CPI da Covid: Araújo recebeu carta da Pfizer e diz não ter comunicado Bolsonaro

Ex-ministro disse que não avisou o presidente por pensar que ele já sabia das ofertas de 70 milhões de doses, feitas ainda em 2020

R7 Brasília

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Depois da saída conturbada do cargo, o ex-ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo prestou depoimento nesta terça-feira (18) na CPI da Covid, quase dois meses depois da audiência pública que foi o estopim da briga de Araújo com os senadores e da sua própria demissão.

Dentre os principais destaques da sessão, estão as informações prestadas pelo ex-ministro quanto às ofertas da Pfizer, as críticas à China e sobre o envio de oxigênio para o Amazonas.

Ernesto Araújo presta depoimento na CPI da Covid nesta terça-feira (16) – Foto: Valter Campanato/Agência Brasil/NDErnesto Araújo presta depoimento na CPI da Covid nesta terça-feira (16) – Foto: Valter Campanato/Agência Brasil/ND

Araújo confirmou que recebeu a carta da Pfizer cobrando o governo por respostas às ofertas de vacinas, mas que não avisou o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) do documento.

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“Tive conhecimento do tema, e o telegrama de Washington também esclarecia que a própria embaixada em Washington já havia antecipado também para a assessoria internacional do ministério da Saúde”, respondeu ao senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP).

Ele então foi interrompido pelo parlamentar, que o perguntou se ele não comunicou Bolsonaro por pensar que o mandatário já sabia da carta. “Porque eu presumia que o presidente da República já soubesse”, confirmou Araújo.

Carta

A carta, escrita pelo presidente da Pfizer, Albert Bourla, foi enviada em setembro de 2020 ao presidente Jair Bolsonaro, com cópia para o vice-presidente, Hamilton Mourão, o então ministro da Casa Civil, Braga Netto, o ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, o ministro da Economia, Paulo Guedes, e o embaixador do Brasil nos EUA, Nestor Foster.

Conforme mostrou reportagem do R7, a embaixada do Brasil em Washington, nos EUA, comunicou oficialmente o Itamaraty ainda em 15 de setembro de 2020 sobre a carta enviada pela Pfizer, no dia 12 daquele mês.

Na mensagem, a farmacêutica relembrou as ofertas feitas um mês antes, em agosto de 2020, por 70 milhões de doses. O telegrama da embaixada, que Araújo recebeu, pontua trechos da carta onde a Pfizer fala que a rapidez do governo para fechar o contrato seria “crucial” para garantir as doses ainda em 2020, devido à alta demanda de outros países que já negociavam com a farmacêutica.

O documento se soma às revelações na CPI do ex-secretário Especial de Comunicação Social da Presidência da República, Fabio Wajngarten, e do gerente-geral da Pfizer na América Latina, Carlos Murillo. Os dois convocados afirmaram que o governo não respondeu às ofertas da farmacêutica, enviadas desde agosto de 2020.

‘Comunavírus’

Em outro momento, ao ser questionado quanto aos ataques que realizou contra o governo chinês por meio das redes sociais, Araújo negou ter criado atrito com a China, principal fornecedora de insumos para a fabricação de vacinas no Brasil.

“Eu não entendo nenhuma declaração que tenha feito como antichinesa”, disse. O ex-ministro falou que chegou a criticar o comportamento de autoridades do país asiático, mas não fez acusações contra o país.

CPI da Covid

A CPI investiga possíveis omissões da gestão no combate à pandemia de Covid-19 e desvios de estados e municípios de verbas federais. Araújo foi cobrado por suas ações enquanto ministro para obter vacinas contra a covid-19.

A questão foi tema do último encontro com os senadores, onde Araújo ouviu de integrantes de diversos partidos, como PSDB, Rede, PT e Cidadania, que sua atuação no ministério era desastrosa para obter os produto e que, sem ele, o Brasil estaria melhor.

Quatro dias depois, Ernesto reagiu e acusou a presidente da Comissão de Relações Exteriores, senadora Kátia Abreu (PP-TO), de o pressionar antes da audiência para que agisse a favor dos chineses na implantação da rede de internet 5G no Brasil. “Se o senhor fizer um gesto em relação ao 5G, será um rei no senado”, publicou o chanceler, atribuindo a frase à senadora.

O ataque tornou a permanência de Araújo no cargo, que já era incerta, insustentável. Pressionado por grande parte do Congresso, o chanceler acabou pedindo demissão. Ele mais tarde publicaria textos rebatendo críticas de que sua gestão, marcada por incidentes diplomáticos com a China, não teria dificultado a obtenção de vacinas e de insumos.

Próximos depoimentos

Depois dele, o depoimento mais aguardado da semana será o do ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, na quarta-feira (19). Na quinta-feira (20), está previsto o da secretária de gestão do trabalho e da educação na Saúde, Mayra Pinheiro, conhecida como “capitã cloroquina”.