diretriz única reflete nos números
A alta nos números é algo que vem ocorrendo não só em Joinville, mas em todo o Brasil. Para o médico pediatra e professor de microbiologia da Univille, Tarcísio Crócomo, a falta de uma diretriz única entre todos os poderes públicos acaba confundindo a população que, por consequência, “relaxa” nos cuidados.
“Essa falta de um comando único vem refletindo não só aqui em Joinville, mas em todo o país. Além disso, a desinformação também faz com que a população acabe não levando a sério a pandemia”, explica.
Outra questão apontada pelo especialista que pode ter contribuído no crescimento é a falta de medidas concretas em determinados momentos.
“Eu acredito que falta um comando único para definir as medidas. Sabemos que há essa dificuldade, mas é preciso ter uma coordenação para ajudar nesse combate”, explica.
Hospital São José é uma das unidades pública que recebe pacientes com coronavírus – Foto: Prefeitura de Joinville/Divulgação/NDO especialista também alega que a promoção do uso de medicamentos que não fazem efeito nenhum contra o vírus, por exemplo, acaba gerando uma falsa sensação de proteção.
“Atualmente, o que temos comprovado que ajuda no combate é o uso de máscaras, o distanciamento, a quarentena, isso até que tenhamos uma vacina ou medicamento eficaz. Mas, vemos que isso não está sendo levado a sério pela população”, enfatiza.
Prefeitura não descarta medidas mais restritivas
Um dos índices que também chama a atenção é a alta taxa de ocupação dos leitos. Em alguns dias, a cidade chegou a ficar sem nenhum leito de UTI na rede pública. A rede privada, inclusive, teve de abrir novos leitos para atender à crescente demanda.
Uma das medidas anunciadas pela Prefeitura era a compra de leitos em unidades privadas. Porém, segundo Jean, ainda há essa dificuldade devido aos hospitais também não possuírem vagas.
“Vamos fazer a compra de leitos privados no Hospital Bethesda. Devemos adquirir conforme a disponibilidade”, explica.
O secretário alega, ainda, que todas as mortes ocorridas, até o momento, na cidade foram por gravidade de coronavírus. Ou seja, não há vítimas por falta de assistência ou medicamentos.
Porém, mesmo alegando que as medidas têm ajudado a frear o contágio, o secretário não descarta a possibilidade de medidas mais restritivas.
Conscientização é a melhor maneira de evitar uma tragédia
Para Tarcísio, as pessoas ainda estão apreendendo sobre como o coronavírus age. Ele enfatiza que esse não é o momento de minimizar os impactos, principalmente entres os jovens.
“Às vezes as pessoas pensam ‘não vai acontecer comigo porque sou jovem’. Mas isso não tem se mostrado uma forma de se defender da doença. Ainda temos muito a aprender e é fundamental a consciência das pessoas”, conta.
O pensamento é compartilhado pelo secretário de Saúde de Joinville.
“Se você tem sentimento pelos seus familiares é necessário seguir todas as medidas necessárias. Enquanto não existirem medidas mais eficientes, precisamos mudar nossos hábitos”, finaliza Jean.
Segundo Estado, Joinville já chegou a 200 mortes
Na última sexta-feira (14), a Secretaria de Estado da Saúde já havia contabilizado 200 mortes para Joinville. Questionado sobre a divergência de dados, o município informou que irá verificar as razões da discordância em relação aos dados oficiais da secretaria municipal.