Designer gráfico, criador de conteúdo digital e morador do bairro Capoeiras, em Florianópolis, Leonardo Medeiros se prepara para representar Santa Catarina, em novembro deste ano, na primeira edição do concurso Mister Trans Brasil, que será realizado no Teatro Agostinho, em São Paulo.
Leonardo Medeiros diz que o atendimento especializado para pessoas trans é essencial para um tratamento adequado – Foto: Acervo pessoal/ND“Estou muito ansioso. É o primeiro concurso para homens trans do Brasil, primeira edição. Temos que correr atrás de patrocínio para roupas, viagens, inscrição, faixa… não é fácil, mas eu sei que vou conseguir. Já conto com o apoio de um nutricionista, de um estilista e de um anjo que pagou a minha inscrição. Agora estou atrás de patrocínio para a viagem”, afirma ele.
Muito mais do que a beleza dos candidatos, que já são pelo menos 60 de todo o país, a competição avaliará o envolvimento destes homens com a luta pela visibilidade trans.
“Esse concurso não é somente sobre beleza, ele é político. São corpos diferentes, são vidas completamente em transformação. Somos todos resistência e o Mister Brasil Trans fará com que tenhamos mais visibilidade, para conquistar mais direitos. Para mim a motivação de participar é exatamente mostrar para as pessoas que podemos estar e ter tudo o que queremos, basta projetar para conquistar. Infelizmente somos invisíveis para a sociedade e, para que isso mude, preciso fazer diferente, preciso transcender, ir além! Mostrar ao mundo que eu existo, resisto e lutar pelos nossos direitos básicos”, explica ele.
Essa batalha não apenas Leonardo, mas toda a sua família enfrenta diariamente, contra o preconceito e a violência. Ele mora com a namorada Selma, uma mulher trans, e a filha Camilla, de 18 anos, também uma mulher trans. “Tenho a minha filha que nasceu no mesmo dia que eu e ela é trans também! E ainda por cima encontrei a minha namorada que também é trans! Quando nos conhecemos, por conta da passabilidade, nenhum de nós dois sabíamos que o outro era trans. Está sendo uma vivência extraordinária! O brabo é que convivo com mulheres trans e a dor delas é triste demais. Para conseguir trabalho, oportunidades é muito complicado. Tem que ter muita resiliência para sobreviver à uma sociedade que marginaliza”, afirma.
Terapia hormonal
Aos 37 anos, Leonardo começou a fazer a hormonização há quatro. Ele conta que logo que se mudou para Florianópolis, em 2019, começou a frequentar e realizar o tratamento no ambulatório trans da cidade. “Onde sempre fui muito bem atendido”, reforça ele.
A hormonização (também conhecida por terapia hormonal ou hormonioterapia) é uma intervenção de saúde utilizada por muitas pessoas transexuais e travestis como uma estratégia para se expressarem e serem reconhecidas pela sociedade dentro dos limites do gênero com o qual se identificam ou com o qual preferem ser identificadas.
Ele destaca que o apoio da estrutura de saúde fez toda a diferença na sua transição. “Tomar hormônio é muito perigoso se mal administrado, portanto, ter um ambulatório é muito importante, precisamos fazer exames, de receita para comprar o hormônio, visto que a testosterona não é vendida sem receita”, esclarece.
Leonardo reforça também a importância da continuidade no tratamento. “No meu caso, ficar sem atendimento me causa transtornos terríveis como enxaquecas, cólicas e até mesmo resultados fisiológicos como voltar a menstruar”, enfatiza.
Os contatos das equipes de Saúde estão disponíveis por meio do link. A população interessada no atendimento poderá tirar dúvidas também no WhatsApp do local, no número (48) 98838-5349.
No último ano, ele se mudou de Florianópolis e, por isso, teve que interromper o tratamento. Voltou há pouco mais de um mês e diz que o fato de ter um ambulatório trans na cidade foi um dos fatores que mais influenciaram na decisão de retornar ao município.
“É difícil conseguirmos ser atendidos fora de um ambulatório, até mesmo por médicos e outros profissionais da área, visto que pessoas trans não estão incluídas sistema do SUS (Sistema Único de Saúde). Se eu, como homem trans, por exemplo, precisar de algum exame ginecológico, é bem complicado conseguir, visto que o sistema faz a minha leitura como um homem. Fora isso, tem um agravante: a maioria das equipes médicas nem sabe como nos orientar, nem sabe sobre as terapias hormonais. Complicado. Por isso é importante ter um atendimento adequado. Morar na Capital me traz muitas vantagens e escolhi ficar aqui. Uma consulta com um endocrinologista custa, em média, 300 reais. É inviável pagar de forma particular”, explica.
Ambulatório tem nova sede
O ambulatório trans de Florianópolis está em um novo endereço e agora funciona na policlínica da região central da cidade. Os atendimentos são realizados às quartas e quintas-feiras no período da tarde.
O ambulatório trans de Florianópolis está em um novo endereço e agora funciona na policlínica da região central da cidade – Foto: PMF/Divulgação/NDAo todo, mais de 500 pessoas são atendidas no ambulatório com consultas regulares. Os médicos e outros profissionais de saúde acompanham as necessidades dessa população e seus processos de hormonização se indicado. De acordo com a prefeitura, além do ambulatório, todos os profissionais do SUS da Capital recebem periodicamente treinamentos sobre habilidades de comunicação relacionadas a este público para que estejam aptos para a acolhida desta população.
Pessoas trans sofrem com dificuldade de acesso aos serviços de saúde e essas iniciativas da Prefeitura da Capital atuam para adesão aos serviços e promoção de qualidade de vida para estas pessoas, melhorando sua longevidade e evitando adoecimento.
Carlos Henrique Martinez Vaz, médico de família e comunidade da Prefeitura de Florianópolis, destaca a importância do ambulatório para a saúde, como um todo, desta população.
“Temos uma equipe multiprofissional, com algumas categorias, e isso nos permite um olhar mais ampliado para a saúde. Tendo, médico, enfermeira, psicóloga, assistente social, conseguimos tanto garantir cuidados específicos, como a hormonização, como também o tratamento de condições orgânicas e crônicas, a atenção à saúde primária, aos cuidados gerais de enfermagem, coleta de preventivo, a realização de testes rápidos para HIV se necessário, a imunização”, explica.
Ele destaca ainda a importância da realização da hormonização de forma segura. “Algumas pessoas já fazem esse processo de forma autônoma, algumas vezes correndo alguns riscos, então procuramos minimizar estes riscos a partir de uma visão da saúde”, esclarece.
Saúde mental e encaminhamento
O médico explica ainda que, no ambulatório, a população trans da Capital também tem acesso a tratamento para a saúde mental. “Temos médicos de família, psicóloga para que, quando há essa necessidade, as pessoas sejam ouvidas e abordadas nestas questões. Além disso, com assistente social, tentamos garantir o acesso aos direitos delas. O carro-chefe é a retificação do nome, do registro civil destas pessoas para se adequar o nome à identidade de gênero”, esclarece.
O ambulatório, acrescenta ele, também faz a ponte com outros segmentos da sociedade, quando é necessário. “Conseguimos encaminhar esta parcela da população para a resolução de questões jurídicas, por exemplo, então também temos esse papel de ser ponte para a sociedade, de inserção para outros campos além da saúde”, ressalta.
A Secretaria Municipal de Saúde orienta ainda que a população que tiver interesse em fazer acompanhamento ou ser atendida no ambulatório trans entrar em contato com a sua equipe de Saúde da Família, que fará os encaminhamentos necessários.