Aborto, AVC e infertilidade: médicos esclarecem alegações sobre vacinas da Covid-19

Falsos efeitos adversos causados pelas vacinas contra a Covid-19 têm circulado na internet e gerado dúvidas

Redação ND Florianópolis

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Supostos efeitos adversos causados pelas vacinas contra a Covid-19 aprovadas no país têm circulado na internet. O ND+ conversou com médicos e professores para esclarecer algumas dessas alegações, que abordam desde abortos e infertilidade até AVCs (acidente vascular cerebral).

Médicos esclarecem alegações sobre vacinas da Covid-19 – Foto: Ricardo Wolffenbuttel/Secom/NDMédicos esclarecem alegações sobre vacinas da Covid-19 – Foto: Ricardo Wolffenbuttel/Secom/ND

Até o momento, quatro vacinas contra o coronavírus foram aprovadas pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária): Comirnaty (Pfizer), Coronavac (Butantan), Janssen e Astrazeneca.

A vacinação contra a Covid-19 é realizada em pessoas acima dos 12 anos. A Anvisa analisa, agora, o pedido da Pfizer para incluir crianças de 5 a 11 anos no Plano Nacional de Vacinação.

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Alegações sobre vacinas

Afirmações de que mulheres estariam abortando após a vacinação têm repercutido na web. O imunizante também foi considerado perigoso para pilotos de avião, que estariam sofrendo AVCs em decorrência da imunização.

Outra alegação é a de que sintomas graves da Covid-19 devem ser combatidos com ivermectina e que a adoção do medicamento como tratamento precoce ajudou a zerar os casos da doença no estado de Uttar Pradesh, na Índia.

A vacinação de crianças menores de 12 anos também está em pauta. Movimentos que são contra a imunização desse grupo sugerem que a vacina pode causar infertilidade em crianças e que não se justifica, pois as chances de sobrevivência caso essa população contraia a Covid-19 são de 99,99%.

Vacinas causam abortos e AVCs?

Rogério Sobroza de Mello, infectologista e professor do curso de Medicina da Unisul (Universidade do Sul de Santa Catarina), diz que não há qualquer relação entre abortos, AVCs e a vacinação contra a Covid-19.

Embora tenha sido detectada uma ligação entre a Astrazeneca e casos de trombose – o que fez com que a vacinação de gestantes fosse suspensa com esse imunizante – segundo o professor são casos raros e isolados.

Sobroza de Mello acrescenta que a gravidez em si é um fator de risco para a trombose, pois o aumento de coagulações é comum durante a gestação.

A infecção pela Covid-19 aumenta ainda mais o risco de trombose em gestantes, uma vez que um dos efeitos da doença é justamente o aumento da coagulação do sangue.

Neste sentido, a afirmação de que a vacina provoca AVC também está equivocada, explica o professor. “A Covid-19 é fortemente relacionada ao AVC, que é uma das manifestações clínicas da doença. A vacina, na verdade, evita que esses acidentes vasculares aconteçam”.

Um estudo realizado por cientistas do Reino Unido publicado no The British Medical Journal (The BMJ) no final de agosto concluiu que a chance de desenvolver coágulos sanguíneos é maior ao ser infectado pelo coronavírus do que ao receber uma vacina contra Covid-19.

A investigação analisou dados de mais de 29 milhões de imunizados com as fórmulas da Pfizer/BioNTech ou da Oxford/AstraZeneca, entre dezembro de 2020 e abril deste ano. Eles foram comparados com informações de 2 milhões de pessoas que testaram positivo para Covid-19.

Tratamento com ivermectina é eficaz?

O professor Rogério diz que a ivermectina foi descartada como droga eficaz no tratamento da Covid-19. O medicamento é usado no tratamento de infecções parasitárias diversas.

“Não tem dado científico que suporte o uso desse medicamento”, afirma. O professor de Saúde Pública da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), Fabrício Augusto Menegon, segue a mesma linha.

“Grupos tentam tencionar para o uso de recursos que não têm eficácia comprovada como ivermectina e hidroxicloroquina. Há estudos rigorosos feitos com grupos grandes que já mostraram que o uso desses medicamentos não causa qualquer efeito de melhora ou redução de mortalidade”, destaca Menegon.

A conexão entre a ivermectina e a queda do número de casos e mortes por Covid-19 no estado de Uttar Pradesh, na Índia, é enganosa, conforme verificado pelo Projeto Comprova.

Embora autoridades locais de saúde tenham adotado um protocolo com o medicamento, os potenciais benefícios clínicos e preventivos do remédio não foram comprovados em estudos científicos bem estruturados.

Nota técnica do Ministério da Saúde diz que o uso da ivermectina para Covid-19 não está previsto em bula e a utilização off label não teve, até o momento, o respaldo das agências reguladoras, bem como do fabricante do medicamento.

Infertilidade em crianças

Ambos os professores rebatem a alegação de que a vacina da Pfizer pode causar infertilidade em crianças. O professor da Unisul diz que não há qualquer dado ou evidências que aponte para esse risco. A vacina não tem nem a capacidade de transmitir o vírus, nem de alterar a composição genética do corpo.

Para a pediatra Marcela Braz tal afirmação não tem fundamento, pois já se sabe como a vacina da Pfizer é produzida. “As crianças já são vacinadas com vacinas que são feitas da mesma forma que a da Pfizer. Se fosse verdade, os adultos também estariam inférteis. Causaria o mesmo efeito para todos”, diz.

Ao Projeto Comprova, a Pfizer afirmou que “nenhuma evidência de achados macroscópicos ou microscópicos relacionados à vacina foi encontrada nos ovários nos estudos de toxicidade de dose repetida e nenhum efeito sobre fertilidade foi identificado nas fases pré-clínicas do desenvolvimento do produto, que foram avaliadas pelas diferentes agências regulatórias do mundo”.

Crianças têm mais chance de sobrevivência?

O dado de que 99,99% das crianças têm chance de sobreviverem a Covid-19 também é falso. Menegon afirma que, só no Brasil, o percentual de mortalidade infantil em decorrência da doença é maior do que 0,1%.

“Fato é que novos estudos estão demonstrando que a vacina é segura para faixas etárias menores. É possível vacinar essa população e protegê-la. Embora a incidência da doença seja menor, é importante que as crianças sejam vacinadas”, aponta o professor da UFSC.

Rogério afirma que crianças têm menor risco de contraírem a forma grave da Covid-19. Contudo, crianças com imunodeficiência ou acometidas por doenças graves corre um grande risco ao contraírem o coronavírus.

Os dois professores e a pediatra são unânimes em afirmar que quanto mais pessoas vacinadas, menor será a circulação do vírus na sociedade e mais rápido se chegará ao fim da pandemia.

“A vacinação é uma estratégia para a erradicação da doença. Precisamos de uma cobertura vacinal alta e, para isso, temos que incluir todas as faixas etárias”, complementa Sobroza de Mello.

Atenção às informações

Menegon diz que muitas informações relacionadas às vacinas têm circulado de maneira distorcida entre as pessoas.

Segundo ele, agências de controle sanitário, como a Anvisa no Brasil, a FDA (Agência Americana de Alimentos e Medicamentos) nos Estados Unidos e a Agência Europeia são as maiores interessadas em conhecer a fundo os efeitos adversos das vacinas e nenhuma delas reportou quaisquer complicações como as citadas na reportagem.

É importante que as pessoas tenham certeza da veracidade das informações antes de compartilhá-las, destaca o professor. “Pesquise na internet sobre o assunto. Entre em sites oficiais e confiáveis que chequem as informações. Só compartilhe aquilo que tem certeza, que foi verificado”, alerta.

Diante disso, Menegon reforça que as pessoas devem compreender que a vacinação é um compromisso coletivo.

“A lógica da vacinação é a da coletividade. Gera um cinturão de proteção que impede que o vírus se alastre. As pessoas têm que acreditar na vacina e se vacinarem. É o único recurso que vai nos levar ao fim da pandemia”, completa.

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